aforismos e afins: Direita Liberal

03-07-2011
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A propósito da inspirada reflexão do AMN sobre o liberalismo(em seguimento do post do AA a que respondi aqui), a questão da necessidade de criação dum partido de «direita liberal» voltou à baila. Momento propício para relembrar esta carta, enviada após a primeira edição do «Noites à Direita», da qual destaco os seguintes excertos (comentários meus no final):«O principal problema que a direita liberal tem a resolver não diz respeito à demarcação esquerda-direita. Que a direita liberal não é de esquerda já se sabe (e isto não nega a possibilidade de um liberalismo de esquerda). O principal problema da direita liberal é sim autonomizar-se das outras direitas, sobretudo da direita que foi responsável por e da direita que ainda é saudosista do Estado Novo. A confusão entre o conservadorismo não democrático do Estado Novo e a direita liberal não é legítima, é desonesta e prejudica injustamente o prestígio que o ideário da direita liberal merece. E a principal consequência desse prejuízo é a dificuldade extrema de a direita liberal surgir como ideologia legítima, aceitável e desejável enquanto participante na democracia política portuguesa. Mas é necessário ir além desta separação. É necessário que a direita liberal se autonomize da direita conservadora democrática e da direita democrata-cristã. É que os liberais de direita não são conservadores e não são democratas-cristãos. A direita liberal não tem nada a ver nem pode ter nada a ver com o CDS-PP nem com o PSD. O CDS-PP é conservador. Como é possível a um dir-liberal sentir devoção pela autoridade do Estado? A autoridade começa por estar no indivíduo. Ao Estado cabe uma autoridade mínima, que deve ser medida pelo estritamente imprescindível. Logo, um dir-liberal não pode ser conservador. O CDS-PP é democrata-cristão. Como é possível a um dir-liberal ser contra o casamento de homossexuais? O casamento de homossexuais é um acto livre entre adultos e que só tem consequências para esses adultos e é também uma escolha íntima e de natureza familiar. Logo, por uma série de razões óbvias para um dir-liberal, o Estado não pode interferir nem proibir o casamento de homossexuais.Logo, um dir-liberal não pode ser democrata-cristão. O PSD concorda com a esquerda democrática no ról de funções que cabem ao Estado. O resultado é a aceitação por parte do PSD de um Estado monstruoso. A crítica ao Estado-monstro por parte do PSD só surge por razões de mera impossibilidade prática e não por um motivo de indesejabilidade ética. E quanto maiores são as responsabilidades do monstro, menor é a responsabilização e a liberdade dos indivíduos. Por outro lado, a “liberalização” económica do PSD limita-se às privatizações, que de um modo geral são boas, esquecendo o que é também crucial: a liberalização da entrada nos mercados (de bens e de profissões). Logo, um dir-liberal não pode ser do PSD.Se a estratégia dos dir-liberais portugueses não for a da criação de um partido político autónomo mas sim a da alteração por dentro dos partidos de direita já existentes, o liberalismo nunca terá qualquer importância política em Portugal pois esta estratégia em Portugal não pode ter outro resultado que não o fracasso. A primeira razão é ideológica. O liberalismo de direita não é compatível nem com a democracia-cristã nem com o conservadorismo. (...) A segunda razão é ética e de justiça. Não é justo que os dir-liberais continuem a ser atacados por serem fascistas e reaccionários e salazaristas. (...) A terceira razão é programática. O liberalismo de direita é uma ideologia extremamente rica. É possível construir um programa político da direita liberal completo e totalmente autónomo (...) A última razão é estratégica. Mesmo que um partido mude por dentro, uma grande parte do eleitorado, senão a maioria dele, continuará a associá-lo às ideologias anteriores. É verdade que a maioria dos portugueses pura e simplesmente não gosta do CDS-PP. Se é uma atitude emocional ou racional, esclarecida ou ignorante, justa ou injusta nada disso interessa muito: o que interessa é que é uma atitude legítima e com grande expressão em termos eleitorais. Para