Domingo, Junho 13, 2004 O meu mastro das alminhas (FLD, por agora) (Aviso ao leitor: isto é texto para quem ainda sabe gozar o domingo, para imprimir e ler com vagar à sombra das tuias, bebericando um verdelho, que escrita telegráfica só em Morse, não em palavras saboridas. Aos bloguistas apressados, as minhas desculpas.)
O que o meu primo Jacob promete é devido, para mais que ele já andava de um lado para o outro do seu celeste Pátio da Alfândega, a passear-se nervoso com o adiamento da festa, com o empenho que ele põe nestas coisas. Lembram-se do programa de festas para a família do coronel Pontiagudo? A festa hoje foi de arromba, só ensombrada por ele não se ter lembrado de que nem todos são madrugadores como ele. É verdade que dias de reformado são todos iguais, mas eu continuo a marcar o domingo como dia especial, em que dou largas ao meu defeito de ser muito dorminhoco. Necessidade de quem tem que carregar as baterias para uma actividade sempre frenética, de quem, como me dizia a minha avó em folgas plebeias ao seu espírito de finura, "tem bicho carpinteiro no rabo".
Mas hoje houve variante, não foi só o santelmo do costume que me acordou. Quando rebentou o primeiro foguete, estremunhacordei e vi de viés que ainda eram seis da manhã. Lá fui à minha varanda-proa e estava o vigia das Feteiras carregado de foguetes. Foram sessenta e o primo Jacob disse-me que era só uma amostra para Novembro (depois conto porquê). Só um vizinho meu é que deu pelo caso, tenho que falar com ele como quem partilha dotes, mas a perguntar-me se os traficantes de droga já tinham chegado ao nosso bairro.
E lá vem a procissão, cabo abaixo. De capitão, como não podia deixar de ser, o primo Jacob, sempre ajudado pelo meu ídolo de infância, o meu amigo Amadeu, a fazer macacadas, de canário muito louro, não podia deixar de ser. Figurão inesquecível, com nome predestinado. Amadeu, o que ama a Deus ou o que Deus ama? Ou Theo e philo, em grego? Em qualquer caso, passa pelas crianças, que Deus só ama os que amam as crianças e só se ama a Deus se se olha para Deus com olhos de criança. O Amadeu tinha um carro muito velho, ainda com buzina de corneta e borracha, que dava sinal logo no princípio da rua. Só se ouvia ao mesmo tempo, de dentro de uma casa, "ó José, olha o menino", para o José ter cuidado com o irmão mais novo, que ainda chuchava sentado na soleira a ver as nossas brincadeiras. Mas, chegado o Amadeu, parava toda a brincadeira, que tudo o que coubesse amontoado no carro lá ia brincar para terras mais vastas e de aventura, como rebolar Monte Gordo abaixo e, às vezes, cair no Charco da Madeira. Foi com ele que vi os ensaios da companhia de circo com que estava tão entusiasmado mas que falhou por falta de artistas, era com ele que ia às cantigas ao desafio. Mas continue o cortejo.
À frente, um grupo de foliões do Espírito Santo, opas e mitras de bispo, às ramagens vermelhas, rabeca, viola da terra, pandeireta e ferrinhos, tocando a cantilena que lamento não poder reproduzir. O meu filho informático tentou pôr a música em mp3, mas caloiro ainda é caloiro. E até banda de música, reunida com grande custo pelo Amadeu de entre seus velhos conhecidos músicos da União Fraternal e da Rival das Musas. Do ensaiador encarregou-se o primo Jacob, que, com o seu irresistível encanto, conseguiu que o Karajan, sem cachet, os pusesse a tocar qualquer coisa pelo menos reconhecível como o triplo concerto.
