CyberCultura e Democracia Online: Memória, Cativeiro e Êxtase

03-10-2009
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O objectivo será redefinir estes conceitos, de modo a mostrar que o homem metabolicamente reduzido não tem memória e, por isso, não é uma pessoa, porque na ausência de memória ele não pode estruturar a sua própria individualidade e fazer-se uma pessoa. O exercício da memória é colocar-se numa situação íntima de face a face consigo mesmo. Ora, o ser metabolicamente reduzido está completamente perdido no cativeiro do consumo e teme encontrar-se consigo mesmo. A perda da anamnesis constitui um dos sintomas da regressão cognitiva e da atrofia dos órgãos mentais. Por isso, a libertação da caverna do consumo exige o exercício da gnose: o eu deve procurar o seu si-mesmo, recriando-se nesse acto íntimo como obra. A conversão de que tenho falado começa por ser a volta do eu ao seu si-mesmo, portanto o suicídio espiritual, de modo a emergir como subjectividade rebelde capaz de assumir em fusão com os outros libertos, isto é, os iniciados, a tarefa política da Grande Recusa. A caverna do consumo em que vivemos tem algumas saídas, uma das quais é o êxtase resultante da descoberta espantosa da irracionalidade do consumismo: Como fui burro ao permitir que me reduzissem à condição de animal metabolicamente reduzido! O termo êxtase é usado aqui não no seu sentido místico de aguçamento anormal da consciência, mas para referir o acto de se manter do lado de fora ou dar um passo para fora das rotinas normais da sociedade estabelecida. Isto significa que o êxtase transforma a consciência que se tem da sociedade estabelecida, fazendo com que a falsa determinação se converta em possibilidade.O êxtase tem relevância metafísica e política, porque todas as revoluções começam com a transformação da consciência. Para confrontar a condição humana sem mistificações consoladoras, precisamos de nos afastar das rotinas corriqueiras da sociedade estabelecida e das suas definições oficiais. O marginal e o rebelde são figuras autênticas, porque neles a liberdade pressupõe um certo grau de libertação da consciência: apresentam definições discordantes que desafiam as definições oficiais da própria sociedade de consumo. O mundo (socialmente) aprovado e dado como evidente é questionado: não é uma fatalidade; existem alternativas históricas. A sociedade de consumo oferece-nos cavernas quentes e confortáveis, onde nos aconchegamos com os outros, batendo os tambores que silenciam os uivos dos lobos na imensa escuridão cognitiva. Ora, êxtase é o acto corajoso de sair sozinho ou acompanhado da caverna quente do consumismo e contemplar a noite que abriga o inteiramente novo: o sonho de um mundo melhor. A gnose (o conhecimento) constitui o único processo mediante o qual o eu cativo da ordem estabelecida pode voltar ao seu si mesmo, de modo a escapar ao cativeiro do consumo que é a terra do esquecimento. No exercício da anamnesis, o eu deve recuperar o seu si mesmo do esquecimento, mas não apenas na sua fonte originária, portanto na sua relação pacífica com a natureza, mas sobretudo no seu futuro, isto é, na pátria da identidade. Memória do futuro é, pois, o conceito a elaborar que permite à consciência escapar à cilada da "terra natal" vista como o solo originário ou o paraíso perdido, tendo em conta que o Outro se dá desde logo na linguagem que usamos. Ernst Bloch criticou serveramente a anamnesis hegeliana, a grande traição hegeliana, assente numa visão do ser cumprido e acabado, logo antidialéctivo, em vez do ser como processo utópico, o qual possibilita descobrir o futuro no passado das promessas não-cumpridas. Através da gnose revolucionária, o homem pode operar a conversão, o suicídio espiritual ou a transformação da consciência, suscitada pela memória que realiza essa passagem de um estado de esquecimento (heteronomia) para um estado de consciência (autonomia), no qual o homem, entregue à memória de si mesmo, alcança a percepção da verdade: a necessidade de transformar o mundo. Por outras palavras, na memória em acção o homem deve descobrir o seu si-mesmo insatisfeito consigo mesmo e com o mundo estabelecido, dilacerado e desejoso de lutar contra o sistema: rever no passado, no seu e no da humanidade em relação pacífica com a natureza, as promessas não-cumpridas. Deste modo, a revolução interior resgata o passado e abre as portas ao futuro: prepara-se para a grande recusa. A memória não é um depósito, um arquivo ou um armário que podemos pesquisar, mas um processo activo durante o qual me encontro intimamente comigo mesmo: o passado é sempre construção levada a cabo em função das preocupações presentes e das expectativas futuras. A memória é a matriz fundamental da mente e da subjectividade. Levando em conta os quadros sociais e históricos da memória, podemos ver nela uma "força" adversária da reificação que se perpetua na memória-hábito. E, como matriz da subjectividade, a memória é o triunfo do vivido singular, dado possibilitar a coincidência entre o