Por muitas estantes que houvesse nunca estavam arrumados; entrava-se em casa e tropeçava-se neles.Havia-os no vão da escada, atrás dos móveis, debaixo dos sofás, em cima da televisão. Eram livros dele e de outros, novos e velhos, portugueses e estrangeiros, comprados ou herdados. Eram romances e dicionários, biografias e ensaios, policiais e poemas. De autores mortos e vivos, maiores ou menores, divertidos ou mortais. Tantos, que não se podiam limpar, que não se podiam contar.Mas ele conhecia-os, um por um.- Foste tu que tiraste daqui o dicionário de símbolos?- Não, pai, nunca vi esse livro...Era espantoso: roubava-se um livro e ele descobria, detectava a falta dele no meio das lombadas, pressentia o lapso, estranhava a ausência, pesava-lhe a perda, deixava-se acabrunhar como se ficasse de repente mutilado, incompleto, como se só a recuperação daquele livro lhe restituísse a ordem interior.- Era um livro grande, amarelo, com letras azuis...- A sério, pai: não vi.As criadas riam-se, claro:- Para que quer o senhor doutor tanto livro? Vai ler isto tudo?- Sou escritor - desculpava-se ele, embaraçado -, precisava de os ter à minha volta...Não havia dia em que não saísse com uma pilha de volumes debaixo do braço, e que não voltasse com um saco a abarrotar de novos calhamaços.Já o conheciam, na Rua do Alecrim.- Mais? - perguntava a minha mãe, alarmada.Mas ele não se ofendia; abria o saco devagarinho, e ria-se todo, criando suspense:- Olhem só o que eu encontrei...E mostrava para ninguém os seus achados.Um dia encontrou-me a ler Pascoaes, e indagou, apreensivo:- Onde é que foste buscar esse livro? - À estante do seu escritório - respondi-lhe eu, distraída.- Ah! - fez ele, contrariado. - Quando for assim, deves perguntar primeiro...- O pai não estava em casa...!- Mesmo assim - insistiu ele. - Não gosto que mexam nas minhas coisas...Tinha toda a razão: eram as suas coisas.E, no dia seguinte, antes de sair, certificava-se:Já voltaste a pôr o Verbo Escuro na minha secretária?- Não, pai, ainda não acabei de ler...- Ah! Mas quando acabares não te esquecas de voltar a arrumá-lo no mesmo sítio, não?Havia um sítio. Um sítio determinado para arrumar aquele livro. Um sítio determinado para arrumar qualquer livro que fosse dele. Não por burocrata ordenação; mas mais como se cada escritor tivesse um quarto para ficar em sua casa.E só ao jantar se interessava:- Então? Estás a gostar daquele livro?- Muito...- Muito? - perguntava, incrédulo. - É só isso que tens para me dizer?E sentido:- Achas que um escritor leva a vida inteira a escrever só para vocês gostarem "muito"?Mas como eu dizia que sim, insolente, ele acabava a rir, desmanchado:- Já não é mau, de facto...Temos uma casa em Vale de Óbidos. A minha mãe gostava de bebericar gim-tónico com rodelas de limão apanhado no pomar, e ele, de trabalhar, à frente dos limoeiros...Foi ali que escreveu o seu romance, foi ali que anteviu a sua morte.- Pai! O que é que está a escrever?- Um livro que não quer ser escrito...Era assim que o víamos sempre: a contrariar os seus livros. Um dia, teve mais dores do que de costume e saiu de casa numa maca.- O que é que leva aí escondido, pai?- O que é que há-de-ser?- Não quer descansar?- Não...- Posso vê-lo?- Podes... - autorizou, renitente.Abri-lhe as mãos frias, tolhidas, inúteis, e virei o livro ao contrário para confirmar se era aquilo que eu pensava.- Isto só o pai... - ri eu, engolindo em seco. - ...levar isto para o hospital!Tinha-me enganado: não era a Bíblia, como esperava, mas o Verbo Escuro outra vez.- Tem sido o meu companheiro... - revelou-me ele, com dores.E levantou o braço com esforço para o arrancar das minhas mão, para o apertar muito nas dele.Aquele livro.Aquele livro que desapareceu com o meu pai, num dia de nevoeiro. Aquele livro que nem as enfermeiras, nem os meus irmãos, nem eu, conseguimos mais localizar. Aquele livro que o meu pai levou com ele, certamente, para o arrumar numa estante perto dele...Rita FerroO Sítio"VER", Círculo de Leitores, Lisboa, Inverno 1994, N' 25, pp. 124-125
