Eis um texto imperdível para compreender a fundo a questão dos docentes com este tipo monstruoso de avaliação monstruosa e incomportável,o lado indesculpável, o lado criminoso, o lado inconfessado, o lado abjectopara percebermos melhor o progresso da desobediência à Ministraque se transformou a si mesma num absoluto de Lei intolerável[Triste é ver Marçal Grilo a dar o benefício da dúvida a quem tão mal se comporta,no seu gabinete de irredutibilidade anarca, contra gente de carne e osso]:lkj[Esta é seguramente uma das melhores sínteses do caos que se instalou no sistema educativo em Portugal. Da autoria de Aires Almeida, professor titular de Filosofia da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, de Portimão (que até nem participou nas duas últimas grandes manifestações de docentes), pode ser lida na íntegra aqui. khh Há, em todo o caso, excertos que merecem bem o destaque. Por exemplo, o parágrafo sobre a sua actual ocupação do tempo: «Perguntar-se-á: o que ando então a fazer o tempo todo para deixar de preparar as minhas aulas como deve ser? A resposta poderia ser dada até pelo meu filho, apesar de ainda ser criança: além das aulas, passo os dias em reuniões intermináveis para entender o sentido do terrorismo legislativo com que se tolhem e intimidam os professores. Na verdade são muito mais as horas que tenho gasto a reunir por causa da avaliação do que com aulas. E o pior ainda nem sequer chegou. Como avaliador de oito colegas, terei de inventar mais 36 horas para assistir a aulas suas, além das reuniões preparatórias que tenho de fazer com cada um deles e dos quilos de papelada para preencher. De resto, na minha escola os professores irão passar o ano a assistir às aulas uns dos outros, pois somos 165 professores, o que dá cerca de 500 aulas assistidas por ano. Além disso, terei de preparar tudo para o meu avaliador – um colega de Economia que não tem culpa de nada e que fará certamente o seu melhor – poder assistir às minhas aulas de Filosofia».lkj Será este, então, o modelo ideal para que os resultados dos alunos melhorem, como anuncia a professora que, por estes dias, ocupa o cargo de ministra? Nem por sombras. Acompanhe‑se o raciocínio: «Que o novo modelo de avaliação é inútil e ineficaz já o provou definitivamente, sem o querer, a senhora ministra. Diz ela repetidamente que esta avaliação é absolutamente necessária para a qualidade do ensino e para a melhoria dos resultados. Porém, anunciou com grande pompa ao país que os resultados melhoraram no último ano, o que acabou por ser reforçado com a divulgação dos resultados dos exames nacionais. Só que esta apregoada melhoria da qualidade e dos resultados verificou-se ainda antes de o modelo de avaliação produzir qualquer efeito. Logo, fica provado que a avaliação não é uma condição necessária para a melhoria da qualidade e dos resultados».lkj Aquilo com que as escolas se confrontam actualmente parece mais da ordem de um sistema totalitário, em que a vontade de controlar tudo e todos se dissemina por uma imensa parafernália de documentos legislativos, capaz de fazer corar de vergonha os membros do tribunal de Der Proceß: «Os responsáveis pelo actual ministério da educação parecem, talvez inconscientemente, querer pôr em prática o cenário tenebroso descrito por George Orwell em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, em que a catadupa de despachos, decretos regulamentares, documentos orientadores, ordens de serviço, instruções superiores, recomendações, etc., frequentemente incoerentes – vale a pena dizer que acumulo em casa mais de mil fotocópias sobre avaliação, que me foram entregues na escola –, são a tradução quase literal do ‘Big Brother is watching you’ da 5 de Outubro. A obsessão do ministério por controlar tudo e todos até ao mais pequeno detalhe está bem patente no modelo de fichas de avaliação que impõe às escolas e aos professores (parece que a ideia é a de que, entre tanta coisa pedagogicamente inane, sempre há-de haver uns quantos aspectos em que o avaliado vai falhar, de modo a não atrapalhar as escassas cotas disponíveis para progressão na carreira). E o mais irónico é que, quando se encontram incoerências e impasses nas instruções oriundas do ministério, a ministra deixa o problema para as próprias escolas com o argumento de que lhes quer dar autonomia na construção dos seus instrumentos de avaliação. Não é, pois, surpreendente que os professores se sintam desorientados, cansados, chantageados e até insultados. Isso acaba naturalmente por se reflectir na sua prática lectiva e os alunos notam bem a diferença quando o professor dá as aulas cansado».lkjEm consequência, Aires Almeida recorre a John Rawls, citado em epígrafe, para defender a única atitude civicamente correcta neste momento cuja gravidade convém não escamotear: «Por isso é arrepiante ver a senhora ministra insistir – contra tudo e contra todos os que, em Portugal, já alguma vez revelaram interesse pelas questões da educação – numa teimosia própria de mentes obstinadas e dogmáticas. E é também por isso um imperativo de justiça desobedecer a esta lei arbitrária e injusta, sobre uma questão de tão grande importância. Chama-se a isto desobediência civil e foi isso que fizeram em diferentes circunstâncias Gandhi, Luther King, Bertrand Russell e muitas das referências cívicas e culturais do nosso mundo. É ilegítimo não cumprir a lei, diz a senhora ministra sem se aperceber que está a ser redundante. Pois é, é ilegítimo não obedecer à senhora ministra, pois foi ela que fez a lei. Mas terá mesmo de ser».]lkj João Paulo Sousa [citando Aires Almeida], Da Literatura
