AAdormeceu a sentir tudo aquilo: as feridas nos dedos cozidos às mãos, os joelhos em carne, os olhos postos na mesa. Ora meu filho pelas vezes em que temes que te tentem, ora pelo teu perdão, dizia-lhe a mãezinha, cansada dos abusos do pequeno.A fé é que nos salva.Adormeceu a sentir tudo aquilo, e por instantes poderia ser as horas e os dias de sossego sobre os rios, o vento parado sobre os rios e os passos. Famintos sem nome ou remorso, ou cidades paradas. MasAntes a criança chore, que a mãe suspire.Adormeceu a sentir tudo aquilo. E num momento, correu com os bichos na noite, atropelou os sentidos que tremiam à chuva, porqueA chuva não quebra osso.Correu, com o peito inchado de revolta, contra o frio. Não há fim para a injustiça neste mundo. Adormeceu a sentir tudo aquilo.A amar e a rezar, ninguém se pode obrigar.Vieram os tios à festa da terra, Não chores rapaz que és grande para isso, que foi? Uma vaca que pariu um boi? Num riso largo de quem dizA esperança é a última a morrer.E sóA pobreza da alma é maior que a da fortuna.“Ouço as memórias de vozes alternadas entre dores maiores que a minha. O silêncio tumultua os braços que esperam por palavras de embalar, enquanto no escuro respiram. E espreitam.”Mas nada vêem, ou o que vêem, vêem pouco e confuso. Olha as estrelas, na cidade há luz demasiada, não as vês. Na cidade, elas não ardem sequer nos últimos sussurros das almas mortas. Por dentro. Que é que nos guia? Que é que nos arrasta os pés? Em qualquer lado, o mesmo sem destino - é tudo. Abre-te aos sonhos de um povo que não sabe o que querer senão ficarplantado à beira-mare às vezespartir.Como a Cipião, um Africano no sonho,De tal modo está o negro destinado à pobreza que, se Deus disser que merda passa a ser dinheiro, ele aperta o cu.Acorda, rapaz, dormes tempo demais,Se alguém ganhar um hábito, que seja o da paz.Acorda.Lembra-te de não fechares os olhos ao mundo que será o teu enterro. De abri-los muito e sentir tudo, sempre e onde quer que estejas.Antes cego que mal vejas.--«A sabedoria ou, dito de outro modo, a experiência e o conhecimento das pessoas faz-se notar, na maioria das vezes, através da oralidade e menos da grafia. Passando para culturas em que a palavra escrita tem uma história mais recente, tal constatação sai reforçada. E os provérbios ilustram-na bem, pois são, em geral, originários da tradição oral e exímios a afirmar sem quase dizer.António Delicado referiu-se-lhes como “as mais aprovadas sentenças que a experiência achou nas acções humanas ditas em breves e elegantes palavras. (…)No caso de Portugal conta-se por séculos o tempo em que foi fixada, em letra de forma, a mais remota tradição proverbial.», in Ditos e Reditos – Provérbios da Lusofonia, colectânea organizada por Elisa Maria Lopes da Costa.Nota: os provérbios aqui reproduzidos (todos estão em itálico) que não começam pela letra ‘a’ não são de origem portuguesa, mas sim africana, sendo o primeiro deles, mais especificamente, angolano.
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AAdormeceu a sentir tudo aquilo: as feridas nos dedos cozidos às mãos, os joelhos em carne, os olhos postos na mesa. Ora meu filho pelas vezes em que temes que te tentem, ora pelo teu perdão, dizia-lhe a mãezinha, cansada dos abusos do pequeno.A fé é que nos salva.Adormeceu a sentir tudo aquilo, e por instantes poderia ser as horas e os dias de sossego sobre os rios, o vento parado sobre os rios e os passos. Famintos sem nome ou remorso, ou cidades paradas. MasAntes a criança chore, que a mãe suspire.Adormeceu a sentir tudo aquilo. E num momento, correu com os bichos na noite, atropelou os sentidos que tremiam à chuva, porqueA chuva não quebra osso.Correu, com o peito inchado de revolta, contra o frio. Não há fim para a injustiça neste mundo. Adormeceu a sentir tudo aquilo.A amar e a rezar, ninguém se pode obrigar.Vieram os tios à festa da terra, Não chores rapaz que és grande para isso, que foi? Uma vaca que pariu um boi? Num riso largo de quem dizA esperança é a última a morrer.E sóA pobreza da alma é maior que a da fortuna.“Ouço as memórias de vozes alternadas entre dores maiores que a minha. O silêncio tumultua os braços que esperam por palavras de embalar, enquanto no escuro respiram. E espreitam.”Mas nada vêem, ou o que vêem, vêem pouco e confuso. Olha as estrelas, na cidade há luz demasiada, não as vês. Na cidade, elas não ardem sequer nos últimos sussurros das almas mortas. Por dentro. Que é que nos guia? Que é que nos arrasta os pés? Em qualquer lado, o mesmo sem destino - é tudo. Abre-te aos sonhos de um povo que não sabe o que querer senão ficarplantado à beira-mare às vezespartir.Como a Cipião, um Africano no sonho,De tal modo está o negro destinado à pobreza que, se Deus disser que merda passa a ser dinheiro, ele aperta o cu.Acorda, rapaz, dormes tempo demais,Se alguém ganhar um hábito, que seja o da paz.Acorda.Lembra-te de não fechares os olhos ao mundo que será o teu enterro. De abri-los muito e sentir tudo, sempre e onde quer que estejas.Antes cego que mal vejas.--«A sabedoria ou, dito de outro modo, a experiência e o conhecimento das pessoas faz-se notar, na maioria das vezes, através da oralidade e menos da grafia. Passando para culturas em que a palavra escrita tem uma história mais recente, tal constatação sai reforçada. E os provérbios ilustram-na bem, pois são, em geral, originários da tradição oral e exímios a afirmar sem quase dizer.António Delicado referiu-se-lhes como “as mais aprovadas sentenças que a experiência achou nas acções humanas ditas em breves e elegantes palavras. (…)No caso de Portugal conta-se por séculos o tempo em que foi fixada, em letra de forma, a mais remota tradição proverbial.», in Ditos e Reditos – Provérbios da Lusofonia, colectânea organizada por Elisa Maria Lopes da Costa.Nota: os provérbios aqui reproduzidos (todos estão em itálico) que não começam pela letra ‘a’ não são de origem portuguesa, mas sim africana, sendo o primeiro deles, mais especificamente, angolano.