Carl Dreyer, “Vampiro”
Â
A propósito de Vampiros, lembrei-me de um excelente livro de Jean Fisher, ensaÃsta e crÃtica de arte, que torna o vampiro num interessantÃssimo conceito para debater as questões do multiculturalismo.
Jean Fisher é uma ensaÃsta incontornável no contexto dos Estudos Culturais (foi curator de significativas mostras de artistas contemporâneos americanos nativos, trabalhou, por exemplo, em colaboração com Jimmie Durham em diversos projectos, dirigiu a revista Third Text), com larga experiência lectiva universitária. Vampire in the Text: Narratives of Contemporary Art (2003) é a sua mais recente contribuição para este problemático espaço de discussão que são os temas das identidades, do colonialismo e do multiculturalismo. Tive ainda o prazer de trabalhar com ela e Gerardo Mosquera no livro Over Here: International Perspectives on Art and Culture, onde publiquei o texto “Globalization or Endless Fragmentation?” (The MIT Press, 2004).
E porque é problemático este terreno pós-colonial das identidades ? Porque facilmente caÃmos numa espécie de neocolonialismo: Jimmie Durham, por exemplo, em conversa que mantivemos há uns anos, falava-me do «multiculturalismo» como um novo conceito hegemónico que colonizava qualquer discussão sobre identidade e alteridade; Slavoj Zizek caracteriza o «multiculturalismo» como a nova ideologia do capitalismo global; Gayatri Spivak critica a redução do «outro» a uma «identidade» (eventualmente exótica) e, por seu lado, Alain Badiou vê na desterritorialização global uma forma perversa de reterritorialização. Para Badiou, o combate dever ser, hoje, não pelo «direito à diferença», mas sim pelo «direito à igualdade».
São estes os riscos do pós-colonialismo, e é com eles que Fisher se confronta de forma inovadora. Como? Lançando para este debate uma figura de retórica e uma metáfora fortÃssima, a figura do «Vampiro».
O vampiro é uma fortÃssima imagem universal e singular, é um todo de que nunca se consegue localizar a origem, ou a identidade e raiz, dos múltiplos fragmentos que o compõem: o vampiro não tem idade (é um contemporâneo constituÃdo por sangue ou sangues muito, muito antigos); não tem identidade (o seu sangue, e ele também é sexualmente hÃbrido, é um puzzle de muitos sangues, é um puzzle de tudo o que conseguiu sorver). Enquanto universal-singular aproxima-se do «il n’y a ni un ni multiple» de Deleuze.
O vampiro pode, de facto, ser uma figura deleuziana, é um «ser em devir» permanente, ele é aquilo que vai sendo, mas é um ser terreno e «planetário».
O vampiro é uma metáfora de resistência e um espectro que ameaça o que está instituÃdo. É um «representante maligno do ancient regime», um aristocrata que perturba o mundo burguês, mas é também um sÃmbolo do capitalismo global predador que nos vampiriza. Por fim, como não ver aqui que o vampiro pode surgir como um «resistente infiltrado», um truque e um prestidigitador contra a mentira do Império global, pagando ao Império com a mesma moeda (vampirizado que vampiriza, colonizado que se alimenta do sangue do colonizador)?
Ou seja, alguém que pode combater a hegemonia com as armas da mesma hegemonia, que são a economia e a mentira.
Â
Jimmie Durham, “A Dead Deer”. 1986.
Â
Carl Dreyer, “Vampiro”
Â
A propósito de Vampiros, lembrei-me de um excelente livro de Jean Fisher, ensaÃsta e crÃtica de arte, que torna o vampiro num interessantÃssimo conceito para debater as questões do multiculturalismo.
Jean Fisher é uma ensaÃsta incontornável no contexto dos Estudos Culturais (foi curator de significativas mostras de artistas contemporâneos americanos nativos, trabalhou, por exemplo, em colaboração com Jimmie Durham em diversos projectos, dirigiu a revista Third Text), com larga experiência lectiva universitária. Vampire in the Text: Narratives of Contemporary Art (2003) é a sua mais recente contribuição para este problemático espaço de discussão que são os temas das identidades, do colonialismo e do multiculturalismo. Tive ainda o prazer de trabalhar com ela e Gerardo Mosquera no livro Over Here: International Perspectives on Art and Culture, onde publiquei o texto “Globalization or Endless Fragmentation?” (The MIT Press, 2004).
E porque é problemático este terreno pós-colonial das identidades ? Porque facilmente caÃmos numa espécie de neocolonialismo: Jimmie Durham, por exemplo, em conversa que mantivemos há uns anos, falava-me do «multiculturalismo» como um novo conceito hegemónico que colonizava qualquer discussão sobre identidade e alteridade; Slavoj Zizek caracteriza o «multiculturalismo» como a nova ideologia do capitalismo global; Gayatri Spivak critica a redução do «outro» a uma «identidade» (eventualmente exótica) e, por seu lado, Alain Badiou vê na desterritorialização global uma forma perversa de reterritorialização. Para Badiou, o combate dever ser, hoje, não pelo «direito à diferença», mas sim pelo «direito à igualdade».
São estes os riscos do pós-colonialismo, e é com eles que Fisher se confronta de forma inovadora. Como? Lançando para este debate uma figura de retórica e uma metáfora fortÃssima, a figura do «Vampiro».
O vampiro é uma fortÃssima imagem universal e singular, é um todo de que nunca se consegue localizar a origem, ou a identidade e raiz, dos múltiplos fragmentos que o compõem: o vampiro não tem idade (é um contemporâneo constituÃdo por sangue ou sangues muito, muito antigos); não tem identidade (o seu sangue, e ele também é sexualmente hÃbrido, é um puzzle de muitos sangues, é um puzzle de tudo o que conseguiu sorver). Enquanto universal-singular aproxima-se do «il n’y a ni un ni multiple» de Deleuze.
O vampiro pode, de facto, ser uma figura deleuziana, é um «ser em devir» permanente, ele é aquilo que vai sendo, mas é um ser terreno e «planetário».
O vampiro é uma metáfora de resistência e um espectro que ameaça o que está instituÃdo. É um «representante maligno do ancient regime», um aristocrata que perturba o mundo burguês, mas é também um sÃmbolo do capitalismo global predador que nos vampiriza. Por fim, como não ver aqui que o vampiro pode surgir como um «resistente infiltrado», um truque e um prestidigitador contra a mentira do Império global, pagando ao Império com a mesma moeda (vampirizado que vampiriza, colonizado que se alimenta do sangue do colonizador)?
Ou seja, alguém que pode combater a hegemonia com as armas da mesma hegemonia, que são a economia e a mentira.
Â
Jimmie Durham, “A Dead Deer”. 1986.
Â