O GENERAL SEM MEDO
Póvoa de Varzim evoca centenário do nascimento de Humberto Delgado SERVIÇOS Imprimir esta página Contactar Anterior Voltar Seguinte
Passagem do candidato à Presidência da República pela
Póvoa de Varzim ficou marcada por violenta carga policial
MÁRCIA VARA
Quiseram calar-nos!" é o mote para um colóquio que se realizará na biblioteca municipal da Póvoa de Varzim, dia 15 deste mês, com o propósito de antecipar as comemorações do centenário do nascimento de Humberto Delgado, "O general sem medo". No debate estarão presentes a filha do general e presidente da Fundação com o nome do pai, Iva Delgado, José Carlos Vasconcelos, jornalista e escritor, Manuel Loff, professor da Faculdade de Letras do Porto, alguns activistas da "campanha da Oposição" e outras pessoas que, directa ou indirectamente, estão ligadas a este período da História de Portugal.
Humberto Delgado passou pela Póvoa de Varzim em campanha eleitoral para as "Presidenciais" de 1958.
O dia ficou marcado por uma carga policial sobre a multidão que aplaudia o candidato oposicionista.
O COMÉRCIO descobriu alguns activistas do "reviralho" que assistiram (e aplaudiram) à passagem do general por terras poveiras. Todos são unânimes em considerar o candidato da Oposição como um homem de "coragem" e muito "audacioso".
O general chega à Póvoa de Varzim no dia 16 de Março, um dia depois do megacomício do Porto. A cidade estava "em alvoroço", pelo menos em espírito, já que "a força do regime sentia-se em toda a parte", recorda Agostinho Ferreira Lopes, lavrador que nascera de famílias abastadas da Póvoa, "sem pretensão de nobreza e sem qualquer traço de fidalguia", como o próprio se define. Com a morte do pai, e sem irmãos por perto, ficou encarregado de tomar conta das propriedades que tinham em Guidões, na Trofa, e onde se inclui uma casa que "está na família desde 1638". Agostinho Lopes foi um activista e partilhava os ideais de Humberto Delgado. Fazia campanha na região. Todas as sextas-feiras, recorda, costumava ir à Póvoa de Varzim. No dia 16 de Março, que ficou na memória das gentes locais, passou por Vila do Conde.
Estava no café Nacional, com um dos seus nove filhos "à espera do sr. general", como ao longo de toda a entrevista faz questão de lhe chamar. A comitiva de Humberto Delgado veio do Porto, pela Estrada Nacional 13. Em Azurara, Vila do Conde, foi interceptada por agentes da Guarda Nacional que "conseguiram partir o cortejo e mandarem dispersar os carros". "Uns foram obrigados a seguir para a estrada da Trofa e outros para o Porto", lembra-se o lavrador poveiro.
O general acabou por chegar à Praça Marquês de Pombal, na Póvoa de Varzim, mas "ia muito mais só".
Foi nesse local, situado mesmo no coração da cidade, que o candidato a Presidente da República depositou uma coroa de flores no monumento dos heróis da Grande Guerra. "Muitas pessoas esperavam-no e a praça estava repleta de gente", recordou o lavrador.
Guarda obriga a dispersar
Uma comissão de recepção tentava fazer "as honras da casa", enquanto, "camionetas cheias de guardas invadiram a zona e à bastonada mandavam as pessoas circular ", recorda Agostinho Lopes. O activista lembra que viu no comício "muitos conhecidos, amigos e também estranhos". As pessoas "abraçavam-se e cumprimentavam-se, mas a guarda mandava-as seguir. Não queriam ver grupos nem ninguém parado".
Deveriam ser 13h00. Foi nessa altura que Agostinho Lopes viu pela primeira e única vez "O General sem medo". Uma imagem que guarda até hoje.