que eu fui, o que sou e talvez o que pretendo ser, conferindo ao nosso ser sucessivo e em devir uma espécie de eternidade pessoal, no fundo a nossa identidade. Marcuse escreveu que Marx retomou a antiga teoria do conhecimento como recordação das verdadeiras formas das coisas, distorcidas e negadas na realidade estabelecida, aquilo a que chamou o perpétuo núcleo materialista do idealismo. Neste caso, a recordação é vista como faculdade epistemológica: síntese ou reunião dos pedaços e dos fragmentos que podem ser encontrados na humanidade distorcida e na natureza desvirtuada. Passamos assim para o domínio da imaginação que, como conhecimento, retém a insolúvel tensão entre a ideia e a realidade, o potencial e o real, a qual exige a transcendência da liberdade para além das formas dadas. Neste caso, o cativeiro do consumo é reificador, mais precisamente uma prisão claustrofóbica, da qual nos podemos libertar através da gnose: memória e imaginação encontram-se unificadas no sonho diurno. O si-mesmo descoberto possibilita uma relação de maior autenticidade consigo próprio, com os outros e com o mundo. O eu é internamente muito diferencial e, para o acordar, é preciso confrontá-lo consigo mesmo: o si-mesmo é o impulsionador da novidade, do eu inconformado. Sem o si-mesmo o homem fica alienado no mundo estabelecido. Aliás, a liberdade é sempre a liberdade do si-mesmo: este solta-se facilmente e recria-se de diversos modos.A conversão é êxtase no sentido de abrir o eu ao seu si-mesmo, levando-o a procurar uma nova relação como o mundo: o eu apropria-se de si próprio e, ao fazê-lo, abre-se ao mundo, não para se conformar mas para o transformar qualitativamente. Com efeito, o eu social, para usar o conceito de Bergson, é muito conformista, embora seja fundamental para elaborar ao longo do desenvolvimento a nossa diferença e a nossa singularidade única. Mas é o eu rebelde que a conversão visa acordar no homem adormecido, esquecido de si mesmo, no cativeiro do consumo. Este si mesmo, o rebelde que há em nós, prefiro vê-lo como o castelo, o fogo, a luz, a centelha da alma. Ele pode ser facilmente vencido e destruído, como mostraram os campos de concentração, mas também é ele que nos permite mentir, dizer a verdade, fingir, sonhar, simular, resistir, decidir, enfim tudo isso que só nos pertence a nós mesmos. O que está aqui em causa é a invenção de uma nova dialéctica da libertação, a qual deve esburacar a consciência endurecida das pessoas satisfeitas na sua condição metabolicamente reduzida. J Francisco Saraiva de Sousa


O objectivo será redefinir estes conceitos, de modo a mostrar que o homem metabolicamente reduzido não tem memória e, por isso, não é uma pessoa, porque na ausência de memória ele não pode estruturar a sua própria individualidade e fazer-se uma pessoa. O exercício da memória é colocar-se numa situação íntima de face a face consigo mesmo. Ora, o ser metabolicamente reduzido está completamente perdido no cativeiro do consumo e teme encontrar-se consigo mesmo. A perda da anamnesis constitui um dos sintomas da regressão cognitiva e da atrofia dos órgãos mentais. Por isso, a libertação da caverna do consumo exige o exercício da gnose: o eu deve procurar o seu si-mesmo, recriando-se nesse acto íntimo como obra. A conversão de que tenho falado começa por ser a volta do eu ao seu si-mesmo, portanto o suicídio espiritual, de modo a emergir como subjectividade rebelde capaz de assumir em fusão com os outros libertos, isto é, os iniciados, a tarefa política da Grande Recusa. A caverna do consumo em que vivemos tem algumas saídas, uma das quais é o êxtase resultante da descoberta espantosa da irracionalidade do consumismo: Como fui burro ao permitir que me reduzissem à condição de animal metabolicamente reduzido! O termo êxtase é usado aqui não no seu sentido místico de aguçamento anormal da consciência, mas para referir o acto de se manter do lado de fora ou dar um passo para fora das rotinas normais da sociedade estabelecida. Isto significa que o êxtase transforma a consciência que se tem da sociedade estabelecida, fazendo com que a falsa determinação se converta em possibilidade.O êxtase tem relevância metafísica e política, porque todas as revoluções começam com a transformação da consciência. Para confrontar a condição humana sem mistificações consoladoras, precisamos de nos afastar das rotinas corriqueiras da sociedade estabelecida e das suas definições oficiais. O marginal e o rebelde são figuras autênticas, porque neles a liberdade pressupõe um certo grau de libertação da consciência: apresentam definições discordantes que desafiam as definições oficiais da própria sociedade de consumo. O mundo (socialmente) aprovado e dado como evidente é questionado: não é uma fatalidade; existem alternativas históricas. A sociedade de consumo oferece-nos cavernas quentes e confortáveis, onde nos aconchegamos com os outros, batendo os tambores que silenciam os uivos dos lobos na imensa escuridão cognitiva. Ora, êxtase é o acto corajoso de sair sozinho ou