PALAVROSSAVRVS REX: BOUNDAGES E BORGES, O JORGE LUÍS

23-05-2009
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Noite longa. As marcas do assalto que sofri no outro dia reabrem no meu espíritotanto mais que agora mesmo um automóvel foi ali vandalizado, a porta do condutor semidobrada, o alarme disparara,ali mesmo, nas barbas de este Pub, e uns dois jovens que, procurando-me, vieram acenar com o facto de o alarmeter disparado pareceram-me notoriamente os autores da coisa. Pediram-me que avisasse no interior, anunciando a matrícula. Fi-lo. E o dono surgiu. Depois acompanhou-os mas, não se sentindo seguro com aqueles, que lhe pediram estranhamente mais adiante para abrir a porta do carro, veio implorar-me apoio antes que de facto a abrisse diantes deles.lkjFui. Uma vez ao pé do carro, os dois jovens exibiram uma destreza admirávelem inverter o vandalismo, redobrando a porta na zona da janela ao ponto de que ninguém diriater aquele sido vítima fosse do que fosse. Enquanto isso, contavam histórias:que flagraram um suposto assaltante naquele trabalho danado a quem agrediram. Fugira. Agradeci a reparação improvisada da porta. Apertei-lhes as mãos fitando-os muito. Afastámo-nos. Uma gaivota, voando baixo de passagem, largou os seus dejectos precisamente sobre os dois, merda de fragmentação estralejando no solo, sobre as suas cabeças. Praguejaram e riram. Fiquei com uma muito minha noção dos factos da tentativa de furto.Lado a lado, enquanto regressávamos ao Pub, a vítima e eu cumpliciamos nessa mesmíssima ideia. Sem protestos, sem lamentos, o dono do carro conformou-se.lkjE a verdade é que paira a ideia de um suave caos na Cidade do Porto que vai, pardo e sorna, ascendendo. Estratificam-seespécimes nas suas safras dependentes: no patamar mais baixo, remexem no esterco pedinte,pedindo continuamente à gente que passa, os Tóxicos. Mais acima, Jovens Magros e de rostos muito marcados de privações encostam-senas esquinas aguardando por toda a madrugada que turistas e hóspedes caros, com dinheiro, os solicitem para loucuras em recantos ou locais expressamente criados para o efeitoporque às cidades nada falta para sossegar o instinto.Mais adiante, uma profusão de Travestis descortinam-se nas avenidasenlanguescendo muito o olhar à passagem seja de quem for com formato de homem,brindando-nos com câmera-lentos alçares de perna e trejeitos cinemáticos. Baixo os olhos e sorrio: dentro do meu coração há um sorriso de pasmo e de respeito.lkjFinalmente nós, os que trabalhamos nos Pubs e equiparados, um português para cinco ou mais brasileiros e outros sul-americanos,também nos inscrevemos nesta espécie de fauna de aflitos por moeda, pelas magras notas de vinte euros com que nos expomos ao trabalho e à exploração que se pratica já fora da lei, ou melhor, para além dela e fora do mais que aí se prepara laboral: temos há muito tempo toda a flexibilidade e toda a disponibilidade que imaginar se possa,para verter um suor que nos mantém cativos, para aceitar umas cordas retributivas com que nos amarram, amarras que nos retém no menos que o mínimo.FFoi justamente a prostituta Jociara que, nesta noite, me mostrou um pingo de humanidade porque para onde vai e de que é feita a demais humanidade nas pessoas comuns é duvidoso.Certo é não passar de um excrementício egoísmo cheio de morte e decadência dentro.A humanidade das pessoas comuns por vezes é zero, é crueldade, é insensibilidade,é comprazimento no servilismo dos outros, na escala sopeada da vida dos outros.lkj Seria necessário que muitas de estas pessoas habituais fossem maceradas na vida, como o são as putas, para que nelas aflorasse um vestígio humano da qualidade das segundas,um pingo de solidariedade e de sensibilidade que eu, muito honestamente, nem em padres nem em grandes devotos consegui encontrar que me tocassem. Jociara mostrou-se-me melhor que todos os outros juntos naquilo que interessa e urge: o sustento, o dinheiro ligados ao sentido do outro. Parece vulgar, mas é vital. lkjAli