incomunidade: morte de antónio cabral

01-10-2009
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António Cabral morreu hoje. Autor de uma das mais significativas obras produzidas em trás-os-montes, com incidêndia física no Douro e em Vila Real, o seu lirismo objectivo andou sempre distante das modalidades de voga. Cantado por José Afonso ou Francisco Fanhais, Antonio Cabral, poeta, romancista, ensaista, animador cultural, esteve connosco há precisamente um mês, em Vilar, Boticas, onde participou animadamente nas diversas intervenções d' Os Dias da Criação, sublinhando a sagesse popular como mosto da sua obra que, não raro, dialogava com António Nobre ou Camões, com uma vertente lúdico-irónica-dramática cujas afinidades electivas talvez possamos encontrar em Jacques Prévert.Descalça vai para a fonteLeonor pela verdura:Vai formosa e não segura.Se tivesse umas chinelasiria melhor...mas não:co dinheiro das chinelascompra um pouco mais de pão.Virá o dia em que os pésnão sintam a terra dura?Leonor sonha de mais:vai formosa e não segura.Formosa! Não vale a penater nos olhos uma auroraquando na vida - que vida!o sol já se foi embora.Se os filhos se alimentassemcom a sua formosura...Leonor pensa de maisvai formosa e não segura.Há verduras pelos prados,há verduras no caminho;no olmo ao pé da fontecanta livre um passarinho,Mas ela não canta, não,que a voz perdeu a doçura.Leonor sofre demais:vai formosa e não segura.Porque sofre? Nunca soubenem saberá a razão.Vai encher a talha de água,Só não enche o coração.Virá um dia...virá...Os olhos voam na alturaLeonor não anda: sonha.Vai formosa e não segura.Antonio Cabral, Poemas Durienses


António Cabral morreu hoje. Autor de uma das mais significativas obras produzidas em trás-os-montes, com incidêndia física no Douro e em Vila Real, o seu lirismo objectivo andou sempre distante das modalidades de voga. Cantado por José Afonso ou Francisco Fanhais, Antonio Cabral, poeta, romancista, ensaista, animador cultural, esteve connosco há precisamente um mês, em Vilar, Boticas, onde participou animadamente nas diversas intervenções d' Os Dias da Criação, sublinhando a sagesse popular como mosto da sua obra que, não raro, dialogava com António Nobre ou Camões, com uma vertente lúdico-irónica-dramática cujas afinidades electivas talvez possamos encontrar em Jacques Prévert.Descalça vai para a fonteLeonor pela verdura:Vai formosa e não segura.Se tivesse umas chinelasiria melhor...mas não:co dinheiro das chinelascompra um pouco mais de pão.Virá o dia em que os pésnão sintam a terra dura?Leonor sonha de mais:vai formosa e não segura.Formosa! Não vale a penater nos olhos uma auroraquando na vida - que vida!o sol já se foi embora.Se os filhos se alimentassemcom a sua formosura...Leonor pensa de maisvai formosa e não segura.Há verduras pelos prados,há verduras no caminho;no olmo ao pé da fontecanta livre um passarinho,Mas ela não canta, não,que a voz perdeu a doçura.Leonor sofre demais:vai formosa e não segura.Porque sofre? Nunca soubenem saberá a razão.Vai encher a talha de água,Só não enche o coração.Virá um dia...virá...Os olhos voam na alturaLeonor não anda: sonha.Vai formosa e não segura.Antonio Cabral, Poemas Durienses

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