A Interpretação do Tempo: In memoriam

26-06-2009
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Parte de mim ainda rejeita a ideia de que já não estás cá. Ainda custa crer que quando voltar a entrar pelo corredor fora direito à cozinha, para passar mais um fim-de-semana em casa (porque há a casa e a vila e as outras casas e as outras terras) já não te vou encontrar sentado à mesa com os teus dedos gordos entrelaçados uns nos outros. Ainda não aceito que ao telefonar não volte a ouvir a tua voz do outro lado do auscultador num “tou” prolongado, pronunciado na serenidade e calma que te marcavam. Não aceito que ao acordar no domingo já não te encontre a cortar o limoeiro, a tratar da hortelão ou a escolher folhas de couve para a sopa do almoço. Já não te vou ver ao fundo das escadas a perguntar pela coleira do cão para o ires passear. Custa saber que antes do almoço já não vais pôr a aparelhagem na 4L, porque o Calipolense hoje joga em casa e não pode faltar o som. Custa muito saber que já não vamos todos passar dias infinitos à pesca, nem que na tarde do domingo vamos aonde for preciso para apoiar o Calipolense. Lembro-me de quando eras dirigente do Sport Clube S. Romão e tu e o Bajanca trouxeram o Sporting e o Sousa Cintra jogar com a equipa local. Lembro-me das festas em que íamos deitar foguetes e que voltávamos às tantas na 4L azul, de quando distribuías o gás no teu triciclo, de quando me ias buscara a casa no Inverno e que saímos os dois de capote. Lembro-me de tanta coisa avô, até de como me levaste pela mão ao primeiro treino de futebol no Calipolense depois de me teres comprado uns ténis novos. Recuso-me a aceitar que já não vais fazer mais etiquetas com os preços daquela maneira tão própria (ninguém escreve como tu; ninguém tem uma caligrafia tão perfeita) não consigo imaginar entrar na loja e não te ver detrás do balcão a organizar a escrita (sempre tudo direitinho), a arranjar qualquer coisa. Sempre me habituei a ser o neto do Sor Carapinha mais do que o próprio eu. As almoçaradas da música, as noites de reuniões nos bombeiros à luz de candeeiros a gás (porque as trovoadas eram fortes e a luz apagava-se). Lembro-me. E dói. Dói saber que não vamos repetir nada disto. Dói saber que não te vou ver com a minha filha no colo. Dói saber que já não vou poder discutir política contigo. Lembro-me das tardes passadas sentados na cadeiras de pano do Restauração, do cheiro das laranjeiras da praça quando íamos para casa após fechar a loja e de quando nos sentávamos nos degraus da igreja de S. Bartolomeu (nunca mais a vou conseguir olhar do mesmo modo). Admirava imenso o modo como as pessoas olhavam e falavam contigo, a maneira como te respeitavam, o modo como sempre ganhavas as eleições sem promessas e independentemente do partido (votavam em ti; sempre o fizeram e continuariam a fazê-lo sempre o teu nome (Romão Correia Carapinha) estivesse numa lista). Tu fizeste tanta coisa avô. Desde cedo, aos 17 já eras presidente da Direcção do Círculo Artístico Musical de Safara (a quinta amarela da tia Rosa já não parecer a mesma, Safara terá agora um misto de dor e uma lágrima guardada para qualquer recordação). Depois foste para a GNR, do Forte de Peniche para S. Miguel de Machede até Vila Viçosa (lembras-te avô de quando nos contavas histórias no forte de Peniche e que havia pessoas atrás de ti para ouvir mais coisas?). Como vão ser os natais sem ti? Como vão ser os aniversários? Como vão os simples almoços do Domingo? Fazes falta avô. A nós em casa, aos Bombeiros, à banda Filarmónica, ao Calipolense, à Junta, à vila avô; à vila que agora será sempre tua (e tu dela). Custa saber que já não te vou ouvir reclamar comigo e com o Artur por jogar à bola na rua, ou teimar (és tão teimoso avô) com algo que não tinhas razão. Sempre defendeste o que era teu, sempre lutaste pelo bem das coisas, das pessoas. (fazer bem custa o mesmo que fazer mal, e sempre quiseste fazer obra pelo bem comum). Tenho saudades avô, porque tu eras o meu avô, o sor Carapinha, tu. Custa saber que já não vou despedir-me de ti à pressa na segunda-feira antes de vir para Évora. Já não vamos estar detrás do balcão a arranjar séries de Natal enquanto todas as pessoas que passavam se assomavam à porta para dizer Bom Natal. E gostava tanto de ir contigo para as petiscadas, com os teus amigos da banda, da bola, da política, da pesca… Todos ficaram mais ricos ao conhecer-te, ao conviver contigo, ao aprender de ti, a vila ficou mais rica e agora dói. Muito. Mais que perder o presidente disto, daquilo, ou do outro, perdi-te a ti, porque para mim, tu eras sempre primeiro o meu avô, o meu amigo (a irmã da avô disse “Perdeste um grande amigo” e foi das poucas coisas acertadas que a ouvi dizer em toda a vida. Tinha razão). Dói muito avô, quero ser como tu, levantar a cabeça e empurrar o carro para frente (porque ainda há estrada para andar) mas não consigo ser tão forte avô. Fazes-nos falta, e por muito que tentemos fazer caminho para frente as coisas não serão bem iguais. Custou muito dizer-te adeus avô, muito. E eu queria tanto ver-te com a minha filha avô, tanto. Prometo-te avô que faremos tudo para seguir o teu trabalho, mas perdoa-nos avô se não conseguirmos. Tu eras ímpar. Tu és ímpar. E tenho todo o orgulho em que sejas para sempre o meu avô; Romão Correia Carapinha.


