mind this gap

04-07-2009
marcar artigo


Ana Quaresma, IrlandaBacharel em Historia, terminado em 1978.Jornalista durante perto de 25 anos.Não sou propriamente uma jovem mas há também muitas pessoas de “meia idade” com curso superiores em Portugal que se encontram arrumadas em “arcas”, como os trapos velhos que já não se usam, e por isso resolvi contar a minha experiência. Desde muito nova que senti o apelo pelas viagens, pelo contacto com novas e diferentes realidades ou simplesmente o trocar de ideias com cidadãos do mundo. Opostamente e por razões familiares vi-me agarrada a um emprego que não podia de modo nenhum abandonar. Duas crianças para sustentar- uma mãe sozinha que, como tantas, se viu enredada em contas e contas para pagar e sem qualquer apoio oficial. E o meu emprego até me dava prazer – primeiro num jornal e depois numa televisão. Já não gostava era das horas imensas que trabalhava por dia, dos meus colegas que só iam assinar o ponto e ganhavam o dobro de mim, etc, etc O meu esforço e o meu profissionalismo até foram recompensados ( após vários anos de trabalho escravo) e fui promovida a chefe de serviço, lugar que ocupei cerca de 5 anos e que detestei. Mas ganhava muito dinheiro – pelos padrões portugeses- embora quase metade fossem para impostos. Entretanto atingi uma idade em que comecei a ser encarada como “dinaussauro” e , após várias crises na empresa onde trabalhava ( de natureza política, claro!), que provocaram uma revolução em toda a estrutura, com o consequente emergir dos cunhas e cunhados e afins decidi aceitar os incentivos para a rescisão amigável – ou seja, o ser corrida do local onde eu tinha vestido a camisola, onde eu tinha empenhado a minha alma. “Meti os papéis”! Poucos dias depois fui telefonicamente informada para ir assinar os papéis e receber o cheque!. Fugi de lá e fui para a praia- onde chovia pois estavamos em Dezembro- passear na rebentação das ondas e chorar. O troar do mar abafavam os meus soluços e a chuva na cara mascaravam as minhas lágrimas! Que parva! Que estava eu à espera? Decidi e bem encerrar esse capítulo. Entretanto, o meu marido, bastante mais novo que eu e profissional de IT, farto também de pertencer à geração dos mil euros e de trabalhar de sol a sol, candidata-se a um emprego na Irlanda. Um mês depois veio a uma entrevista e dois meses depois estavamos instalados em Galway! O meu inglês falado era francamente mau, pois nunca tinha tido a oportunidade de o praticar. Mas isso nunca me impediu de falar a torto e a direito e após quase dois anos é francamente aceitável. Em Setembro do ano passado, após o meu filho mais novo ( que veio para cá com 4 anos) estar integrado na escola e socialmente – fala inglês perfeitamente e tem montes de amigos e amigas irlandeses e de vários países do mundo, decidi procurar trabalho. Com muita facilidade consegui colocação num infantário. Fui contratada para cozinheira e ao fim de duas semanas estava a trabalhar como professora e responsável por uma sala! Tenho recebido mais elogios e incentivos nestes últimos quase cinco meses que numa vida de trabalho em Portugal! Vivemos muito confortavelmente em termos materiais mas isso não é o mais importante. Sentimos que pertencemos a uma sociedade que nos recebeu de braços abertos, nos acarinha, incentiva e que não tem preconceitos em relação à idade de trabalho- tenho 50 anos- ou a deficiências fisicas – o meu marido é deficiente motor e aqui nunca foi olhado como um ser diferente. Claro que a Irlanda também tem defeitos e concerteza que são vários. Mas uma coisa não tem: grosseria, chico-espertos, cunhas e “cunhados”e endeusamento dos que fogem aos impostos. Para mim é suficiente. Ana


Ana Quaresma, IrlandaBacharel em Historia, terminado em 1978.Jornalista durante perto de 25 anos.Não sou propriamente uma jovem mas há também muitas pessoas de “meia idade” com curso superiores em Portugal que se encontram arrumadas em “arcas”, como os trapos velhos que já não se usam, e por isso resolvi contar a minha experiência. Desde muito nova que senti o apelo pelas viagens, pelo contacto com novas e diferentes realidades ou simplesmente o trocar de ideias com cidadãos do mundo. Opostamente e por razões familiares vi-me agarrada a um emprego que não podia de modo nenhum abandonar. Duas crianças para sustentar- uma mãe sozinha que, como tantas, se viu enredada em contas e contas para pagar e sem qualquer apoio oficial. E o meu emprego até me dava prazer – primeiro num jornal e depois numa televisão. Já não gostava era das horas imensas que trabalhava por dia, dos meus colegas que só iam assinar o ponto e ganhavam o dobro de mim, etc, etc O meu esforço e o meu profissionalismo até foram recompensados ( após vários anos de trabalho escravo) e fui promovida a chefe de serviço, lugar que ocupei cerca de 5 anos e que detestei. Mas ganhava muito dinheiro – pelos padrões portugeses- embora quase metade fossem para impostos. Entretanto atingi uma idade em que comecei a ser encarada como “dinaussauro” e , após várias crises na empresa onde trabalhava ( de natureza política, claro!), que provocaram uma revolução em toda a estrutura, com o consequente emergir dos cunhas e cunhados e afins decidi aceitar os incentivos para a rescisão amigável – ou seja, o ser corrida do local onde eu tinha vestido a camisola, onde eu tinha empenhado a minha alma. “Meti os papéis”! Poucos dias depois fui telefonicamente informada para ir assinar os papéis e receber o cheque!. Fugi de lá e fui para a praia- onde chovia pois estavamos em Dezembro- passear na rebentação das ondas e chorar. O troar do mar abafavam os meus soluços e a chuva na cara mascaravam as minhas lágrimas! Que parva! Que estava eu à espera? Decidi e bem encerrar esse capítulo. Entretanto, o meu marido, bastante mais novo que eu e profissional de IT, farto também de pertencer à geração dos mil euros e de trabalhar de sol a sol, candidata-se a um emprego na Irlanda. Um mês depois veio a uma entrevista e dois meses depois estavamos instalados em Galway! O meu inglês falado era francamente mau, pois nunca tinha tido a oportunidade de o praticar. Mas isso nunca me impediu de falar a torto e a direito e após quase dois anos é francamente aceitável. Em Setembro do ano passado, após o meu filho mais novo ( que veio para cá com 4 anos) estar integrado na escola e socialmente – fala inglês perfeitamente e tem montes de amigos e amigas irlandeses e de vários países do mundo, decidi procurar trabalho. Com muita facilidade consegui colocação num infantário. Fui contratada para cozinheira e ao fim de duas semanas estava a trabalhar como professora e responsável por uma sala! Tenho recebido mais elogios e incentivos nestes últimos quase cinco meses que numa vida de trabalho em Portugal! Vivemos muito confortavelmente em termos materiais mas isso não é o mais importante. Sentimos que pertencemos a uma sociedade que nos recebeu de braços abertos, nos acarinha, incentiva e que não tem preconceitos em relação à idade de trabalho- tenho 50 anos- ou a deficiências fisicas – o meu marido é deficiente motor e aqui nunca foi olhado como um ser diferente. Claro que a Irlanda também tem defeitos e concerteza que são vários. Mas uma coisa não tem: grosseria, chico-espertos, cunhas e “cunhados”e endeusamento dos que fogem aos impostos. Para mim é suficiente. Ana

marcar artigo