quê então o liberalismo de direita associar-se a um partido que não tem nada a ver consigo e que não colhe grande simpatia junto dos eleitores?»Eu não partiho integralmente a visão do autor desta carta (Ricardo), mas sinto-me mais próximo dela do que do muito que se escreve na blogosfera de direita e/ou liberal. A direita liberal pode tentar influir no PSD mas não creio que seja concretizável a partir do CDS-PP actual ou futuro, pelas razões que o autor aponta.O CDS-PP sofre grande (e legítima, claro) influência do conservadorismo e da democracia-cristã para (poder vir a) ser um partido verdadeiramente liberal. Querer impor certa moral é respeitável mas não é liberal. O PSD tem um problema diferente. Defende demasiada intervenção estatal. A diferença para com o CDS-PP é notória. Enquanto com o PSD se trata de um problema de grau de intervenção do estado na esfera económica-social, com o CDS-PP trata-se de um problema de natureza da intervenção do estado na esfera privada-moral dos indivíduos.Usando a proposta que o professor Bento de Jesus Caraça* faz (quanto à forma de caracterizar diferentes objectos na realidade), diria que a existência dum ideário de direita liberal no PSD é uma questão de quantidade, enquanto no CDS-PP é de qualidade.Ou seja, o PSD poder-se-ia ajustar, mantendo a sua matriz de base. Tornando-se mais liberal, menos estatista. Uma questão de calibragem. Mas o CDS-PP teria de realizar um verdadeiro volte face. Uma descaracterização total. Teria de deixar de viver (legitimamente) demasiadamente à sombra da Igreja Católica e deixar de querer meter o dedo em seara alheia no que diz respeito a comportamentos individuais que a mais ninguém dizem respeito.A ideia do CDS-PP pode vir a ser um partido de direita-liberal é a meu ver irrealista, porque a sua essência é demasiado antagónica com uma visão realmente liberal da sociedade.Sobre parte da minha concepção do que é ser (um) liberal, recordoeste meu post, e a discussão intensa na blogosfera que o inspirou.*Conceitos Fundamentais da Matemática, Gradiva, (em especial Capítulo I, "Estudo matemático das leis naturais", pgs 101-117).


A propósito da inspirada reflexão do AMN sobre o liberalismo(em seguimento do post do AA a que respondi aqui), a questão da necessidade de criação dum partido de «direita liberal» voltou à baila. Momento propício para relembrar esta carta, enviada após a primeira edição do «Noites à Direita», da qual destaco os seguintes excertos (comentários meus no final):«O principal problema que a direita liberal tem a resolver não diz respeito à demarcação esquerda-direita. Que a direita liberal não é de esquerda já se sabe (e isto não nega a possibilidade de um liberalismo de esquerda). O principal problema da direita liberal é sim autonomizar-se das outras direitas, sobretudo da direita que foi responsável por e da direita que ainda é saudosista do Estado Novo. A confusão entre o conservadorismo não democrático do Estado Novo e a direita liberal não é legítima, é desonesta e prejudica injustamente o prestígio que o ideário da direita liberal merece. E a principal consequência desse prejuízo é a dificuldade extrema de a direita liberal surgir como ideologia legítima, aceitável e desejável enquanto participante na democracia política portuguesa. Mas é necessário ir além desta separação. É necessário que a direita liberal se autonomize da direita conservadora democrática e da direita democrata-cristã. É que os liberais de direita não são conservadores e não são democratas-cristãos. A direita liberal não tem nada a ver nem pode ter nada a ver com o CDS-PP nem com o PSD. O CDS-PP é conservador. Como é possível a um dir-liberal sentir devoção pela autoridade do Estado? A autoridade começa por estar no indivíduo. Ao Estado cabe uma autoridade mínima, que deve ser medida pelo estritamente imprescindível. Logo, um dir-liberal não pode ser conservador. O CDS-PP é democrata-cristão. Como é possível a um dir-liberal ser contra o casamento de homossexuais? O casamento de homossexuais é um acto livre entre adultos e que só tem consequências para esses adultos e é também uma escolha íntima e de natureza familiar. Logo, por uma série de razões óbvias para um dir-liberal, o