O lavrador abastado acreditou "na possibilidade de num novo país" e ainda tem gravada na memória a atitude de "repressão" dos homens ligados ao regime. Ficou "magoado" porque se sentiu um estrangeiro na cidade "onde nasceu e onde foi batizado. Parecia que estava num país ocupado pelo inimigo".
Censura impediu jornais de relatar carga policial na Póvoa
Manuel Lopes, bibliotecário na Póvoa de Varzim recorda que os jornais da época, como o Comércio da Póvoa, "nem sequer falaram destes incidentes". A censura não autorizou que fosse relatada a carga policial sobre a multidão, que, naquela sexta-feira 16 de Março de 1958, aplaudia o candidato da Oposição na Póvoa de Varzim.
Manuel Lopes tinha 15 anos quando Humberto Delgado visitou aquela terra. Lembra-se muito bem que houve "provocações e pancada" e que Humberto Delgado foi quase impedido de chegar ao monumento dos heróis da Grande Guerra, onde depositou uma coroa de flores.
Mas não funcionava apenas a censura que impedia os jornais de noticiar "a verdade". O regime encarregou-se de viciar o acto eleitoral. Nessa altura, os cadernos eleitorais continham apenas os nomes dos eleitores que interessavam, ou seja, apoiantes do regime de Salazar.
Nestas eleições, já o poveiro Agostinho Ferreira Lopes morava em Guidões, na Trofa. Conta que, depois de insistir com o presidente da Câmara de Santo Tirso, conseguiu autorização para "copiar os nomes dos eleitores". Quando, finalmente, lhe foi dada essa possibilidade, desistiu porque "era impossível estar a copiar milhares de pessoas em tão pouco tempo".
Em Guidões, Humberto Delgado perdeu por dois votos.
" Houve um casal que votou, mas nem sequer estava inscrito aqui", garante. À noite, havia gente que ia a casa de Agostinho Lopes buscar boletins de voto. "As pessoas tinham medo porque os homens do regime fiscalizavam tudo".
Casas engalanaram-se para saudar o general
As casas estavam engalanadas, com colchas penduradas nas varandas. No meio da confusão, Humberto Delgado tenta aproximar-se do monumento aos soldados portugueses caídos em combate. "Estava muita gente estranha no local e tentaram baralhar tudo. O general lá pediu licença e as pessoas começaram a abrir alas para ele passar", recorda Agostinho Ferreira Lopes.
No meio da confusão, uma peixeira grita "Viva o General". De imediato foi "agredida e mandada calar" por agentes da polícia política. O candidato da Oposição conseguiu depositar a coroa de flores, "contrariando a vontade dos funcionários da câmara municipal e dos agentes da PIDE".
Seguiram-se pequenas zaragatas armadas pelos guardas e o general partiu com a comitiva em direcção à Avenida dos Banhos.
Hoje, Agostinho Ferreira Lopes olha para o passado com alguma nostalgia e está convicto que "se as eleições não tivessem sido forjadas, o sr. general tinha ganho por mais de sessenta por cento dos votos".
No dia seguinte, O "COMÉRCIO PÓVOA" noticiou que "visitou a Póvoa na manhã de sexta-feira passada, o sr. General Humberto Delgado, candidato à presidência da República". "O ilustre oficial-general do nosso exército era aguardado em Vilar do Pinheiro por um elevado número de republicanos desta vila, e ao chegar à nossa terra depôs um ramo de cravos vermelhos na base do monumento aos Mortos da Guerra, tendo sido saudado por muito povo que se encontrava nas imediações e que após a sua chegada se aproximou do monumento.
Depois do sr. General Humberto Delgado se ter perfilado em continência, em homenagem aos mortos da Pátria, toda aquela gente cantou "A Portuguesa" com entusiasmo e vibração, vitoriando consecutivamente o seu nome. Terminada a cerimónia, o ilustre candidato à Presidência da República, tomou lugar no automóvel que o conduzia e, descendo a Avenida Mousinho, foi até à zona de desportos do norte da praia, voltando depois para regressar ao Porto".
