Ciberjus: Terrorismo

17-06-2005
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Sobre este tema escreveu o nosso Colega Dr. António Cardoso da Conceição um interessante (e polémico) mail, na Ciberjus, cuja publicação amavelmente autorizou.Aqui vai:Correndo o risco de chocar muita gente, não tenho a visão do terrorismo como o supremo mal, ou o mal absoluto.O terrorismo é uma forma de guerra e a guerra é sempre lamentável. Mas como forma de guerra não é melhor nem pior do que todas as outras. É a forma de guerra que adopta sempre quem está belicamente pior equipado. Como é absolutamente óbvio, quem não tem o poder bélico do inimigo não pode enfrentá-lo directamente, cara a cara. Resta-lhe o acto terrorista. Neste sentido, terrorista foi a resistência francesa; terroristas foram os movimentos de libertação das ex-colónias; terrorista foi a Fretilin em Timor.Acontece que, como forma de guerra, o terrorismo tem hoje uma eficácia limitada. Por outras palavras, estamos (nós, o ocidente) condenados a ganhar a guerra contra o terrorismo. E isto por uma razão muito simples. É que a eficácia bélica do acto terrorista depende toda do efeito desmoralizador que possa causar no inimigo. Ora, nas sociedades ocidentais, esse efeito desmoralizador é função da repercussão mediática do acto. Colocada a parada altíssima com os atentados de 11 de Setembro e de 11 de Março, os pequenos actos terroristas perderam toda a sua eficácia. Ninguém quer hoje saber (como queria há 15 ou 20 anos) da morte pela ETA de um guardia civil numa remota cidade de Espanha. Isso é um mero fait diver a que os media só darão um relevo mínimo, se não houver mais nada para noticiar. Esse atentado traduzir-se-á, assim, num acto de guerra absolutamente inútil, com efeitos mais prejudiciais do que benéficos para quem o pratica. Hoje, tudo o que seja menos do que a destruição da Torre Eiffel ou o envenenamento com gás de milhares de utilizadores do metro de Londres não interessa a ninguém. E não interessando a ninguém, é um acto que estrategicamente a ninguém interessa praticar.O terrorismo da Al Qaeda é, deste modo, vítima do seu próprio sucesso. A espectacularidade das acções anteriormente desenvolvidas implica que, doravante, qualquer acto terrorista menor seja sempre interpretado como um sinal de fraqueza e de perda de poder. A sua eficácia será diminuta e, nessa medida, o efeito desmoralizador funcionará muito mais para o lado dos terroristas do que para o nosso lado. Em suma: como atentados às torres ou às estações de Madrid não se podem planear e executar todos os dias, e como actos menores não servem para nada, estamos condenados a ganhar a guerra contra o terrorismo. As vítimas da tragédia de há um ano são apenas isso mesmo, vítimas que ficaram pelo caminho, iguais a todas as vítimas que, em qualquer guerra, ficam pelo caminho. António Cardoso da Conceição

Sobre este tema escreveu o nosso Colega Dr. António Cardoso da Conceição um interessante (e polémico) mail, na Ciberjus, cuja publicação amavelmente autorizou.Aqui vai:Correndo o risco de chocar muita gente, não tenho a visão do terrorismo como o supremo mal, ou o mal absoluto.O terrorismo é uma forma de guerra e a guerra é sempre lamentável. Mas como forma de guerra não é melhor nem pior do que todas as outras. É a forma de guerra que adopta sempre quem está belicamente pior equipado. Como é absolutamente óbvio, quem não tem o poder bélico do inimigo não pode enfrentá-lo directamente, cara a cara. Resta-lhe o acto terrorista. Neste sentido, terrorista foi a resistência francesa; terroristas foram os movimentos de libertação das ex-colónias; terrorista foi a Fretilin em Timor.Acontece que, como forma de guerra, o terrorismo tem hoje uma eficácia limitada. Por outras palavras, estamos (nós, o ocidente) condenados a ganhar a guerra contra o terrorismo. E isto por uma razão muito simples. É que a eficácia bélica do acto terrorista depende toda do efeito desmoralizador que possa causar no inimigo. Ora, nas sociedades ocidentais, esse efeito desmoralizador é função da repercussão mediática do acto. Colocada a parada altíssima com os atentados de 11 de Setembro e de 11 de Março, os pequenos actos terroristas perderam toda a sua eficácia. Ninguém quer hoje saber (como queria há 15 ou 20 anos) da morte pela ETA de um guardia civil numa remota cidade de Espanha. Isso é um mero fait diver a que os media só darão um relevo mínimo, se não houver mais nada para noticiar. Esse atentado traduzir-se-á, assim, num acto de guerra absolutamente inútil, com efeitos mais prejudiciais do que benéficos para quem o pratica. Hoje, tudo o que seja menos do que a destruição da Torre Eiffel ou o envenenamento com gás de milhares de utilizadores do metro de Londres não interessa a ninguém. E não interessando a ninguém, é um acto que estrategicamente a ninguém interessa praticar.O terrorismo da Al Qaeda é, deste modo, vítima do seu próprio sucesso. A espectacularidade das acções anteriormente desenvolvidas implica que, doravante, qualquer acto terrorista menor seja sempre interpretado como um sinal de fraqueza e de perda de poder. A sua eficácia será diminuta e, nessa medida, o efeito desmoralizador funcionará muito mais para o lado dos terroristas do que para o nosso lado. Em suma: como atentados às torres ou às estações de Madrid não se podem planear e executar todos os dias, e como actos menores não servem para nada, estamos condenados a ganhar a guerra contra o terrorismo. As vítimas da tragédia de há um ano são apenas isso mesmo, vítimas que ficaram pelo caminho, iguais a todas as vítimas que, em qualquer guerra, ficam pelo caminho. António Cardoso da Conceição

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