Logo vêm uns anjinhos, com arcos de grinaldas. Porquê, perguntei-me, lembrando-me apenas das danças de carnaval da minha terra. Só depois me lembrei de que hoje é S. António e que o primo Jacob, sei lá como, deve ter sabido que uma certa noite de S. António, há muitos anos, deu uma grande volta na minha vida. Os anjinhos, como os conhecemos, são brancos quase transparentes, mas no meio lá vem um com ar bem real e morenito. Ah, é o Jorginho! Aos anos que não pensava nele. Companheiro de brincadeiras na Rua do Saco, morto atropelado num desfile militar, foi o primeiro cadáver que vi. E logo de uma criança! Menino de sua mãe, só não tinha a cigarreira porque ainda não tinha idade. Mas fez-me rir, falando-me do maluquinho da travessinha. A travessinha da Rua do Saco tinha uns pilares de pedra a impedir o trânsito. Sobre um deles, empoleirava-se o maluquinho anónimo, a mais minúscula figura de gente que já vi, a cantar odes e hinos à Virgem, até que uma das manas solteironas da janela defronte lhe atirava um chinelo. Tem agora lá em cima uma peanha dourada para cantar junto à Senhora.
Honras especiais para o primeiro grupo. O doutor Armando vem de asa dada com o seu grande amigo, o meu querido avô José da Costa. Riem-se às gargalhadas entre quadras repentistas em latim macarrónico. Como sempre o conheci, o doutor Armando vem com penas de estamenha do Nordeste. Diz-me que encontrou finalmente o descanso de uma vida angustiada, na companhia do seu grande amigo S. Francisco. É mesmo o seu ajudante oficial na construção do presépio celeste oficial, mas vai-me contando que o sublime santo fica sempre incomodado ao colocar o burro e a vaca, porque parece que é aquilo a Companhia de Jesus. O meu avô, que entre 54 netos se permitia dar-se ao luxo de me escolher como um dos preferidos, vem como mocho da ciência, em minha homenagem, mas inconfundivelmente com o peito polvilhado de rapé. Mocho e ciência, mas para ele, homem cristalizado no renascimento, primeiro as humanidades. Lá me perguntou se eu continuo a pensar em cada palavra escrita ou dita, como me ensinou, porque primeiro está o verbo. Fácil foi fazer lá em cima grande amizade com o Padre Vieira, para além dumas visitas frequentes a Cícero, Virgílio, Horácio e muitos outros, sobrando-lhe ainda tempo para umas discussões teológicas com Tomás de Aquino. Mas sobre o meu avô não digo mais, que merece outras escritas.
Com eles também, um bando de estorninhos, de olho vivo, gente querida de que já falei: Ilídio Sardoeira, Lúcio Miranda, Almeida Pavão, Mário Rego Costa, Isabel Coutinho, todos aqueles que me fazem ter saudades do meu liceu. Vêm também saudar-me o João, o Hugo e o Manuel, companheiros de infância perdidos na guerra. Vêm tios e vêm primos, amigos que se foram antes de tempo, figuras da meninice como o ferreiro onde me atardava à vinda da escola, maravilhado perante o rubro da forja e as faíscas das marteladas, o taberneiro da esquina que lavava na rua as grandes pipas, com seixos a rolar com um ruído inesquecível, o mestre torneiro que me fazia ver sair uma obra de arte de um tosco barrote, o mestre Alfredo que me fazia espadas e pistolas de madeira, tantos mais, que saudades e que alegria em vê-los.
E, lá ao cantinho, a Sra. D. Assunção, vizinha de conversa da minha avó, janela com janela. Fez-nos uma partida, aos três irmãos. Ofereceu-nos um magnífico "jogo dos 15", em madeira e cortiça, esmeradamente trabalhado pelo seu marido. Mas, como não disse a quem oferecia, ainda hoje nos digladiamos sobre a posse do precioso jogo. Só ao domingo e à segunda-feira é que não conversavam, que o calendário religioso era diferente. Uma senhora viúva que se preze não pode ir à missa ao domingo, só à segunda, de braço dado com a vizinha do café, a mais doce das doçuras que conheci, sempre embiucada no seu capote e capelo e exímia em fazer à miudagem da Rua do Saco os moinhos de cana e papel, com um grão de tremoço a travar o alfinete.
