mind this gap

04-07-2009
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Sofia Santos, Neurocientista e Psicóloga, AlemanhaO meu testemunho vai deixar muita informação de fora, porque senão seria um testamento e não um testemunho. A minha decisão de sair do país prendeu-se mais na busca de conhecimento. Talvez tenha tido azar, mas considero os cursos de psicologia em Portugal muito atrasados, agarrados literalmente a bases do inicio do século passado, ou limitados em termos de conhecimentos científicos, e durante o meu curso senti-me frequentemente "revoltada" com o que nos era incutido. Nunca fui carneiro de seguir manadas e desconfiava seriamente (a internet ainda estava no inicio) do que nos era transmitido em grande parte das aulas. Discutia abertamente com os colegas sobre isso, mas a maioria "comia e calava" que é como quem diz não questionava. Quando acabei o curso, sem cunhas a busca de emprego foi muito complicada (muito), mas não queria por nada desistir de exercer o que tinha estudado. Durante algum tempo trabalhei fora da área e estagiei voluntariamente na minha área para construir currículo. Admito que tenho persistência, algo que nem toda a gente tem, nem tem que ter, é apenas uma característica. Entrei num mestrado, fiz estágio voluntário desse mestrado e tive a sorte da abertura de concurso para a instituição onde estava a estagiar. Entre muitos candidatos, fiquei. Só foram considerados candidatos que tivessem estagiado na instituição, informação que devia ser mais clara, na minha opinião, e poupar o tempo (e a esperança) a muitas pessoas. Uma questão de respeito. Por ser uma instituição do estado tinha um emprego, e não o trabalho pago a recibos verdes (o cancro de Portugal). Iniciei mais cursos de formação, abri consultório. Enfim, tinha a carreira em ascensão, mas isto depois de vários anos de muito, muito esforço e, quero acrescentar, muita angustia. Presenciei muita coisa injusta em Portugal, muita cunha, muitas situacoes que, se contadas aqui na Alemanha as pessoas têm dificuldade em acreditar. Desde colegas saidinhos do curso e, passando à frente de pessoas que estagiavam voluntariamente durante três anos (!!!), obtinham posicoes imediatas através de concursos (do estado) abertos de propósito para os colocar (e não, não foi pelas notas) até pessoas que conheço com média insuficiente que conseguiram entrar na faculdade empurrando para fora os últimos "oficialmente" colocados. Tudo isto se passava em Portugal antes de eu sair, não tenho razoes para acreditar que tenha mudado. Queria estudar fora e esse pensamento continuava na minha cabeça, cheguei a ir a Inglaterra a uma entrevista. Na altura fiquei impressionada com o que vi. As instalacoes psiquiátricas (e o tratamento das pessoas com doenças do foro psíquico) eram anos de luz das nossas. Resolvi informar-me de bolsas de estudo, andei de embaixada em embaixada (na altura eram poucas as informacoes na net) e acabei por obter informacoes de mestrados em inglês na Alemanha. Candidatei-me e ao mesmo tempo candidatei-me a uma bolsa alemã (DAAD). Pensei "se conseguir é sinal para ir". Consegui e pensei "bolas, agora tenho mesmo que ir" ;-) Lembro-me perfeitamente do meu pai me dizer "então deixa cá ver se entendo, vais despedir-te do teu emprego, largar o consultório, para ires estudar cérebros num país em que não falas a língua com uma bolsa dum ano, é isso?". errr...sim, era isso. Ninguém que eu conheça teria feito o que fiz. Mas eu pensei "ou vou agora ou nunca mais vou", porque entretanto criam-se responsabilidades, e as oportunidades para estudar perdem o seu timing. O curso no Max-Planck na Alemanha foi talvez o período mais difícil da minha vida. A exigência e a competição não têm paralelo a nada que conheça em Portugal. Durante dois anos não se respira, não se tem actividades extras, poucos "cafézinhos" com amigos (que são os colegas de curso, porque vivemos numa espécie de ambiente big brother, todos juntos a estudar), mas muito café (o café aqui...sem comentários). O dia era ocupado com aulas teóricas de manha (inicio às 08h) e aulas prácticas e lab rotations de tarde, depois tinha-se tempo para comprar comida e estudar para o dia seguinte. A vida era passada nos institutos, nas aulas ou a estudar na biblioteca caso tivesse alguma hora vaga. Aprendi mais nesses anos sobre a vida e o mundo do que em toda a minha vida em Portugal e finalmente aprendi muito sobre o meu país. O bom e o mau. Não há nada como sair do nosso país para aprendermos acerca do lugar de onde viemos. Continuei os meus estudos, viajei muito, conheci muitas culturas, religiões e pessoas diferentes. Confirmei o que sempre desconfiei, o atraso da educação em Portugal é hoje em dia, para mim e na minha