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Eis um texto imperdível para compreender a fundo a questão dos docentes com este tipo monstruoso de avaliação monstruosa e incomportável,o lado indesculpável, o lado criminoso, o lado inconfessado, o lado abjectopara percebermos melhor o progresso da desobediência à Ministraque se transformou a si mesma num absoluto de Lei intolerável[Triste é ver Marçal Grilo a dar o benefício da dúvida a quem tão mal se comporta,no seu gabinete de irredutibilidade anarca, contra gente de carne e osso]:lkj[Esta é seguramente uma das melhores sínteses do caos que se instalou no sistema educativo em Portugal. Da autoria de Aires Almeida, professor titular de Filosofia da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, de Portimão (que até nem participou nas duas últimas grandes manifestações de docentes), pode ser lida na íntegra aqui. khh Há, em todo o caso, excertos que merecem bem o destaque. Por exemplo, o parágrafo sobre a sua actual ocupação do tempo: «Perguntar-se-á: o que ando então a fazer o tempo todo para deixar de preparar as minhas aulas como deve ser? A resposta poderia ser dada até pelo meu filho, apesar de ainda ser criança: além das aulas, passo os dias em reuniões intermináveis para entender o sentido do terrorismo legislativo com que se tolhem e intimidam os professores. Na verdade são muito mais as horas que tenho gasto a reunir por causa da avaliação do que com aulas. E o pior ainda nem sequer chegou. Como avaliador de oito colegas, terei de inventar mais 36 horas para assistir a aulas suas, além das reuniões preparatórias que tenho de fazer com cada um deles e dos quilos de papelada para preencher. De resto, na minha escola os professores irão passar o ano a assistir às aulas uns dos outros, pois somos 165 professores, o que dá cerca de 500 aulas assistidas por ano. Além disso, terei de preparar tudo para o meu avaliador – um colega de Economia que não tem culpa de nada e que fará certamente o seu melhor – poder assistir às minhas aulas de Filosofia».lkj Será este, então, o modelo ideal para que os resultados dos alunos melhorem, como anuncia a professora que, por estes dias, ocupa o cargo de ministra? Nem por sombras. Acompanhe‑se o raciocínio: «Que o novo modelo de avaliação é inútil e ineficaz já o provou definitivamente, sem o querer, a senhora ministra. Diz ela repetidamente que esta avaliação é absolutamente necessária para a qualidade do ensino e para a melhoria dos resultados. Porém, anunciou com grande pompa ao país que os resultados melhoraram no último ano, o que acabou por ser reforçado com a divulgação dos resultados dos exames nacionais. Só que esta apregoada melhoria da qualidade e dos resultados verificou-se ainda antes de o modelo de avaliação produzir qualquer efeito. Logo, fica provado que a avaliação não é uma condição necessária para a melhoria da qualidade e dos resultados».lkj Aquilo com que as escolas se confrontam actualmente parece mais da ordem de um sistema totalitário, em que a vontade de controlar tudo e todos se dissemina por uma imensa parafernália de documentos legislativos, capaz de fazer corar de vergonha os membros do tribunal de Der Proceß: «Os responsáveis pelo actual ministério da educação parecem, talvez inconscientemente, querer pôr em prática o cenário tenebroso descrito por George Orwell em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, em que a catadupa de despachos, decretos regulamentares, documentos orientadores, ordens de serviço, instruções superiores, recomendações, etc., frequentemente incoerentes – vale a pena dizer que acumulo em casa mais de mil fotocópias sobre avaliação, que me foram entregues na escola –, são a tradução quase literal do ‘Big Brother is watching you’ da 5 de Outubro. A obsessão do ministério por controlar tudo e todos até ao mais pequeno detalhe está bem patente no modelo de fichas de avaliação que impõe às escolas e aos professores (parece que a ideia é a de que, entre tanta coisa pedagogicamente inane, sempre há-de haver uns quantos aspectos em que o avaliado vai falhar, de modo a não atrapalhar as escassas cotas disponíveis para progressão na carreira). E o mais irónico é que, quando se encontram incoerências e impasses nas instruções oriundas do ministério, a ministra deixa o problema para as próprias escolas com o argumento de que lhes quer dar autonomia na construção dos seus instrumentos de avaliação. Não é, pois, surpreendente que os professores se sintam desorientados, cansados, chantageados e até insultados. Isso acaba naturalmente por se reflectir na sua prática lectiva e os alunos notam bem a diferença quando o professor dá as aulas cansado».lkjEm consequência, Aires Almeida recorre a John Rawls, citado em epígrafe, para defender a única atitude civicamente correcta neste momento cuja gravidade convém não escamotear: «Por isso é arrepiante ver a senhora ministra insistir – contra tudo e contra todos os que, em Portugal, já alguma vez revelaram interesse pelas questões da educação – numa teimosia própria de mentes obstinadas e dogmáticas. E é também por isso um imperativo de justiça desobedecer a esta lei arbitrária e injusta, sobre uma questão de tão grande importância. Chama-se a isto desobediência civil e foi isso que fizeram em diferentes circunstâncias Gandhi, Luther King, Bertrand Russell e muitas das referências cívicas e culturais do nosso mundo. É ilegítimo não cumprir a lei, diz a senhora ministra sem se aperceber que está a ser redundante. Pois é, é ilegítimo não obedecer à senhora ministra, pois foi ela que fez a lei. Mas terá mesmo de ser».]lkj João Paulo Sousa [citando Aires Almeida], Da Literatura