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O GENERAL SEM MEDO
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Passagem do candidato à Presidência da República pela
Póvoa de Varzim ficou marcada por violenta carga policial
MÁRCIA VARA
Quiseram calar-nos!" é o mote para um colóquio que se realizará na biblioteca municipal da Póvoa de Varzim, dia 15 deste mês, com o propósito de antecipar as comemorações do centenário do nascimento de Humberto Delgado, "O general sem medo". No debate estarão presentes a filha do general e presidente da Fundação com o nome do pai, Iva Delgado, José Carlos Vasconcelos, jornalista e escritor, Manuel Loff, professor da Faculdade de Letras do Porto, alguns activistas da "campanha da Oposição" e outras pessoas que, directa ou indirectamente, estão ligadas a este período da História de Portugal.
Humberto Delgado passou pela Póvoa de Varzim em campanha eleitoral para as "Presidenciais" de 1958.
O dia ficou marcado por uma carga policial sobre a multidão que aplaudia o candidato oposicionista.
O COMÉRCIO descobriu alguns activistas do "reviralho" que assistiram (e aplaudiram) à passagem do general por terras poveiras. Todos são unânimes em considerar o candidato da Oposição como um homem de "coragem" e muito "audacioso".
O general chega à Póvoa de Varzim no dia 16 de Março, um dia depois do megacomício do Porto. A cidade estava "em alvoroço", pelo menos em espírito, já que "a força do regime sentia-se em toda a parte", recorda Agostinho Ferreira Lopes, lavrador que nascera de famílias abastadas da Póvoa, "sem pretensão de nobreza e sem qualquer traço de fidalguia", como o próprio se define. Com a morte do pai, e sem irmãos por perto, ficou encarregado de tomar conta das propriedades que tinham em Guidões, na Trofa, e onde se inclui uma casa que "está na família desde 1638". Agostinho Lopes foi um activista e partilhava os ideais de Humberto Delgado. Fazia campanha na região. Todas as sextas-feiras, recorda, costumava ir à Póvoa de Varzim. No dia 16 de Março, que ficou na memória das gentes locais, passou por Vila do Conde.
Estava no café Nacional, com um dos seus nove filhos "à espera do sr. general", como ao longo de toda a entrevista faz questão de lhe chamar. A comitiva de Humberto Delgado veio do Porto, pela Estrada Nacional 13. Em Azurara, Vila do Conde, foi interceptada por agentes da Guarda Nacional que "conseguiram partir o cortejo e mandarem dispersar os carros". "Uns foram obrigados a seguir para a estrada da Trofa e outros para o Porto", lembra-se o lavrador poveiro.
O general acabou por chegar à Praça Marquês de Pombal, na Póvoa de Varzim, mas "ia muito mais só".
Foi nesse local, situado mesmo no coração da cidade, que o candidato a Presidente da República depositou uma coroa de flores no monumento dos heróis da Grande Guerra. "Muitas pessoas esperavam-no e a praça estava repleta de gente", recordou o lavrador.
Guarda obriga a dispersar
Uma comissão de recepção tentava fazer "as honras da casa", enquanto, "camionetas cheias de guardas invadiram a zona e à bastonada mandavam as pessoas circular ", recorda Agostinho Lopes. O activista lembra que viu no comício "muitos conhecidos, amigos e também estranhos". As pessoas "abraçavam-se e cumprimentavam-se, mas a guarda mandava-as seguir. Não queriam ver grupos nem ninguém parado".
Deveriam ser 13h00. Foi nessa altura que Agostinho Lopes viu pela primeira e única vez "O General sem medo". Uma imagem que guarda até hoje.
O lavrador abastado acreditou "na possibilidade de num novo país" e ainda tem gravada na memória a atitude de "repressão" dos homens ligados ao regime. Ficou "magoado" porque se sentiu um estrangeiro na cidade "onde nasceu e onde foi batizado. Parecia que estava num país ocupado pelo inimigo".