área, assustador. Encontro-me novamente numa encruzilhada, a finalizar um doutoramento e a ter que decidir o meu rumo. Sempre fui uma sonhadora (acho que se nota he he) e alimentava o desejo de um dia voltar e poder transmitir o meu conhecimento aos jovens, empurrar a psicologia e a investigação para a frente. Pô-los a pensar criticamente, a abrirem a mente para as recentes descobertas cientificas que se fazem pelo mundo fora, dinamizá-los e motivá-los, acima de tudo valorizá-los, porque sinto (e senti na pele em Portugal) que isso é uma falha grave que caracteriza o país, por muita boa vontade que se tenha a pensar que não. Não creio que volte, embora vá ponderar a hipótese devido às saudades. As possibilidades fora do país são, em geral, melhores, mais justas e sem cunhas*, o que pesa muito nas decisões (é uma balança dificil de equilibrar). Para quem pense na Alemanha para estudar ou trabalhar, gostaria só de avisar que o ambiente de trabalho é muito competitivo e individualista, mais do que em Portugal. Isso não é nada fácil para nós portugueses. Os chefes são como em todo o lado, há os bons e os maus, exploradores e autoritários. Independentemente disso, na Alemanha valoriza-se o talento e à partida acredita-se no talento. Assim como nos EUA, onde também trabalhei pouco tempo. Aqui há hierarquia e utiliza-se o "você" para situacoes formais, algo que é uma grande desvantagem em relacao aos países de lingua inglesa. No entanto, doutores só quem tem doutoramento. O meu supervisor é professor universitario, tem dois doutoramentos (!!!) e todos o tratamos por tu e pelo primeiro nome, e foi assim em quase todos os departamentos onde trabalhei (mas nao quer dizer que o seja em todo o lado e em todas as áreas). Mais uma nota, a adaptação à cultura do norte da Europa leva um tempo, e não é um ano que serve para dizer que nos adaptámos, levam anos. Isto se não tiverem apoio familiar, como era o meu caso. Quem vier com amigos ou família as coisas tornam-se muitíssimo mais fáceis. Isto já é um testamento! Qualquer questão que queiram colocar, façam-no pelo mail (neurosss@yahoo.com.br). Boa sorte para os vossos sonhos :-) Sofia Santos, neurocientista e psicóloga, Alemanha * quanto a cunhas, há cunhas em todo o lado, obviamente. Mas aqui são raras (não faz parte da mentalidade), eu nunca as vi, pois normalmente as pessoas são escolhidas pelas competências.


Sofia Santos, Neurocientista e Psicóloga, AlemanhaO meu testemunho vai deixar muita informação de fora, porque senão seria um testamento e não um testemunho. A minha decisão de sair do país prendeu-se mais na busca de conhecimento. Talvez tenha tido azar, mas considero os cursos de psicologia em Portugal muito atrasados, agarrados literalmente a bases do inicio do século passado, ou limitados em termos de conhecimentos científicos, e durante o meu curso senti-me frequentemente "revoltada" com o que nos era incutido. Nunca fui carneiro de seguir manadas e desconfiava seriamente (a internet ainda estava no inicio) do que nos era transmitido em grande parte das aulas. Discutia abertamente com os colegas sobre isso, mas a maioria "comia e calava" que é como quem diz não questionava. Quando acabei o curso, sem cunhas a busca de emprego foi muito complicada (muito), mas não queria por nada desistir de exercer o que tinha estudado. Durante algum tempo trabalhei fora da área e estagiei voluntariamente na minha área para construir currículo. Admito que tenho persistência, algo que nem toda a gente tem, nem tem que ter, é apenas uma característica. Entrei num mestrado, fiz estágio voluntário desse mestrado e tive a sorte da abertura de concurso para a instituição onde estava a estagiar. Entre muitos candidatos, fiquei. Só foram considerados candidatos que tivessem estagiado na instituição, informação que devia ser mais clara, na minha opinião, e poupar o tempo (e a esperança) a muitas pessoas. Uma questão de respeito. Por ser uma instituição do estado tinha um emprego, e não o trabalho pago a recibos verdes (o cancro de Portugal). Iniciei mais cursos de formação, abri consultório. Enfim, tinha a carreira em ascensão, mas isto depois de vários anos de muito, muito esforço e, quero acrescentar, muita angustia. Presenciei muita coisa injusta em Portugal, muita cunha, muitas situacoes que, se contadas aqui na Alemanha as pessoas têm dificuldade em acreditar. Desde colegas saidinhos do curso e, passando à frente de pessoas que estagiavam voluntariamente durante três anos (!!!), obtinham posicoes imediatas através de concursos (do estado) abertos de propósito para os colocar (e não, não foi pelas notas) até pessoas que conheço com média insuficiente que conseguiram entrar na faculdade empurrando para fora os últimos "oficialmente" colocados. Tudo