(…) Quantas vezes,ao notar que o meu passado começava a pesar-me,que havia muita gente que pensava ter um crédito para comigo,material e moralmente,quantas vezes,quando o passado me pesava de mais,tivera a esperança de cortar tudo pela raiz:mudar de ofício, de mulher, de cidade, de continente— um continente a seguir ao outro até dar a volta completa —,de costumes, de amigos, de negócios, de clientela.Era um erro,quando percebi era tarde.Porque deste modonão fiz senão acumular passados sobre passadosatrás das costas,multiplicá-los,aos passados,e se uma vida me parecia já demasiado cheiae ramificada e enredada para andar sempre com ela,imagine-se muitas vidas,cada uma com o seu passadoe com os passados das outras vidasque continuam a ligar--se uns aos outros.Não servia de nada dizer às vezes:que alívio, ponho o conta-quilómetros a zero,passo a esponja pelo quadro:no dia a seguir ao da chegada a um país novo,já este zero se tornara um número com tantos algarismosque já não cabia no contador,que ocupava o quadro de uma ponta à outra,pessoas, lugares, simpatias, antipatias, passos em falso. (…) italo calvinose numa noite de inverno um viajantetrad. josé colaço barreiros(grafia adaptada)publico2002
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(…) Quantas vezes,ao notar que o meu passado começava a pesar-me,que havia muita gente que pensava ter um crédito para comigo,material e moralmente,quantas vezes,quando o passado me pesava de mais,tivera a esperança de cortar tudo pela raiz:mudar de ofício, de mulher, de cidade, de continente— um continente a seguir ao outro até dar a volta completa —,de costumes, de amigos, de negócios, de clientela.Era um erro,quando percebi era tarde.Porque deste modonão fiz senão acumular passados sobre passadosatrás das costas,multiplicá-los,aos passados,e se uma vida me parecia já demasiado cheiae ramificada e enredada para andar sempre com ela,imagine-se muitas vidas,cada uma com o seu passadoe com os passados das outras vidasque continuam a ligar--se uns aos outros.Não servia de nada dizer às vezes:que alívio, ponho o conta-quilómetros a zero,passo a esponja pelo quadro:no dia a seguir ao da chegada a um país novo,já este zero se tornara um número com tantos algarismosque já não cabia no contador,que ocupava o quadro de uma ponta à outra,pessoas, lugares, simpatias, antipatias, passos em falso. (…) italo calvinose numa noite de inverno um viajantetrad. josé colaço barreiros(grafia adaptada)publico2002