acompanhado da caverna quente do consumismo e contemplar a noite que abriga o inteiramente novo: o sonho de um mundo melhor. A gnose (o conhecimento) constitui o único processo mediante o qual o eu cativo da ordem estabelecida pode voltar ao seu si mesmo, de modo a escapar ao cativeiro do consumo que é a terra do esquecimento. No exercício da anamnesis, o eu deve recuperar o seu si mesmo do esquecimento, mas não apenas na sua fonte originária, portanto na sua relação pacífica com a natureza, mas sobretudo no seu futuro, isto é, na pátria da identidade. Memória do futuro é, pois, o conceito a elaborar que permite à consciência escapar à cilada da "terra natal" vista como o solo originário ou o paraíso perdido, tendo em conta que o Outro se dá desde logo na linguagem que usamos. Ernst Bloch criticou serveramente a anamnesis hegeliana, a grande traição hegeliana, assente numa visão do ser cumprido e acabado, logo antidialéctivo, em vez do ser como processo utópico, o qual possibilita descobrir o futuro no passado das promessas não-cumpridas. Através da gnose revolucionária, o homem pode operar a conversão, o suicídio espiritual ou a transformação da consciência, suscitada pela memória que realiza essa passagem de um estado de esquecimento (heteronomia) para um estado de consciência (autonomia), no qual o homem, entregue à memória de si mesmo, alcança a percepção da verdade: a necessidade de transformar o mundo. Por outras palavras, na memória em acção o homem deve descobrir o seu si-mesmo insatisfeito consigo mesmo e com o mundo estabelecido, dilacerado e desejoso de lutar contra o sistema: rever no passado, no seu e no da humanidade em relação pacífica com a natureza, as promessas não-cumpridas. Deste modo, a revolução interior resgata o passado e abre as portas ao futuro: prepara-se para a grande recusa. A memória não é um depósito, um arquivo ou um armário que podemos pesquisar, mas um processo activo durante o qual me encontro intimamente comigo mesmo: o passado é sempre construção levada a cabo em função das preocupações presentes e das expectativas futuras. A memória é a matriz fundamental da mente e da subjectividade. Levando em conta os quadros sociais e históricos da memória, podemos ver nela uma "força" adversária da reificação que se perpetua na memória-hábito. E, como matriz da subjectividade, a memória é o triunfo do vivido singular, dado possibilitar a coincidência entre o que eu fui, o que sou e talvez o que pretendo ser, conferindo ao nosso ser sucessivo e em devir uma espécie de eternidade pessoal, no fundo a nossa identidade. Marcuse escreveu que Marx retomou a antiga teoria do conhecimento como recordação das verdadeiras formas das coisas, distorcidas e negadas na realidade estabelecida, aquilo a que chamou o perpétuo núcleo materialista do idealismo. Neste caso, a recordação é vista como faculdade epistemológica: síntese ou reunião dos pedaços e dos fragmentos que podem ser encontrados na humanidade distorcida e na natureza desvirtuada. Passamos assim para o domínio da imaginação que, como conhecimento, retém a insolúvel tensão entre a ideia e a realidade, o potencial e o real, a qual exige a transcendência da liberdade para além das formas dadas. Neste caso, o cativeiro do consumo é reificador, mais precisamente uma prisão claustrofóbica, da qual nos podemos libertar através da gnose: memória e imaginação encontram-se unificadas no sonho diurno. O si-mesmo descoberto possibilita uma relação de maior autenticidade consigo próprio, com os outros e com o mundo. O eu é internamente muito diferencial e, para o acordar, é preciso confrontá-lo consigo mesmo: o si-mesmo é o impulsionador da novidade, do eu inconformado. Sem o si-mesmo o homem fica alienado no mundo estabelecido. Aliás, a liberdade é sempre a liberdade do si-mesmo: este solta-se facilmente e recria-se de diversos modos.A conversão é êxtase no sentido de abrir o eu ao seu si-mesmo, levando-o a procurar uma nova relação como o mundo: o eu apropria-se de si próprio e, ao fazê-lo, abre-se ao mundo, não para se conformar mas para o transformar qualitativamente. Com efeito, o eu social, para usar o conceito de Bergson, é muito conformista, embora seja fundamental para elaborar ao longo do desenvolvimento a nossa diferença e a nossa singularidade única. Mas é o eu rebelde que a conversão visa acordar no homem adormecido, esquecido de si mesmo, no cativeiro do consumo. Este si mesmo, o rebelde que há em nós, prefiro vê-lo como o castelo, o fogo, a luz, a centelha da alma. Ele pode ser facilmente vencido e destruído, como mostraram os campos de concentração, mas também é ele que nos permite mentir, dizer a verdade, fingir, sonhar, simular, resistir, decidir, enfim tudo isso que só nos pertence a nós mesmos. O que está aqui em causa é a invenção de uma nova dialéctica da libertação, a qual deve esburacar a consciência endurecida das pessoas satisfeitas na sua condição metabolicamente reduzida. J Francisco Saraiva de Sousa

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