estava eu a sangrar no meu posto, a remoer umas dorescada vez mais agudas: já sabia que o meu patrão iria empurrar com a barrigao pagar-me a tempo e horas, remetendo para o depois que lhe convém e nessa convicção fui azedando intensamente, como um ferimento auto-infligido,fui ficando muito hirto, a observá-lo na sua muito particular cegueira,na sua talvez deliberada cegueira em compreender e atalhar à angústia de quem trabalha.Fui ficando muito em sentido como um militar estacado na vigia, incapaz de sorrir, a não ser quando alguém chegava ou alguém saía, meu dever,e a Jociara, uma vez mais, veio sentar-se a meu lado com o seu cigarro, pediu-me o favor de discretamente lhe ir buscar uns objectos pessoais que esquecera noutro sector do Pub porque, estando lá dentro o gordo que habitualmente a toma por sua e que hoje está inspiradoe com intenções penetrativas, roçantes e roncinantes, narra-me ela, queria apanhá-lo distraído, enquanto ele conversava com alguém, meter-se num táxi e abalar só para o lixar.lkj Eu bem apreciara num momento anterior o modo como o gordo barbudo, segurando um copo, coreografara uma espécie de mambo colado ao corpo dela, abraçados. Ela segurava um cigarro. Sorria. Olhava-me comunicativa por cima do ombro dele. Éramos cúmplices na narrativa que me fizera do que lhe era aquele homem.lkjFaço o que me pede. Não pára de sorrir-me, Jociara. Gosta de mim. É meiga. Confia em mim.Quando regresso, agradece-me e prontamente dá-me dez euros.E ainda me segreda ao ouvido: «Aquele filho da puta quer esvaziar os colhões,mas eu vou fugir, vou meter-me num táxi e deixá-lo no desejo.»Sorri. E foi. Só. lkjNessa noite, Jociara, que é puta, que é meiga e suave nos modos com que confidencia comigo por sua livre iniciativa,cujo corpo tem todos os comandos operacionais e cuja pele tem todos os cetins a descoberto como antecipações abúrneas sob um tacto avivado,foi mais gente que os demais. Foi, nessa noite, a única a ver-me.lkjBorges no Pub é outra história a narrar numa posta futura.


Noite longa. As marcas do assalto que sofri no outro dia reabrem no meu espíritotanto mais que agora mesmo um automóvel foi ali vandalizado, a porta do condutor semidobrada, o alarme disparara,ali mesmo, nas barbas de este Pub, e uns dois jovens que, procurando-me, vieram acenar com o facto de o alarmeter disparado pareceram-me notoriamente os autores da coisa. Pediram-me que avisasse no interior, anunciando a matrícula. Fi-lo. E o dono surgiu. Depois acompanhou-os mas, não se sentindo seguro com aqueles, que lhe pediram estranhamente mais adiante para abrir a porta do carro, veio implorar-me apoio antes que de facto a abrisse diantes deles.lkjFui. Uma vez ao pé do carro, os dois jovens exibiram uma destreza admirávelem inverter o vandalismo, redobrando a porta na zona da janela ao ponto de que ninguém diriater aquele sido vítima fosse do que fosse. Enquanto isso, contavam histórias:que flagraram um suposto assaltante naquele trabalho danado a quem agrediram. Fugira. Agradeci a reparação improvisada da porta. Apertei-lhes as mãos fitando-os muito. Afastámo-nos. Uma gaivota, voando baixo de passagem, largou os seus dejectos precisamente sobre os dois, merda de fragmentação estralejando no solo, sobre as suas cabeças. Praguejaram e riram. Fiquei com uma muito minha noção dos factos da tentativa de furto.Lado a lado, enquanto regressávamos ao Pub, a vítima e eu cumpliciamos nessa mesmíssima ideia. Sem protestos, sem lamentos, o dono do carro conformou-se.lkjE a verdade é que paira a ideia de um suave caos na Cidade do Porto que vai, pardo e sorna, ascendendo. Estratificam-seespécimes nas suas safras dependentes: no patamar mais baixo, remexem no esterco pedinte,pedindo continuamente à gente que passa, os Tóxicos. Mais acima, Jovens Magros e de rostos muito marcados de privações encostam-senas esquinas aguardando por toda a madrugada que turistas e hóspedes caros, com dinheiro, os solicitem para loucuras em recantos ou locais