A minha crónica deste mês no jornal Mais Região Gosto de uma boa corrida de toiros numa noite de Verão. Não de corridas pela televisão mas ali ao vivo, com o toiro a dois passos e os cornos a menos de um. Tão perto que, se o toiro ou o cavalo resolverem aliviar-se em plena praça, poderemos quase sentir o calor da bosta nos tornozelos. É festa brava! Para homens de barba rija…Sempre gostei do ambiente sentido nas praças, de ver as loiras douradas que acompanham os cavaleiros e que estão normalmente sentadas nos lugares mais caros a preço de nada, gosto das casacas dos cavaleiros (alguns deles parecendo ter saído o atelier do João Rolo, tal é a quantidade de brilhantes, madre-pérola e bordados ingleses), da destreza das montadas, da antipatia do director de corrida, dos cabelos ‘à beto’ dos forcados, dos toiros a babarem-se que nem um reformado a dormir a sesta, das queijadas de Sintra vendidas à meia dúzia e dos pasos dobles da banda ensaiados no salão de festas dos bombeiros lá da terra…Naquela noite de férias na Nazaré vesti a camisa mais cara que tinha em casa (que custou um quarto do salário mínimo nacional), calcei o meu sapatinho de vela, penteei o cabelo com brilhantina (e uma lufada da laca da mãe), calça de ganga, cinto bem apertado quase a chegar à garganta, camisola azul escura às costas (que custou outro quarto do salário mínimo) e lá fui eu, directamente para sector 1, bancada 3, nº 21, pronto para ver o Moura a cravar uns ferros.Ao meu lado, com um escaldão na tromba e no colo, uma senhora francesa de sotaque cerrado contemplava a lide a cavalo do Moura. A meio da lide soltava exclamações como “Oh mon dieu n'est pas possible!” que, traduzido para português de Portugal dará qualquer coisa como: “O cabrão do homem tem uma pontaria do caraças!”. Carrancudo, mais próximo da barreira, um senhor de bigode e patilhas quilométricas berrava para quem queria ouvir “Ó Moura! Tens de fazer uma dieta! Qualquer dia tens de ser tu a levar o cavalo!”. O público das corridas de toiros não perdoa ninguém. Nem sequer a senhores gordos e famosos como o Moura. O Moura não triunfou. O sorteio da noite não lhe correu de feição pois o bicho que lhe calhou em sorte era Pastueño e parecia ter mais que fazer do que andar a correr atrás de um cavalo. (Obviamente que aprendi a utilizar o termo Pastueño com o Maurício do Vale nas corridas da RTP, e aqui utilizado até tem pinta, não tem?).O trompete faz-se ouvir e entram os forcados na praça, num salto em conjunto quase coreografado capaz de fazer corar qualquer participante do Dança Comigo. O pobre rapaz da cara dirige-se às tábuas, estende o braço a segurar no barrete e dedica a pega a uma senhora jeitosa de cabelo loiro: “É com todo o meu prazer que lhe dedico a si, Cinha, tia badalada do social e das revistas cor-de-rosa, esta minha pega.”. A tia cora, levanta-se, mimetiza um beijinho, ajeita o cabelo, diz “és um Crido” e volta a sentar-se. O rapaz dirige-se para uma ponta da praça com os colegas na sua retaguarda, enfia o barrete até à ponta do nariz e começa a elogiar o animal: “Toiro, ah toiro lindo! Ah toiro! Eh eh! Toiro, ah belo toiro!”. O toiro fica tão excitado com tamanhas declarações que começa a correr na direcção do moço forcado e assim que o apanha leva-o nos cornos, a ele e a mais uns cinco. Acabam todos estendidos no chão com as mãos a tapar a cabeça, como se o Bush tivesse retirado as tropas do Iraque e resolvesse agora bombardear a praça de toiros.Tentam mais uma. Tentam mais duas e só conseguem à quarta.Ao reparar no sangue do colete do jovem forcado da frente, a esposa do senhor das patilhas fica preocupada com a limpeza da peça e não se escusa em dar a sua dica doméstica, ali mesmo no meio da praça: “Ah filho, diz à tua mãezinha que lave isso com água fria! Olha que se ela o mete na água quente fica aí uma cacholada!”Os bandarilheiros dos collants rosa-choque e dos lacinhos na nuca, o Moura e o jovem ensanguentado encontram-se no meio da praça e iniciam a volta de agradecimento.Ao que parece há ali uma regra: Os bandarilheiros é que se baixam sempre para apanhar o que o público atira para a praça. Se for roupa ou chapéus, têm de a devolver. Se for flores, têm de as dar ao Moura. Se for bandarilhas, então o melhor é fugirem para os curros…Manelito Caracol