Sebastião preto melrão é que ficou à distância e não me ligou muito, talvez envergonhado de tão luzida companhia. Mas vi que estava a gostar, porque comentava muito para a sua melrinha Lianor. E foi ela que se atreveu, saltitando de lá detrás, a vir-me pousar no ombro e dar novidades. Com a ajuda da avó Makeba e de uns oguns que por lá andam - politica de ecumenismo! - Sebastião deixou o álcool e é hoje o muito apreciado treinador do Celeste Futebol Clube. E que o pai me mandava dizer que nunca tinha visto o vaticinado poste de electricidade como este, com paus tão grandes de través e bocados de pano, onde é que já se viu tanta bandeira em poste de electricidade, que era o que ele me tinha prometido. E que eu tivesse cuidado, porque já estou em idade de começar a pensar a quem é que deixo esta virtude de ver as alminhas, como ele me deixou.
E pairando acima, porque só poisa para falarmos a dois e essas conversas não conto, a minha águia real, o meu pai.
Minhas alminhas do corisco, não param quietas? Já disse que nenhuma fica sem me falar, tenho todo o dia à frente, mas tenham calma. Não se excitem! Ó tio Vasco, olha que ainda cais ao chão, com essa ânsia de me vires contar as últimas novidades e boatarias da Pepe; e tu é que espalhaste o boato desta crónica, fizeste vir este enorme bando de pássaros, vê lá se te portas bem, se não ainda te fazem lá no céu aquela operação dos sessenta anos que nunca quiseste fazer, a coisa que mais medo te metia! E, depois, vocês são tantos que não dá para falar de todos. Mas bico calado, que eu é que escrevo e tenho o direito a estabelecer a ordem de piadura. O que não posso é pôr tudo isso a escrito, compreendam, que os leitores dos blogues não gostam de ler mais do que dois parágrafos e ainda tenho que escrever sobre o mestre Samuel, que promessa é promessa.
E escreve Moriana ... e a cumplicidade do mar sempre presente nas nossas brincadeiras infantis. Mesmo defronte da casa, a "baía", recanto da praia entre rochedos, era o ponto de partida para tantas viagens imaginadas nos barquinhos coloridos que lançávamos à babugem das ondas. Mas havia o Argus. Branco, enlaçado por vivo pintado a negro, nome orgulhosamente desenhado, saltava na cresta das vagas pela mão segura de Mestre Samuel, rosto tisnado pelo sol tantas as horas embaladas no mar e corpo curvado no jeito de lançar as "mourejonas" e de "safar" as linhas e os anzóis dos "açafates".
Quando o mar se revolvia de fúria e o barco descansava em terra, Mestre Samuel, animado pelo conforto de uns dedinhos de vinho, encostava a sua voz ao postigo da porta e entoava risos e quadras que nos deliciavam. A companheira, "olhos de gata" como ele dizia, acenava a cabeça em reprovação muda que mais não era que a ternura envergonhada. A secagem das amêndoas e dos figos era o seu trabalho, armava o "almanxar" em círculo, onde estendia as esteiras recolhidas à tardinha negando aos frutos a carícia do "sereno".
Mestre Samuel corria pela praia atrás de nós para nos lançar na água e nós, em susto e gargalhada, lá mergulhávamos. O mar, que tanto amava, ajeitava o baptismo da sua mão segura envolvendo o nosso corpo em golfadas saborosas de sal e espuma. Assim aprendemos a nadar e a amar esse espaço imenso mas cuidando, quando de súbito se levantava a brisa de "mar de fora". Tranquilo, era quando apresentava mais perigos, como no poema de Vinicius, e era tempo de fugir. E ensinou-nos a magia dos números nos dias de "levante", eram sete as ondas e só depois o mar permitiria o nosso abraço, devolvendo-nos à areia em jogos harmonizados.
Em transparências cristalinas, ficaram as memórias de caprichos infantis nas conchas que Mestre Samuel recolhia e me trazia embrulhadas num sorriso.
Olhando na distância, imagino que o barquinho ao longe, embalado pelo mar, é Mestre Samuel sonhando antes de nos vir apanhar no areal.
E acabo eu. Ao crepúsculo de hoje, mas do meu relógio, foram-se as alminhas, com as minhas lágrimas de saudade e de alegria por esta comemoração antecipada dos meus sessenta anos. Se alguns dos meus leitores também têm mastros de almas, podemos juntá-los, fazer um navio e com ele umas explorações por mares de fantasia ainda nunca navegados.
