O CACIMBO: A IRONIA DO PROJECTO EUROPEU

09-07-2009
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Em plena Guerra-Fria, o pensador e teólogo americano Reinhold Niebuhr escreveu um livrinho intitulado A Ironia da História Americana. Apesar de ser um texto curto em extensão e claro em estilo, é quase impossível de resumir: em cada uma das suas páginas há muitas ideias e em muitas dessa ideias muitos sentidos. Mas podemos dizer, sem receio de errar muito, que um dos seus principais objectivos é alertar contra o excesso de crença americana na sua própria virtude, que (ironicamente) poderia destruir o idealismo da própria herança americana. .Ao lê-lo na era da globalização, e do lado de cá do Atlântico, é impossível não pensar no que seria um livro destes sobre a Europa, hoje. .A primeira coisa a notar – nenhuma novidade – é que muito do que discutimos hoje na Europa já foi discutido nos Estados Unidos, por vezes há duzentos anos ou mais, quando se estava a construir a democracia americana. .Mas o que mais impressiona – e até aflige – é como as ironias do projecto europeu são, quase sempre, diametralmente opostas às da história americana. .Comecemos por aqui mesmo. Escrevendo num país com menos de duzentos anos, Niebuhr olhava já para a “história americana”. Na Europa, o continente do passado, falamos antes do “projecto europeu”. .Nesse sentido, o futuro estaria à nossa frente – como eu acredito que está. Mas aí entra a segunda ironia: ao contrário do que se passa nos EUA, a Europa vive apenas convencida dos seus vícios e esvaziada de qualquer idealismo. Todas as palavras progressistas como “projecto” e “futuro” são na Europa pronunciadas com os mais profundos conservadorismo, cobardia e falta de ambição. Para não falar das palavras que só a medo se pronunciam, como “cidadãos” e “democracia”. .Dizem-nos que isso se passa porque os cidadãos têm falta de confiança nos seus líderes. Esse é apenas um biombo que esconde uma ironia muito amarga: os líderes é que não têm nenhuma confiança nos cidadãos (talvez por saberem que foram eleitos) e fogem deles a sete pés. Nessa fuga para a frente, o projecto europeu faz-se (ou desfaz-se) às arrecuas. Ilustração disso é a última cimeira, em que os líderes lá se comprometeram a respeitar o Mercado Único. Olhai e vede: depois de anos a discutir o futuro Tratado de Lisboa (ele mesmo já obsoleto em face da crise) conseguiram fazer regredir a discussão até ao nível do Tratado de Roma de 1957. .Por detrás dessa ironia vem uma outra. A cada passo (Convenção, Constituição, pseudominitratado, etc.) dizem-nos para não emitirmos qualquer dúvida ou oposição, sob risco de “bloquear o processo”. Mas, a cada passo que eles dão, o processo foca mais bloqueado. De facto, os nossos líderes conseguem muito bem desfazer o projecto europeu sozinhos. Na desconfiança que têm dos cidadãos europeus, arriscam-se mesmo a ser fatais para ele. .A mais cruel das ironias é que nunca, como agora, precisámos mais do projecto europeu. Em qualquer dos cenários futuros, seja em globalização ou em “desglobalização”. No primeiro caso, quem mais poderá negociar à escala global senão a futura democracia europeia? No caso de a globalização ruir (como já aconteceu no passado), também só a escala europeia nos permitirá sobreviver em condições razoáveis. .E é mesmo essa a ironia final: só o projecto europeu nos pode salvar. Mas, antes disso, vai ser preciso salvar o projecto europeu.Rui Tavares, Historiador, Público. .Comentário meu: Faço minhas estas sábias palavras. Sendo eu um europeísta convicto, muitas vezes me tenho interrogado sobre a direcção em que segue o “projecto europeu”, aparentemente agora sem rumo e sem evolução visível. .Entregue a uma nova classe de políticos de qualidade duvidosa, o projecto europeu parece atolado na lama, estagnado e sem direcção definida. A estranha ironia é que, como se afirma neste texto, o “projecto europeu” é a única via evolutiva para a Europa num mundo cada vez mais globalizado. Portanto, a única solução viável para o futuro da Europa seria impulsionar o “projecto europeu” para o patamar seguinte, melhorando-o e aprofundando-o para lhe dar consistência. .Mas tal não está a acontecer. Os políticos europeus parecem muito envolvidos em inúteis jogos florais de retórica e de maneirismos e pouco interessados em (ou incapazes de) produzirem trabalho útil. Entretanto, o mundo modifica-se rapidamente e alguns dos seus protagonistas alcançam novas metas de desenvolvimento e autoafirmação, enquanto a Europa parece apenas contemplar o seu umbigo. Entretanto perde-se tempo, porque o comboio da globalização não espera. E a Europa continua a perder terreno e a secundarizar-se cada vez mais.