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A minha crónica deste mês no jornal Mais Região Gosto de uma boa corrida de toiros numa noite de Verão. Não de corridas pela televisão mas ali ao vivo, com o toiro a dois passos e os cornos a menos de um. Tão perto que, se o toiro ou o cavalo resolverem aliviar-se em plena praça, poderemos quase sentir o calor da bosta nos tornozelos. É festa brava! Para homens de barba rija…Sempre gostei do ambiente sentido nas praças, de ver as loiras douradas que acompanham os cavaleiros e que estão normalmente sentadas nos lugares mais caros a preço de nada, gosto das casacas dos cavaleiros (alguns deles parecendo ter saído o atelier do João Rolo, tal é a quantidade de brilhantes, madre-pérola e bordados ingleses), da destreza das montadas, da antipatia do director de corrida, dos cabelos ‘à beto’ dos forcados, dos toiros a babarem-se que nem um reformado a dormir a sesta, das queijadas de Sintra vendidas à meia dúzia e dos pasos dobles da banda ensaiados no salão de festas dos bombeiros lá da terra…Naquela noite de férias na Nazaré vesti a camisa mais cara que tinha em casa (que custou um quarto do salário mínimo nacional), calcei o meu sapatinho de vela, penteei o cabelo com brilhantina (e uma lufada da laca da mãe), calça de ganga, cinto bem apertado quase a chegar à garganta, camisola azul escura às costas (que custou outro quarto do salário mínimo) e lá fui eu, directamente para sector 1, bancada 3, nº 21, pronto para ver o Moura a cravar uns ferros.Ao meu lado, com um escaldão na tromba e no colo, uma senhora francesa de sotaque cerrado contemplava a lide a cavalo do Moura. A meio da lide soltava exclamações como “Oh mon dieu n'est pas possible!” que, traduzido para português de Portugal dará qualquer coisa como: “O cabrão do homem tem uma pontaria do caraças!”. Carrancudo, mais próximo da barreira, um senhor de bigode e patilhas quilométricas berrava para quem queria ouvir “Ó Moura! Tens de fazer uma dieta! Qualquer dia tens de ser tu a levar o cavalo!”. O público das corridas de toiros não perdoa ninguém. Nem sequer a senhores gordos e famosos como o Moura. O Moura não triunfou. O sorteio da noite não lhe correu de feição pois o bicho que lhe calhou em sorte era Pastueño e parecia ter mais que fazer do que andar a correr atrás de um cavalo. (Obviamente que aprendi a utilizar o termo Pastueño com o Maurício do Vale nas corridas da RTP, e aqui utilizado até tem pinta, não tem?).O trompete faz-se ouvir e entram os forcados na praça, num salto em conjunto quase coreografado capaz de fazer corar qualquer participante do Dança Comigo. O pobre rapaz da cara dirige-se às tábuas, estende o braço a segurar no barrete e dedica a pega a uma senhora jeitosa de cabelo loiro: “É com todo o meu prazer que lhe dedico a si, Cinha, tia badalada do social e das revistas cor-de-rosa, esta minha pega.”. A tia cora, levanta-se, mimetiza um beijinho, ajeita o cabelo, diz “és um Crido” e volta a sentar-se. O rapaz dirige-se para uma ponta da praça com os colegas na sua retaguarda, enfia o barrete até à ponta do nariz e começa a elogiar o animal: “Toiro, ah toiro lindo! Ah toiro! Eh eh! Toiro, ah belo toiro!”. O toiro fica tão excitado com tamanhas declarações que começa a correr na direcção do moço forcado e assim que o apanha leva-o nos cornos, a ele e a mais uns cinco. Acabam todos estendidos no chão com as mãos a tapar a cabeça, como se o Bush tivesse retirado as tropas do Iraque e resolvesse agora bombardear a praça de toiros.Tentam mais uma. Tentam mais duas e só conseguem à quarta.Ao reparar no sangue do colete do jovem forcado da frente, a esposa do senhor das patilhas fica preocupada com a limpeza da peça e não se escusa em dar a sua dica doméstica, ali mesmo no meio da praça: “Ah filho, diz à tua mãezinha que lave isso com água fria! Olha que se ela o mete na água quente fica aí uma cacholada!”Os bandarilheiros dos collants rosa-choque e dos lacinhos na nuca, o Moura e o jovem ensanguentado encontram-se no meio da praça e iniciam a volta de agradecimento.Ao que parece há ali uma regra: Os bandarilheiros é que se baixam sempre para apanhar o que o público atira para a praça. Se for roupa ou chapéus, têm de a devolver. Se for flores, têm de as dar ao Moura. Se for bandarilhas, então o melhor é fugirem para os curros…Manelito Caracol