Domingo, Junho 13, 2004 O meu mastro das alminhas (FLD, por agora) (Aviso ao leitor: isto é texto para quem ainda sabe gozar o domingo, para imprimir e ler com vagar à sombra das tuias, bebericando um verdelho, que escrita telegráfica só em Morse, não em palavras saboridas. Aos bloguistas apressados, as minhas desculpas.)
O que o meu primo Jacob promete é devido, para mais que ele já andava de um lado para o outro do seu celeste Pátio da Alfândega, a passear-se nervoso com o adiamento da festa, com o empenho que ele põe nestas coisas. Lembram-se do programa de festas para a família do coronel Pontiagudo? A festa hoje foi de arromba, só ensombrada por ele não se ter lembrado de que nem todos são madrugadores como ele. É verdade que dias de reformado são todos iguais, mas eu continuo a marcar o domingo como dia especial, em que dou largas ao meu defeito de ser muito dorminhoco. Necessidade de quem tem que carregar as baterias para uma actividade sempre frenética, de quem, como me dizia a minha avó em folgas plebeias ao seu espírito de finura, "tem bicho carpinteiro no rabo".
Mas hoje houve variante, não foi só o santelmo do costume que me acordou. Quando rebentou o primeiro foguete, estremunhacordei e vi de viés que ainda eram seis da manhã. Lá fui à minha varanda-proa e estava o vigia das Feteiras carregado de foguetes. Foram sessenta e o primo Jacob disse-me que era só uma amostra para Novembro (depois conto porquê). Só um vizinho meu é que deu pelo caso, tenho que falar com ele como quem partilha dotes, mas a perguntar-me se os traficantes de droga já tinham chegado ao nosso bairro.
E lá vem a procissão, cabo abaixo. De capitão, como não podia deixar de ser, o primo Jacob, sempre ajudado pelo meu ídolo de infância, o meu amigo Amadeu, a fazer macacadas, de canário muito louro, não podia deixar de ser. Figurão inesquecível, com nome predestinado. Amadeu, o que ama a Deus ou o que Deus ama? Ou Theo e philo, em grego? Em qualquer caso, passa pelas crianças, que Deus só ama os que amam as crianças e só se ama a Deus se se olha para Deus com olhos de criança. O Amadeu tinha um carro muito velho, ainda com buzina de corneta e borracha, que dava sinal logo no princípio da rua. Só se ouvia ao mesmo tempo, de dentro de uma casa, "ó José, olha o menino", para o José ter cuidado com o irmão mais novo, que ainda chuchava sentado na soleira a ver as nossas brincadeiras. Mas, chegado o Amadeu, parava toda a brincadeira, que tudo o que coubesse amontoado no carro lá ia brincar para terras mais vastas e de aventura, como rebolar Monte Gordo abaixo e, às vezes, cair no Charco da Madeira. Foi com ele que vi os ensaios da companhia de circo com que estava tão entusiasmado mas que falhou por falta de artistas, era com ele que ia às cantigas ao desafio. Mas continue o cortejo.
À frente, um grupo de foliões do Espírito Santo, opas e mitras de bispo, às ramagens vermelhas, rabeca, viola da terra, pandeireta e ferrinhos, tocando a cantilena que lamento não poder reproduzir. O meu filho informático tentou pôr a música em mp3, mas caloiro ainda é caloiro. E até banda de música, reunida com grande custo pelo Amadeu de entre seus velhos conhecidos músicos da União Fraternal e da Rival das Musas. Do ensaiador encarregou-se o primo Jacob, que, com o seu irresistível encanto, conseguiu que o Karajan, sem cachet, os pusesse a tocar qualquer coisa pelo menos reconhecível como o triplo concerto.
