Dias com árvores: Árvores velhas

29-09-2009
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Jardim de São Lázaro - PortoEm Junho de 2004, era o Porto governado por uma ecuménica coligação de esquerda-direita, caiu uma tília na Praça da República, escaqueirando cinco carros lá estacionados. A árvore aguentou enquanto pôde para tombar durante a noite sem atingir pessoas, mas foi-lhe arboreamente impossível não destruir bens. O vice-presidente da Câmara atribuiu as culpas da ocorrência ao vereador do ambiente, de cor política diversa da sua, e exortou-o a garantir que mais nenhuma árvore cairia na cidade. Mesmo um cristão praticante se teria irritado com a desmesura da exigência: se até Deus, com expediente há muito montado para tais pedidos, é incapaz de lhes dar despacho satisfatório, que pode um mortal fazer numa época em que os milagres passaram de moda? Para piorar as coisas, é de crer que o vereador a quem o outro exigia poderes de taumaturgo fosse ateu por credo político.Mas o vereador desafiado não se deixou ficar. Lançou uma campanha de urgência para diagnosticar a saúde das árvores de grande porte em jardins e arruamentos; como resultado, mais de 50 árvores foram abatidas: na Ramada Alta, na Praça da República, no Largo da Lapa, na Rua D. Manuel II, na Rua do Campo Alegre, etc. A campanha desde então não mais parou, mesmo tendo havido eleições e mudado o vereador. Fomo-nos habituando a ver os restos decepados de grandes árvores a atravancar passeios e jardins. Educados pelo hábito, já nem perguntamos porquê. Estavam doentes, eram um perigo para pessoas e bens. Embora às vezes nos perturbe a dúvida: aquela tília na Praça Filipa de Lencastre estava mesmo debilitada, ou foi a requalificação da praça que ditou o seu sacrifício? Chegou agora a vez das monumentais tílias do Jardim de S. Lázaro: duas foram cortadas na semana passada, e não sabemos se as duas que permanecem de pé serão poupadas. A perda destas árvores destrói irremediavelmente - durante um prazo pelo menos igual ao da vida que nos resta - o equilíbrio e o aconchego do jardim.Em Outubro de 2007, a Sociedade Portuguesa de Arboricultura (SPA) organizou, no Parque Biológico de Gaia, um simpósio sobre Árvores Velhas. Houve convidados nacionais e estrangeiros, e uma saída de campo de um dia inteiro para observar de perto algumas dessas venerandas árvores. Custa a acreditar que, na região do Porto, tenha sido possível cumprir cabalmente esse ponto do programa. Para as nossas autarquias, as árvores adultas não são seres dignos de admiração, mas sim ameaças a abater. Se lhes avaliam a saúde, não é para lhes acudir com algum tratamento que lhes prolongue a vida: é para justificar a sentença de morte. Daí que árvores velhas (melhor seria chamar-lhes árvores anciãs, tradução mais sugestiva do inglês ancient trees) como as que serviram de pretexto ao simpósio sejam por cá quase inexistentes.Mas esse encontro poderia ter assinalado uma mudança de atitude: afinal, a SPA reúne muitos dos técnicos que, nas autarquias, decidem da vida e da morte das árvores. Talvez eles se sentissem embaraçados por terem poucas ou nenhumas árvores velhas para mostrar aos visitantes. Talvez aprendessem que, além da fitossanidade, há outras considerações (afectivas, paisagísticas, ambientais) que devem ser ponderadas quando se avalia uma árvore. O abate das tílias de S. Lázaro mostra porém que, desse ponto de vista, o simpósio de pouco serviu.


Jardim de São Lázaro - PortoEm Junho de 2004, era o Porto governado por uma ecuménica coligação de esquerda-direita, caiu uma tília na Praça da República, escaqueirando cinco carros lá estacionados. A árvore aguentou enquanto pôde para tombar durante a noite sem atingir pessoas, mas foi-lhe arboreamente impossível não destruir bens. O vice-presidente da Câmara atribuiu as culpas da ocorrência ao vereador do ambiente, de cor política diversa da sua, e exortou-o a garantir que mais nenhuma árvore cairia na cidade. Mesmo um cristão praticante se teria irritado com a desmesura da exigência: se até Deus, com expediente há muito montado para tais pedidos, é incapaz de lhes dar despacho satisfatório, que pode um mortal fazer numa época em que os milagres passaram de moda? Para piorar as coisas, é de crer que o vereador a quem o outro exigia poderes de taumaturgo fosse ateu por credo político.Mas o vereador desafiado não se deixou ficar. Lançou uma campanha de urgência para diagnosticar a saúde das árvores de grande porte em jardins e arruamentos; como resultado, mais de 50 árvores foram abatidas: na Ramada Alta, na Praça da República, no Largo da Lapa, na Rua D. Manuel II, na Rua do Campo Alegre, etc. A campanha desde então não mais parou, mesmo tendo havido eleições e mudado o vereador. Fomo-nos habituando a ver os restos decepados de grandes árvores a atravancar passeios e jardins. Educados pelo hábito, já nem perguntamos porquê. Estavam doentes, eram um perigo para pessoas e bens. Embora às vezes nos perturbe a dúvida: aquela tília na Praça Filipa de Lencastre estava mesmo debilitada, ou foi a requalificação da praça que ditou o seu sacrifício? Chegou agora a vez das monumentais tílias do Jardim de S. Lázaro: duas foram cortadas na semana passada, e não sabemos se as duas que permanecem de pé serão poupadas. A perda destas árvores destrói irremediavelmente - durante um prazo pelo menos igual ao da vida que nos resta - o equilíbrio e o aconchego do jardim.Em Outubro de 2007, a Sociedade Portuguesa de Arboricultura (SPA) organizou, no Parque Biológico de Gaia, um simpósio sobre Árvores Velhas. Houve convidados nacionais e estrangeiros, e uma saída de campo de um dia inteiro para observar de perto algumas dessas venerandas árvores. Custa a acreditar que, na região do Porto, tenha sido possível cumprir cabalmente esse ponto do programa. Para as nossas autarquias, as árvores adultas não são seres dignos de admiração, mas sim ameaças a abater. Se lhes avaliam a saúde, não é para lhes acudir com algum tratamento que lhes prolongue a vida: é para justificar a sentença de morte. Daí que árvores velhas (melhor seria chamar-lhes árvores anciãs, tradução mais sugestiva do inglês ancient trees) como as que serviram de pretexto ao simpósio sejam por cá quase inexistentes.Mas esse encontro poderia ter assinalado uma mudança de atitude: afinal, a SPA reúne muitos dos técnicos que, nas autarquias, decidem da vida e da morte das árvores. Talvez eles se sentissem embaraçados por terem poucas ou nenhumas árvores velhas para mostrar aos visitantes. Talvez aprendessem que, além da fitossanidade, há outras considerações (afectivas, paisagísticas, ambientais) que devem ser ponderadas quando se avalia uma árvore. O abate das tílias de S. Lázaro mostra porém que, desse ponto de vista, o simpósio de pouco serviu.

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