Censura impediu jornais de relatar carga policial na Póvoa
Manuel Lopes, bibliotecário na Póvoa de Varzim recorda que os jornais da época, como o Comércio da Póvoa, "nem sequer falaram destes incidentes". A censura não autorizou que fosse relatada a carga policial sobre a multidão, que, naquela sexta-feira 16 de Março de 1958, aplaudia o candidato da Oposição na Póvoa de Varzim.
Manuel Lopes tinha 15 anos quando Humberto Delgado visitou aquela terra. Lembra-se muito bem que houve "provocações e pancada" e que Humberto Delgado foi quase impedido de chegar ao monumento dos heróis da Grande Guerra, onde depositou uma coroa de flores.
Mas não funcionava apenas a censura que impedia os jornais de noticiar "a verdade". O regime encarregou-se de viciar o acto eleitoral. Nessa altura, os cadernos eleitorais continham apenas os nomes dos eleitores que interessavam, ou seja, apoiantes do regime de Salazar.
Nestas eleições, já o poveiro Agostinho Ferreira Lopes morava em Guidões, na Trofa. Conta que, depois de insistir com o presidente da Câmara de Santo Tirso, conseguiu autorização para "copiar os nomes dos eleitores". Quando, finalmente, lhe foi dada essa possibilidade, desistiu porque "era impossível estar a copiar milhares de pessoas em tão pouco tempo".
Em Guidões, Humberto Delgado perdeu por dois votos.
" Houve um casal que votou, mas nem sequer estava inscrito aqui", garante. À noite, havia gente que ia a casa de Agostinho Lopes buscar boletins de voto. "As pessoas tinham medo porque os homens do regime fiscalizavam tudo".
Casas engalanaram-se para saudar o general
As casas estavam engalanadas, com colchas penduradas nas varandas. No meio da confusão, Humberto Delgado tenta aproximar-se do monumento aos soldados portugueses caídos em combate. "Estava muita gente estranha no local e tentaram baralhar tudo. O general lá pediu licença e as pessoas começaram a abrir alas para ele passar", recorda Agostinho Ferreira Lopes.
No meio da confusão, uma peixeira grita "Viva o General". De imediato foi "agredida e mandada calar" por agentes da polícia política. O candidato da Oposição conseguiu depositar a coroa de flores, "contrariando a vontade dos funcionários da câmara municipal e dos agentes da PIDE".
Seguiram-se pequenas zaragatas armadas pelos guardas e o general partiu com a comitiva em direcção à Avenida dos Banhos.
Hoje, Agostinho Ferreira Lopes olha para o passado com alguma nostalgia e está convicto que "se as eleições não tivessem sido forjadas, o sr. general tinha ganho por mais de sessenta por cento dos votos".
No dia seguinte, O "COMÉRCIO PÓVOA" noticiou que "visitou a Póvoa na manhã de sexta-feira passada, o sr. General Humberto Delgado, candidato à presidência da República". "O ilustre oficial-general do nosso exército era aguardado em Vilar do Pinheiro por um elevado número de republicanos desta vila, e ao chegar à nossa terra depôs um ramo de cravos vermelhos na base do monumento aos Mortos da Guerra, tendo sido saudado por muito povo que se encontrava nas imediações e que após a sua chegada se aproximou do monumento.
Depois do sr. General Humberto Delgado se ter perfilado em continência, em homenagem aos mortos da Pátria, toda aquela gente cantou "A Portuguesa" com entusiasmo e vibração, vitoriando consecutivamente o seu nome. Terminada a cerimónia, o ilustre candidato à Presidência da República, tomou lugar no automóvel que o conduzia e, descendo a Avenida Mousinho, foi até à zona de desportos do norte da praia, voltando depois para regressar ao Porto".
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