Estado não pode interferir nem proibir o casamento de homossexuais.Logo, um dir-liberal não pode ser democrata-cristão. O PSD concorda com a esquerda democrática no ról de funções que cabem ao Estado. O resultado é a aceitação por parte do PSD de um Estado monstruoso. A crítica ao Estado-monstro por parte do PSD só surge por razões de mera impossibilidade prática e não por um motivo de indesejabilidade ética. E quanto maiores são as responsabilidades do monstro, menor é a responsabilização e a liberdade dos indivíduos. Por outro lado, a “liberalização” económica do PSD limita-se às privatizações, que de um modo geral são boas, esquecendo o que é também crucial: a liberalização da entrada nos mercados (de bens e de profissões). Logo, um dir-liberal não pode ser do PSD.Se a estratégia dos dir-liberais portugueses não for a da criação de um partido político autónomo mas sim a da alteração por dentro dos partidos de direita já existentes, o liberalismo nunca terá qualquer importância política em Portugal pois esta estratégia em Portugal não pode ter outro resultado que não o fracasso. A primeira razão é ideológica. O liberalismo de direita não é compatível nem com a democracia-cristã nem com o conservadorismo. (...) A segunda razão é ética e de justiça. Não é justo que os dir-liberais continuem a ser atacados por serem fascistas e reaccionários e salazaristas. (...) A terceira razão é programática. O liberalismo de direita é uma ideologia extremamente rica. É possível construir um programa político da direita liberal completo e totalmente autónomo (...) A última razão é estratégica. Mesmo que um partido mude por dentro, uma grande parte do eleitorado, senão a maioria dele, continuará a associá-lo às ideologias anteriores. É verdade que a maioria dos portugueses pura e simplesmente não gosta do CDS-PP. Se é uma atitude emocional ou racional, esclarecida ou ignorante, justa ou injusta nada disso interessa muito: o que interessa é que é uma atitude legítima e com grande expressão em termos eleitorais. Para quê então o liberalismo de direita associar-se a um partido que não tem nada a ver consigo e que não colhe grande simpatia junto dos eleitores?»Eu não partiho integralmente a visão do autor desta carta (Ricardo), mas sinto-me mais próximo dela do que do muito que se escreve na blogosfera de direita e/ou liberal. A direita liberal pode tentar influir no PSD mas não creio que seja concretizável a partir do CDS-PP actual ou futuro, pelas razões que o autor aponta.O CDS-PP sofre grande (e legítima, claro) influência do conservadorismo e da democracia-cristã para (poder vir a) ser um partido verdadeiramente liberal. Querer impor certa moral é respeitável mas não é liberal. O PSD tem um problema diferente. Defende demasiada intervenção estatal. A diferença para com o CDS-PP é notória. Enquanto com o PSD se trata de um problema de grau de intervenção do estado na esfera económica-social, com o CDS-PP trata-se de um problema de natureza da intervenção do estado na esfera privada-moral dos indivíduos.Usando a proposta que o professor Bento de Jesus Caraça* faz (quanto à forma de caracterizar diferentes objectos na realidade), diria que a existência dum ideário de direita liberal no PSD é uma questão de quantidade, enquanto no CDS-PP é de qualidade.Ou seja, o PSD poder-se-ia ajustar, mantendo a sua matriz de base. Tornando-se mais liberal, menos estatista. Uma questão de calibragem. Mas o CDS-PP teria de realizar um verdadeiro volte face. Uma descaracterização total. Teria de deixar de viver (legitimamente) demasiadamente à sombra da Igreja Católica e deixar de querer meter o dedo em seara alheia no que diz respeito a comportamentos individuais que a mais ninguém dizem respeito.A ideia do CDS-PP pode vir a ser um partido de direita-liberal é a meu ver irrealista, porque a sua essência é demasiado antagónica com uma visão realmente liberal da sociedade.Sobre parte da minha concepção do que é ser (um) liberal, recordoeste meu post, e a discussão intensa na blogosfera que o inspirou.*Conceitos Fundamentais da Matemática, Gradiva, (em especial Capítulo I, "Estudo matemático das leis naturais", pgs 101-117).

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