Logo vêm uns anjinhos, com arcos de grinaldas. Porquê, perguntei-me, lembrando-me apenas das danças de carnaval da minha terra. Só depois me lembrei de que hoje é S. António e que o primo Jacob, sei lá como, deve ter sabido que uma certa noite de S. António, há muitos anos, deu uma grande volta na minha vida. Os anjinhos, como os conhecemos, são brancos quase transparentes, mas no meio lá vem um com ar bem real e morenito. Ah, é o Jorginho! Aos anos que não pensava nele. Companheiro de brincadeiras na Rua do Saco, morto atropelado num desfile militar, foi o primeiro cadáver que vi. E logo de uma criança! Menino de sua mãe, só não tinha a cigarreira porque ainda não tinha idade. Mas fez-me rir, falando-me do maluquinho da travessinha. A travessinha da Rua do Saco tinha uns pilares de pedra a impedir o trânsito. Sobre um deles, empoleirava-se o maluquinho anónimo, a mais minúscula figura de gente que já vi, a cantar odes e hinos à Virgem, até que uma das manas solteironas da janela defronte lhe atirava um chinelo. Tem agora lá em cima uma peanha dourada para cantar junto à Senhora.
Honras especiais para o primeiro grupo. O doutor Armando vem de asa dada com o seu grande amigo, o meu querido avô José da Costa. Riem-se às gargalhadas entre quadras repentistas em latim macarrónico. Como sempre o conheci, o doutor Armando vem com penas de estamenha do Nordeste. Diz-me que encontrou finalmente o descanso de uma vida angustiada, na companhia do seu grande amigo S. Francisco. É mesmo o seu ajudante oficial na construção do presépio celeste oficial, mas vai-me contando que o sublime santo fica sempre incomodado ao colocar o burro e a vaca, porque parece que é aquilo a Companhia de Jesus. O meu avô, que entre 54 netos se permitia dar-se ao luxo de me escolher como um dos preferidos, vem como mocho da ciência, em minha homenagem, mas inconfundivelmente com o peito polvilhado de rapé. Mocho e ciência, mas para ele, homem cristalizado no renascimento, primeiro as humanidades. Lá me perguntou se eu continuo a pensar em cada palavra escrita ou dita, como me ensinou, porque primeiro está o verbo. Fácil foi fazer lá em cima grande amizade com o Padre Vieira, para além dumas visitas frequentes a Cícero, Virgílio, Horácio e muitos outros, sobrando-lhe ainda tempo para umas discussões teológicas com Tomás de Aquino. Mas sobre o meu avô não digo mais, que merece outras escritas.
Com eles também, um bando de estorninhos, de olho vivo, gente querida de que já falei: Ilídio Sardoeira, Lúcio Miranda, Almeida Pavão, Mário Rego Costa, Isabel Coutinho, todos aqueles que me fazem ter saudades do meu liceu. Vêm também saudar-me o João, o Hugo e o Manuel, companheiros de infância perdidos na guerra. Vêm tios e vêm primos, amigos que se foram antes de tempo, figuras da meninice como o ferreiro onde me atardava à vinda da escola, maravilhado perante o rubro da forja e as faíscas das marteladas, o taberneiro da esquina que lavava na rua as grandes pipas, com seixos a rolar com um ruído inesquecível, o mestre torneiro que me fazia ver sair uma obra de arte de um tosco barrote, o mestre Alfredo que me fazia espadas e pistolas de madeira, tantos mais, que saudades e que alegria em vê-los.
E, lá ao cantinho, a Sra. D. Assunção, vizinha de conversa da minha avó, janela com janela. Fez-nos uma partida, aos três irmãos. Ofereceu-nos um magnífico "jogo dos 15", em madeira e cortiça, esmeradamente trabalhado pelo seu marido. Mas, como não disse a quem oferecia, ainda hoje nos digladiamos sobre a posse do precioso jogo. Só ao domingo e à segunda-feira é que não conversavam, que o calendário religioso era diferente. Uma senhora viúva que se preze não pode ir à missa ao domingo, só à segunda, de braço dado com a vizinha do café, a mais doce das doçuras que conheci, sempre embiucada no seu capote e capelo e exímia em fazer à miudagem da Rua do Saco os moinhos de cana e papel, com um grão de tremoço a travar o alfinete.