Em plena Guerra-Fria, o pensador e teólogo americano Reinhold Niebuhr escreveu um livrinho intitulado A Ironia da História Americana. Apesar de ser um texto curto em extensão e claro em estilo, é quase impossível de resumir: em cada uma das suas páginas há muitas ideias e em muitas dessa ideias muitos sentidos. Mas podemos dizer, sem receio de errar muito, que um dos seus principais objectivos é alertar contra o excesso de crença americana na sua própria virtude, que (ironicamente) poderia destruir o idealismo da própria herança americana. .Ao lê-lo na era da globalização, e do lado de cá do Atlântico, é impossível não pensar no que seria um livro destes sobre a Europa, hoje. .A primeira coisa a notar – nenhuma novidade – é que muito do que discutimos hoje na Europa já foi discutido nos Estados Unidos, por vezes há duzentos anos ou mais, quando se estava a construir a democracia americana. .Mas o que mais impressiona – e até aflige – é como as ironias do projecto europeu são, quase sempre, diametralmente opostas às da história americana. .Comecemos por aqui mesmo. Escrevendo num país com menos de duzentos anos, Niebuhr olhava já para a “história americana”. Na Europa, o continente do passado, falamos antes do “projecto europeu”. .Nesse sentido, o futuro estaria à nossa frente – como eu acredito que está. Mas aí entra a segunda ironia: ao contrário do que se passa nos EUA, a Europa vive apenas convencida dos seus vícios e esvaziada de qualquer idealismo. Todas as palavras progressistas como “projecto” e “futuro” são na Europa pronunciadas com os mais profundos conservadorismo, cobardia e falta de ambição. Para não falar das palavras que só a medo se pronunciam, como “cidadãos” e “democracia”. .Dizem-nos que isso se passa porque os cidadãos têm falta de confiança nos seus líderes. Esse é apenas um biombo que esconde uma ironia muito amarga: os líderes é que não têm nenhuma confiança nos cidadãos (talvez por saberem que foram eleitos) e fogem deles a sete pés. Nessa fuga para a frente, o projecto europeu faz-se (ou desfaz-se) às arrecuas. Ilustração disso é a última cimeira, em que os líderes lá se comprometeram a respeitar o Mercado Único. Olhai e vede: depois de anos a discutir o futuro Tratado de Lisboa (ele mesmo já obsoleto em face da crise) conseguiram fazer regredir a discussão até ao nível do Tratado de Roma de 1957. .Por detrás dessa ironia vem uma outra. A cada passo (Convenção, Constituição, pseudominitratado, etc.) dizem-nos para não emitirmos qualquer dúvida ou oposição, sob risco de “bloquear o processo”. Mas, a cada passo que eles dão, o processo foca mais bloqueado. De facto, os nossos líderes conseguem muito bem desfazer o projecto europeu sozinhos. Na desconfiança que têm dos cidadãos europeus, arriscam-se mesmo a ser fatais para ele. .A mais cruel das ironias é que nunca, como agora, precisámos mais do projecto europeu. Em qualquer dos cenários futuros, seja em globalização ou em “desglobalização”. No primeiro caso, quem mais poderá negociar à escala global senão a futura democracia europeia? No caso de a globalização ruir (como já aconteceu no passado), também só a escala europeia nos permitirá sobreviver em condições razoáveis. .E é mesmo essa a ironia final: só o projecto europeu nos pode salvar. Mas, antes disso, vai ser preciso salvar o projecto europeu.Rui Tavares, Historiador, Público. .Comentário meu: Faço minhas estas sábias palavras. Sendo eu um europeísta convicto, muitas vezes me tenho interrogado sobre a direcção em que segue o “projecto europeu”, aparentemente agora sem rumo e sem evolução visível. .Entregue a uma nova classe de políticos de qualidade duvidosa, o projecto europeu parece atolado na lama, estagnado e sem direcção definida. A estranha ironia é que, como se afirma neste texto, o “projecto europeu” é a única via evolutiva para a Europa num mundo cada vez mais globalizado. Portanto, a única solução viável para o futuro da Europa seria impulsionar o “projecto europeu” para o patamar seguinte, melhorando-o e aprofundando-o para lhe dar consistência. .Mas tal não está a acontecer. Os políticos europeus parecem muito envolvidos em inúteis jogos florais de retórica e de maneirismos e pouco interessados em (ou incapazes de) produzirem trabalho útil. Entretanto, o mundo modifica-se rapidamente e alguns dos seus protagonistas alcançam novas metas de desenvolvimento e autoafirmação, enquanto a Europa parece apenas contemplar o seu umbigo. Entretanto perde-se tempo, porque o comboio da globalização não espera. E a Europa continua a perder terreno e a secundarizar-se cada vez mais.

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