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Por muitas estantes que houvesse nunca estavam arrumados; entrava-se em casa e tropeçava-se neles.Havia-os no vão da escada, atrás dos móveis, debaixo dos sofás, em cima da televisão. Eram livros dele e de outros, novos e velhos, portugueses e estrangeiros, comprados ou herdados. Eram romances e dicionários, biografias e ensaios, policiais e poemas. De autores mortos e vivos, maiores ou menores, divertidos ou mortais. Tantos, que não se podiam limpar, que não se podiam contar.Mas ele conhecia-os, um por um.- Foste tu que tiraste daqui o dicionário de símbolos?- Não, pai, nunca vi esse livro...Era espantoso: roubava-se um livro e ele descobria, detectava a falta dele no meio das lombadas, pressentia o lapso, estranhava a ausência, pesava-lhe a perda, deixava-se acabrunhar como se ficasse de repente mutilado, incompleto, como se só a recuperação daquele livro lhe restituísse a ordem interior.- Era um livro grande, amarelo, com letras azuis...- A sério, pai: não vi.As criadas riam-se, claro:- Para que quer o senhor doutor tanto livro? Vai ler isto tudo?- Sou escritor - desculpava-se ele, embaraçado -, precisava de os ter à minha volta...Não havia dia em que não saísse com uma pilha de volumes debaixo do braço, e que não voltasse com um saco a abarrotar de novos calhamaços.Já o conheciam, na Rua do Alecrim.- Mais? - perguntava a minha mãe, alarmada.Mas ele não se ofendia; abria o saco devagarinho, e ria-se todo, criando suspense:- Olhem só o que eu encontrei...E mostrava para ninguém os seus achados.Um dia encontrou-me a ler Pascoaes, e indagou, apreensivo:- Onde é que foste buscar esse livro? - À estante do seu escritório - respondi-lhe eu, distraída.- Ah! - fez ele, contrariado. - Quando for assim, deves perguntar primeiro...- O pai não estava em casa...!- Mesmo assim - insistiu ele. - Não gosto que mexam nas minhas coisas...Tinha toda a razão: eram as suas coisas.E, no dia seguinte, antes de sair, certificava-se:Já voltaste a pôr o Verbo Escuro na minha secretária?- Não, pai, ainda não acabei de ler...- Ah! Mas quando acabares não te esquecas de voltar a arrumá-lo no mesmo sítio, não?Havia um sítio. Um sítio determinado para arrumar aquele livro. Um sítio determinado para arrumar qualquer livro que fosse dele. Não por burocrata ordenação; mas mais como se cada escritor tivesse um quarto para ficar em sua casa.E só ao jantar se interessava:- Então? Estás a gostar daquele livro?- Muito...- Muito? - perguntava, incrédulo. - É só isso que tens para me dizer?E sentido:- Achas que um escritor leva a vida inteira a escrever só para vocês gostarem "muito"?Mas como eu dizia que sim, insolente, ele acabava a rir, desmanchado:- Já não é mau, de facto...Temos uma casa em Vale de Óbidos. A minha mãe gostava de bebericar gim-tónico com rodelas de limão apanhado no pomar, e ele, de trabalhar, à frente dos limoeiros...Foi ali que escreveu o seu romance, foi ali que anteviu a sua morte.- Pai! O que é que está a escrever?- Um livro que não quer ser escrito...Era assim que o víamos sempre: a contrariar os seus livros. Um dia, teve mais dores do que de costume e saiu de casa numa maca.- O que é que leva aí escondido, pai?- O que é que há-de-ser?- Não quer descansar?- Não...- Posso vê-lo?- Podes... - autorizou, renitente.Abri-lhe as mãos frias, tolhidas, inúteis, e virei o livro ao contrário para confirmar se era aquilo que eu pensava.- Isto só o pai... - ri eu, engolindo em seco. - ...levar isto para o hospital!Tinha-me enganado: não era a Bíblia, como esperava, mas o Verbo Escuro outra vez.- Tem sido o meu companheiro... - revelou-me ele, com dores.E levantou o braço com esforço para o arrancar das minhas mão, para o apertar muito nas dele.Aquele livro.Aquele livro que desapareceu com o meu pai, num dia de nevoeiro. Aquele livro que nem as enfermeiras, nem os meus irmãos, nem eu, conseguimos mais localizar. Aquele livro que o meu pai levou com ele, certamente, para o arrumar numa estante perto dele...Rita FerroO Sítio"VER", Círculo de Leitores, Lisboa, Inverno 1994, N' 25, pp. 124-125