expressamente criados para o efeitoporque às cidades nada falta para sossegar o instinto.Mais adiante, uma profusão de Travestis descortinam-se nas avenidasenlanguescendo muito o olhar à passagem seja de quem for com formato de homem,brindando-nos com câmera-lentos alçares de perna e trejeitos cinemáticos. Baixo os olhos e sorrio: dentro do meu coração há um sorriso de pasmo e de respeito.lkjFinalmente nós, os que trabalhamos nos Pubs e equiparados, um português para cinco ou mais brasileiros e outros sul-americanos,também nos inscrevemos nesta espécie de fauna de aflitos por moeda, pelas magras notas de vinte euros com que nos expomos ao trabalho e à exploração que se pratica já fora da lei, ou melhor, para além dela e fora do mais que aí se prepara laboral: temos há muito tempo toda a flexibilidade e toda a disponibilidade que imaginar se possa,para verter um suor que nos mantém cativos, para aceitar umas cordas retributivas com que nos amarram, amarras que nos retém no menos que o mínimo.FFoi justamente a prostituta Jociara que, nesta noite, me mostrou um pingo de humanidade porque para onde vai e de que é feita a demais humanidade nas pessoas comuns é duvidoso.Certo é não passar de um excrementício egoísmo cheio de morte e decadência dentro.A humanidade das pessoas comuns por vezes é zero, é crueldade, é insensibilidade,é comprazimento no servilismo dos outros, na escala sopeada da vida dos outros.lkj Seria necessário que muitas de estas pessoas habituais fossem maceradas na vida, como o são as putas, para que nelas aflorasse um vestígio humano da qualidade das segundas,um pingo de solidariedade e de sensibilidade que eu, muito honestamente, nem em padres nem em grandes devotos consegui encontrar que me tocassem. Jociara mostrou-se-me melhor que todos os outros juntos naquilo que interessa e urge: o sustento, o dinheiro ligados ao sentido do outro. Parece vulgar, mas é vital. lkjAli estava eu a sangrar no meu posto, a remoer umas dorescada vez mais agudas: já sabia que o meu patrão iria empurrar com a barrigao pagar-me a tempo e horas, remetendo para o depois que lhe convém e nessa convicção fui azedando intensamente, como um ferimento auto-infligido,fui ficando muito hirto, a observá-lo na sua muito particular cegueira,na sua talvez deliberada cegueira em compreender e atalhar à angústia de quem trabalha.Fui ficando muito em sentido como um militar estacado na vigia, incapaz de sorrir, a não ser quando alguém chegava ou alguém saía, meu dever,e a Jociara, uma vez mais, veio sentar-se a meu lado com o seu cigarro, pediu-me o favor de discretamente lhe ir buscar uns objectos pessoais que esquecera noutro sector do Pub porque, estando lá dentro o gordo que habitualmente a toma por sua e que hoje está inspiradoe com intenções penetrativas, roçantes e roncinantes, narra-me ela, queria apanhá-lo distraído, enquanto ele conversava com alguém, meter-se num táxi e abalar só para o lixar.lkj Eu bem apreciara num momento anterior o modo como o gordo barbudo, segurando um copo, coreografara uma espécie de mambo colado ao corpo dela, abraçados. Ela segurava um cigarro. Sorria. Olhava-me comunicativa por cima do ombro dele. Éramos cúmplices na narrativa que me fizera do que lhe era aquele homem.lkjFaço o que me pede. Não pára de sorrir-me, Jociara. Gosta de mim. É meiga. Confia em mim.Quando regresso, agradece-me e prontamente dá-me dez euros.E ainda me segreda ao ouvido: «Aquele filho da puta quer esvaziar os colhões,mas eu vou fugir, vou meter-me num táxi e deixá-lo no desejo.»Sorri. E foi. Só. lkjNessa noite, Jociara, que é puta, que é meiga e suave nos modos com que confidencia comigo por sua livre iniciativa,cujo corpo tem todos os comandos operacionais e cuja pele tem todos os cetins a descoberto como antecipações abúrneas sob um tacto avivado,foi mais gente que os demais. Foi, nessa noite, a única a ver-me.lkjBorges no Pub é outra história a narrar numa posta futura.

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