Parte de mim ainda rejeita a ideia de que já não estás cá. Ainda custa crer que quando voltar a entrar pelo corredor fora direito à cozinha, para passar mais um fim-de-semana em casa (porque há a casa e a vila e as outras casas e as outras terras) já não te vou encontrar sentado à mesa com os teus dedos gordos entrelaçados uns nos outros. Ainda não aceito que ao telefonar não volte a ouvir a tua voz do outro lado do auscultador num “tou” prolongado, pronunciado na serenidade e calma que te marcavam. Não aceito que ao acordar no domingo já não te encontre a cortar o limoeiro, a tratar da hortelão ou a escolher folhas de couve para a sopa do almoço. Já não te vou ver ao fundo das escadas a perguntar pela coleira do cão para o ires passear. Custa saber que antes do almoço já não vais pôr a aparelhagem na 4L, porque o Calipolense hoje joga em casa e não pode faltar o som. Custa muito saber que já não vamos todos passar dias infinitos à pesca, nem que na tarde do domingo vamos aonde for preciso para apoiar o Calipolense. Lembro-me de quando eras dirigente do Sport Clube S. Romão e tu e o Bajanca trouxeram o Sporting e o Sousa Cintra jogar com a equipa local. Lembro-me das festas em que íamos deitar foguetes e que voltávamos às tantas na 4L azul, de quando distribuías o gás no teu triciclo, de quando me ias buscara a casa no Inverno e que saímos os dois de capote. Lembro-me de tanta coisa avô, até de como me levaste pela mão ao primeiro treino de futebol no Calipolense depois de me teres comprado uns ténis novos. Recuso-me a aceitar que já não vais fazer mais etiquetas com os preços daquela maneira tão própria (ninguém escreve como tu; ninguém tem uma caligrafia tão perfeita) não consigo imaginar entrar na loja e não te ver detrás do balcão a organizar a escrita (sempre tudo direitinho), a arranjar qualquer coisa. Sempre me habituei a ser o neto do Sor Carapinha mais do que o próprio eu. As almoçaradas da música, as noites de reuniões nos bombeiros à luz de candeeiros a gás (porque as trovoadas eram fortes e a luz apagava-se). Lembro-me. E dói. Dói saber que não vamos repetir nada disto. Dói saber que não te vou ver com a minha filha no colo. Dói saber que já não vou poder discutir política contigo. Lembro-me das tardes passadas sentados na cadeiras de pano do Restauração, do cheiro das laranjeiras da praça quando íamos para casa após fechar a loja e de quando nos sentávamos nos degraus da igreja de S. Bartolomeu (nunca mais a vou conseguir olhar do mesmo modo). Admirava imenso o modo como as pessoas olhavam e falavam contigo, a maneira como te respeitavam, o modo como sempre ganhavas as eleições sem promessas e independentemente do partido (votavam em ti; sempre o fizeram e continuariam a fazê-lo sempre o teu nome (Romão Correia Carapinha) estivesse numa lista). Tu fizeste tanta coisa avô. Desde cedo, aos 17 já eras presidente da Direcção do Círculo Artístico Musical de Safara (a quinta amarela da tia Rosa já não parecer a mesma, Safara terá agora um misto de dor e uma lágrima guardada para qualquer recordação). Depois foste para a GNR, do Forte de Peniche para S. Miguel de Machede até Vila Viçosa (lembras-te avô de quando nos contavas histórias no forte de Peniche e que havia pessoas atrás de ti para ouvir mais coisas?). Como vão ser os natais sem ti? Como vão ser os aniversários? Como vão os simples almoços do Domingo? Fazes falta avô. A nós em casa, aos Bombeiros, à banda Filarmónica, ao Calipolense, à Junta, à vila avô; à vila que agora será sempre tua (e tu dela). Custa saber que já não te vou ouvir reclamar comigo e com o Artur por jogar à bola na rua, ou teimar (és tão teimoso avô) com algo que não tinhas razão. Sempre defendeste o que era teu, sempre lutaste pelo bem das coisas, das pessoas. (fazer bem custa o mesmo que fazer mal, e sempre quiseste fazer obra pelo bem comum). Tenho saudades avô, porque tu eras o meu avô, o sor Carapinha, tu. Custa saber que já não vou despedir-me de ti à pressa na segunda-feira antes de vir para Évora. Já não vamos estar detrás do balcão a arranjar séries de Natal enquanto todas as pessoas que passavam se assomavam à porta para dizer Bom Natal. E gostava tanto de ir contigo para as petiscadas, com os teus amigos da banda, da bola, da política, da pesca… Todos ficaram mais ricos ao conhecer-te, ao conviver contigo, ao aprender de ti, a vila ficou mais rica e agora dói. Muito. Mais que perder o presidente disto, daquilo, ou do outro, perdi-te a ti, porque para mim, tu eras sempre primeiro o meu avô, o meu amigo (a irmã da avô disse “Perdeste um grande amigo” e foi das poucas coisas acertadas que a ouvi dizer em toda a vida. Tinha razão). Dói muito avô, quero ser como tu, levantar a cabeça e empurrar o carro para frente (porque ainda há estrada para andar) mas não consigo ser tão forte avô. Fazes-nos falta, e por muito que tentemos fazer caminho para frente as coisas não serão bem iguais. Custou muito dizer-te adeus avô, muito. E eu queria tanto ver-te com a minha filha avô, tanto. Prometo-te avô que faremos tudo para seguir o teu trabalho, mas perdoa-nos avô se não conseguirmos. Tu eras ímpar. Tu és ímpar. E tenho todo o orgulho em que sejas para sempre o meu avô; Romão Correia Carapinha.

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