isto se passava em Portugal antes de eu sair, não tenho razoes para acreditar que tenha mudado. Queria estudar fora e esse pensamento continuava na minha cabeça, cheguei a ir a Inglaterra a uma entrevista. Na altura fiquei impressionada com o que vi. As instalacoes psiquiátricas (e o tratamento das pessoas com doenças do foro psíquico) eram anos de luz das nossas. Resolvi informar-me de bolsas de estudo, andei de embaixada em embaixada (na altura eram poucas as informacoes na net) e acabei por obter informacoes de mestrados em inglês na Alemanha. Candidatei-me e ao mesmo tempo candidatei-me a uma bolsa alemã (DAAD). Pensei "se conseguir é sinal para ir". Consegui e pensei "bolas, agora tenho mesmo que ir" ;-) Lembro-me perfeitamente do meu pai me dizer "então deixa cá ver se entendo, vais despedir-te do teu emprego, largar o consultório, para ires estudar cérebros num país em que não falas a língua com uma bolsa dum ano, é isso?". errr...sim, era isso. Ninguém que eu conheça teria feito o que fiz. Mas eu pensei "ou vou agora ou nunca mais vou", porque entretanto criam-se responsabilidades, e as oportunidades para estudar perdem o seu timing. O curso no Max-Planck na Alemanha foi talvez o período mais difícil da minha vida. A exigência e a competição não têm paralelo a nada que conheça em Portugal. Durante dois anos não se respira, não se tem actividades extras, poucos "cafézinhos" com amigos (que são os colegas de curso, porque vivemos numa espécie de ambiente big brother, todos juntos a estudar), mas muito café (o café aqui...sem comentários). O dia era ocupado com aulas teóricas de manha (inicio às 08h) e aulas prácticas e lab rotations de tarde, depois tinha-se tempo para comprar comida e estudar para o dia seguinte. A vida era passada nos institutos, nas aulas ou a estudar na biblioteca caso tivesse alguma hora vaga. Aprendi mais nesses anos sobre a vida e o mundo do que em toda a minha vida em Portugal e finalmente aprendi muito sobre o meu país. O bom e o mau. Não há nada como sair do nosso país para aprendermos acerca do lugar de onde viemos. Continuei os meus estudos, viajei muito, conheci muitas culturas, religiões e pessoas diferentes. Confirmei o que sempre desconfiei, o atraso da educação em Portugal é hoje em dia, para mim e na minha área, assustador. Encontro-me novamente numa encruzilhada, a finalizar um doutoramento e a ter que decidir o meu rumo. Sempre fui uma sonhadora (acho que se nota he he) e alimentava o desejo de um dia voltar e poder transmitir o meu conhecimento aos jovens, empurrar a psicologia e a investigação para a frente. Pô-los a pensar criticamente, a abrirem a mente para as recentes descobertas cientificas que se fazem pelo mundo fora, dinamizá-los e motivá-los, acima de tudo valorizá-los, porque sinto (e senti na pele em Portugal) que isso é uma falha grave que caracteriza o país, por muita boa vontade que se tenha a pensar que não. Não creio que volte, embora vá ponderar a hipótese devido às saudades. As possibilidades fora do país são, em geral, melhores, mais justas e sem cunhas*, o que pesa muito nas decisões (é uma balança dificil de equilibrar). Para quem pense na Alemanha para estudar ou trabalhar, gostaria só de avisar que o ambiente de trabalho é muito competitivo e individualista, mais do que em Portugal. Isso não é nada fácil para nós portugueses. Os chefes são como em todo o lado, há os bons e os maus, exploradores e autoritários. Independentemente disso, na Alemanha valoriza-se o talento e à partida acredita-se no talento. Assim como nos EUA, onde também trabalhei pouco tempo. Aqui há hierarquia e utiliza-se o "você" para situacoes formais, algo que é uma grande desvantagem em relacao aos países de lingua inglesa. No entanto, doutores só quem tem doutoramento. O meu supervisor é professor universitario, tem dois doutoramentos (!!!) e todos o tratamos por tu e pelo primeiro nome, e foi assim em quase todos os departamentos onde trabalhei (mas nao quer dizer que o seja em todo o lado e em todas as áreas). Mais uma nota, a adaptação à cultura do norte da Europa leva um tempo, e não é um ano que serve para dizer que nos adaptámos, levam anos. Isto se não tiverem apoio familiar, como era o meu caso. Quem vier com amigos ou família as coisas tornam-se muitíssimo mais fáceis. Isto já é um testamento! Qualquer questão que queiram colocar, façam-no pelo mail (neurosss@yahoo.com.br). Boa sorte para os vossos sonhos :-) Sofia Santos, neurocientista e psicóloga, Alemanha * quanto a cunhas, há cunhas em todo o lado, obviamente. Mas aqui são raras (não faz parte da mentalidade), eu nunca as vi, pois normalmente as pessoas são escolhidas pelas competências.

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