Crónica no Avante! de 21.12.95No passado sábado, três vezes olhámos e lemos a entrada da notícia do «Público» sobre a Cimeira de Madrid e não queríamos acreditar. Pior do que isso, fomos assaltados por aquela difusa mas terrível sensação de, por um momento, ou sentirmos que não somos deste mundo ou sentirmos que o bom senso, a noção do ridículo, o sentido das proporções e o espirito crítico já seriam puros vestigios arqueológicos de tempos remotos.Mas era mesmo verdade. Desenvolvendo uma destacada referência da primeira página, a citada notícia arrancava mesmo como segue: « " Euro, tu és o euro e sobre este euro edificaremos a União Europeia ". Foi com esta afirmação que o primeiro-ministro português saudou ontem o acordo dos líderes europeus sobre o nome da moeda única europeia. A imagem , recordando a conversa entre Jesus Cristo e São Pedro - "Pedro, tu és Pedro e sobre ti edificarei a minha Igreja " - não podia ser mais apropriada: o baptismo do "euro" constitui sobretudo um acto de voluntarismo e de fé na moeda única ».E como se isto já não bastasse para nos atirar para um indisfarçável mal-estar, no dia seguinte o « Público » fazia outra notícia sobre a Cimeira arrancar assim : «" Era bom que ele hoje dissesse uma frase como a de ontem (sexta-feira), foi muito bonita" - comentava ontem um jornalista espanhol ainda surpreendido com a referência do Primeiro -Ministro português aos Evangelhos com que ilustrou o nascimento do euro » .Deixamos ao cuidado de cada um - seja crente, agnóstico ou ateu - a avaliação sobre o bom ou mau gosto de parafrasear Jesus Cristo a respeito da moeda única. Deixamos ao cuidado de cada um reflectir sobre o significado de a ânsia de notoriedade europeia deste estreante dos Conselhos Europeus o ter levado ao ponto de adaptar e instrumentalizar «a palavra do Senhor ». Por nós, apenas nos apetece observar duas coisas um pouco diferentes: a primeira, é que, dado que o Eng. Guterres recorre a citações bíblicas com uma frequência absolutamente incomum em qualquer católico, é de suspeitar que essas citações estejam para o seu discurso como as anedotas ou piadas estão para o discurso dos políticos norte-americanos, ou sejam, são estudadas, premeditadas e já vão no bolso do casaco; a segunda, é que a imagem a que Guterres recorreu, mais do que voluntarismo ou fé na moeda única, parece sim desvendar que na mundivivência do Eng. Guterres a religião da moeda única, do federalismo contra as soberanias nacionais e da ditadura dos mercados financeiros, da competitividade e da globalização contra os direitos sociais deve estar em àspera peleja territorial com o seu tão exibido catolicismo.A verdade é que bastaram uma frase deste tipo, a «nuance» de uma alegada insatisfação quanto ao desemprego e meia dúzia de«briefings» com a comunicação social para que, por exemplo, o «Expresso» viesse dizer que « Portugal viu triunfar em Madrid quase todas as posições que trazia para a Cimeira dos Quinze » ( mas, com licença, eram boas?) , que a Cimeira de Madrid «marca uma viragem radical na abordagem portuguesa da política comunitária » ( mas, com licença, em quê ? ).Em vésperas de Natal, a pensar em todos os que andam entretidos a fugir da realidade, apenas apetece uma citação de Mateus colhida em epígrafe de um grande romance de Redol: «Deixai-os: cegos são e condutores de cegos; e se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no barranco ».
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Crónica no Avante! de 21.12.95No passado sábado, três vezes olhámos e lemos a entrada da notícia do «Público» sobre a Cimeira de Madrid e não queríamos acreditar. Pior do que isso, fomos assaltados por aquela difusa mas terrível sensação de, por um momento, ou sentirmos que não somos deste mundo ou sentirmos que o bom senso, a noção do ridículo, o sentido das proporções e o espirito crítico já seriam puros vestigios arqueológicos de tempos remotos.Mas era mesmo verdade. Desenvolvendo uma destacada referência da primeira página, a citada notícia arrancava mesmo como segue: « " Euro, tu és o euro e sobre este euro edificaremos a União Europeia ". Foi com esta afirmação que o primeiro-ministro português saudou ontem o acordo dos líderes europeus sobre o nome da moeda única europeia. A imagem , recordando a conversa entre Jesus Cristo e São Pedro - "Pedro, tu és Pedro e sobre ti edificarei a minha Igreja " - não podia ser mais apropriada: o baptismo do "euro" constitui sobretudo um acto de voluntarismo e de fé na moeda única ».E como se isto já não bastasse para nos atirar para um indisfarçável mal-estar, no dia seguinte o « Público » fazia outra notícia sobre a Cimeira arrancar assim : «" Era bom que ele hoje dissesse uma frase como a de ontem (sexta-feira), foi muito bonita" - comentava ontem um jornalista espanhol ainda surpreendido com a referência do Primeiro -Ministro português aos Evangelhos com que ilustrou o nascimento do euro » .Deixamos ao cuidado de cada um - seja crente, agnóstico ou ateu - a avaliação sobre o bom ou mau gosto de parafrasear Jesus Cristo a respeito da moeda única. Deixamos ao cuidado de cada um reflectir sobre o significado de a ânsia de notoriedade europeia deste estreante dos Conselhos Europeus o ter levado ao ponto de adaptar e instrumentalizar «a palavra do Senhor ». Por nós, apenas nos apetece observar duas coisas um pouco diferentes: a primeira, é que, dado que o Eng. Guterres recorre a citações bíblicas com uma frequência absolutamente incomum em qualquer católico, é de suspeitar que essas citações estejam para o seu discurso como as anedotas ou piadas estão para o discurso dos políticos norte-americanos, ou sejam, são estudadas, premeditadas e já vão no bolso do casaco; a segunda, é que a imagem a que Guterres recorreu, mais do que voluntarismo ou fé na moeda única, parece sim desvendar que na mundivivência do Eng. Guterres a religião da moeda única, do federalismo contra as soberanias nacionais e da ditadura dos mercados financeiros, da competitividade e da globalização contra os direitos sociais deve estar em àspera peleja territorial com o seu tão exibido catolicismo.A verdade é que bastaram uma frase deste tipo, a «nuance» de uma alegada insatisfação quanto ao desemprego e meia dúzia de«briefings» com a comunicação social para que, por exemplo, o «Expresso» viesse dizer que « Portugal viu triunfar em Madrid quase todas as posições que trazia para a Cimeira dos Quinze » ( mas, com licença, eram boas?) , que a Cimeira de Madrid «marca uma viragem radical na abordagem portuguesa da política comunitária » ( mas, com licença, em quê ? ).Em vésperas de Natal, a pensar em todos os que andam entretidos a fugir da realidade, apenas apetece uma citação de Mateus colhida em epígrafe de um grande romance de Redol: «Deixai-os: cegos são e condutores de cegos; e se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no barranco ».