Sebastião preto melrão é que ficou à distância e não me ligou muito, talvez envergonhado de tão luzida companhia. Mas vi que estava a gostar, porque comentava muito para a sua melrinha Lianor. E foi ela que se atreveu, saltitando de lá detrás, a vir-me pousar no ombro e dar novidades. Com a ajuda da avó Makeba e de uns oguns que por lá andam - politica de ecumenismo! - Sebastião deixou o álcool e é hoje o muito apreciado treinador do Celeste Futebol Clube. E que o pai me mandava dizer que nunca tinha visto o vaticinado poste de electricidade como este, com paus tão grandes de través e bocados de pano, onde é que já se viu tanta bandeira em poste de electricidade, que era o que ele me tinha prometido. E que eu tivesse cuidado, porque já estou em idade de começar a pensar a quem é que deixo esta virtude de ver as alminhas, como ele me deixou.
E pairando acima, porque só poisa para falarmos a dois e essas conversas não conto, a minha águia real, o meu pai.
Minhas alminhas do corisco, não param quietas? Já disse que nenhuma fica sem me falar, tenho todo o dia à frente, mas tenham calma. Não se excitem! Ó tio Vasco, olha que ainda cais ao chão, com essa ânsia de me vires contar as últimas novidades e boatarias da Pepe; e tu é que espalhaste o boato desta crónica, fizeste vir este enorme bando de pássaros, vê lá se te portas bem, se não ainda te fazem lá no céu aquela operação dos sessenta anos que nunca quiseste fazer, a coisa que mais medo te metia! E, depois, vocês são tantos que não dá para falar de todos. Mas bico calado, que eu é que escrevo e tenho o direito a estabelecer a ordem de piadura. O que não posso é pôr tudo isso a escrito, compreendam, que os leitores dos blogues não gostam de ler mais do que dois parágrafos e ainda tenho que escrever sobre o mestre Samuel, que promessa é promessa.
E escreve Moriana ... e a cumplicidade do mar sempre presente nas nossas brincadeiras infantis. Mesmo defronte da casa, a "baía", recanto da praia entre rochedos, era o ponto de partida para tantas viagens imaginadas nos barquinhos coloridos que lançávamos à babugem das ondas. Mas havia o Argus. Branco, enlaçado por vivo pintado a negro, nome orgulhosamente desenhado, saltava na cresta das vagas pela mão segura de Mestre Samuel, rosto tisnado pelo sol tantas as horas embaladas no mar e corpo curvado no jeito de lançar as "mourejonas" e de "safar" as linhas e os anzóis dos "açafates".
Quando o mar se revolvia de fúria e o barco descansava em terra, Mestre Samuel, animado pelo conforto de uns dedinhos de vinho, encostava a sua voz ao postigo da porta e entoava risos e quadras que nos deliciavam. A companheira, "olhos de gata" como ele dizia, acenava a cabeça em reprovação muda que mais não era que a ternura envergonhada. A secagem das amêndoas e dos figos era o seu trabalho, armava o "almanxar" em círculo, onde estendia as esteiras recolhidas à tardinha negando aos frutos a carícia do "sereno".
Mestre Samuel corria pela praia atrás de nós para nos lançar na água e nós, em susto e gargalhada, lá mergulhávamos. O mar, que tanto amava, ajeitava o baptismo da sua mão segura envolvendo o nosso corpo em golfadas saborosas de sal e espuma. Assim aprendemos a nadar e a amar esse espaço imenso mas cuidando, quando de súbito se levantava a brisa de "mar de fora". Tranquilo, era quando apresentava mais perigos, como no poema de Vinicius, e era tempo de fugir. E ensinou-nos a magia dos números nos dias de "levante", eram sete as ondas e só depois o mar permitiria o nosso abraço, devolvendo-nos à areia em jogos harmonizados.
Em transparências cristalinas, ficaram as memórias de caprichos infantis nas conchas que Mestre Samuel recolhia e me trazia embrulhadas num sorriso.
Olhando na distância, imagino que o barquinho ao longe, embalado pelo mar, é Mestre Samuel sonhando antes de nos vir apanhar no areal.
E acabo eu. Ao crepúsculo de hoje, mas do meu relógio, foram-se as alminhas, com as minhas lágrimas de saudade e de alegria por esta comemoração antecipada dos meus sessenta anos. Se alguns dos meus leitores também têm mastros de almas, podemos juntá-los, fazer um navio e com ele umas explorações por mares de fantasia ainda nunca navegados.