As Minhas Leituras: PS: meio milhão de votos a menos

30-09-2009
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Não vou entrar aqui na discussão sobre quem ganhou e quem perdeu estas eleições. A meu ver, esta questão é como a do copo meio cheio e do copo meio vazio: digam os interessados o que disserem, têm sempre razão, e daqui resulta que tudo o que dizem é irrelevante.Um facto incontroverso é que o PS perdeu meio milhão de votos. Isto tanto pode ser compatível com a reivindicação duma vitória como com o reconhecimento duma derrota. Tudo depende das causas dessa evolução, que são o que nos poderá permitir prever se estamos perante um acidente de percurso ou perante uma tendência que se prolongará no futuro. E ainda é cedo para analisar essas causas.Como professor do ensino público, gostaria de poder dizer que os quinhentos mil votos a menos do PS se devem ao pogrom sobre as classes profissionais; mas os professores são só 150.000, menos de um terço dos votos que o PS perdeu; e as outras classes letradas, além de menos numerosas, foram menos hostilizadas.Como homem de esquerda, gostaria de poder afirmar que a descida se deveu ao Código do Trabalho que o PS traz acorrentado ao tornozelo como uma bola de ferro; mas lá está a subida do CDS, autor original desta lei, para me obrigar a encarar com cautela esta hipótese. O CDS, por seu lado, gostaria de atribuir a descida do PS à preocupação dos portugueses com a criminalidade, a segurança e a imigração. Esta explicação pode ser parcialmente verdadeira, mas explica menos de metade desta descida.O mais provável é que os três factores tenham contribuído, em maior ou menor proporção. O único factor que não contribuiu, quase de certeza, é aquele que o PS mais tem invocado: a defesa do bem público contra os interesses particulares. E isto por duas razões: está por provar que os interesses dos profissionais letrados conflituem com o bem público (pelo contrário, há razões para acreditar que têm largas zonas de intersecção com ele); e se há coisa de que o PS não se pode vangloriar é de ter combatido, em nome do bem público, os interesses privados da oligarquia financeira e do capitalismo rentista.Causas semelhantes costumam ter consequências semelhantes. Se o PS mantiver, na próxima legislatura, os ataques soezes à sociedade civil (demonizada sob o epíteto de "corporações"); se continuar a tomar o partido do capitalismo corrupto contra os cidadãos em geral; e se não der uma resposta às preocupações legítimas do populismo de direita (contribuindo assim para desmascarar a agenda oculta, essa sim ilegítima, que este possa ter); se não der sinais claros de se querer demarcar do centrão dos interesses - a consequência será uma nova descida eleitoral. Talvez não tão acentuada como a que sofreu ontem, que pode ter aproximado o partido do seu núcleo irredutível; mas assim mesmo uma descida.


Não vou entrar aqui na discussão sobre quem ganhou e quem perdeu estas eleições. A meu ver, esta questão é como a do copo meio cheio e do copo meio vazio: digam os interessados o que disserem, têm sempre razão, e daqui resulta que tudo o que dizem é irrelevante.Um facto incontroverso é que o PS perdeu meio milhão de votos. Isto tanto pode ser compatível com a reivindicação duma vitória como com o reconhecimento duma derrota. Tudo depende das causas dessa evolução, que são o que nos poderá permitir prever se estamos perante um acidente de percurso ou perante uma tendência que se prolongará no futuro. E ainda é cedo para analisar essas causas.Como professor do ensino público, gostaria de poder dizer que os quinhentos mil votos a menos do PS se devem ao pogrom sobre as classes profissionais; mas os professores são só 150.000, menos de um terço dos votos que o PS perdeu; e as outras classes letradas, além de menos numerosas, foram menos hostilizadas.Como homem de esquerda, gostaria de poder afirmar que a descida se deveu ao Código do Trabalho que o PS traz acorrentado ao tornozelo como uma bola de ferro; mas lá está a subida do CDS, autor original desta lei, para me obrigar a encarar com cautela esta hipótese. O CDS, por seu lado, gostaria de atribuir a descida do PS à preocupação dos portugueses com a criminalidade, a segurança e a imigração. Esta explicação pode ser parcialmente verdadeira, mas explica menos de metade desta descida.O mais provável é que os três factores tenham contribuído, em maior ou menor proporção. O único factor que não contribuiu, quase de certeza, é aquele que o PS mais tem invocado: a defesa do bem público contra os interesses particulares. E isto por duas razões: está por provar que os interesses dos profissionais letrados conflituem com o bem público (pelo contrário, há razões para acreditar que têm largas zonas de intersecção com ele); e se há coisa de que o PS não se pode vangloriar é de ter combatido, em nome do bem público, os interesses privados da oligarquia financeira e do capitalismo rentista.Causas semelhantes costumam ter consequências semelhantes. Se o PS mantiver, na próxima legislatura, os ataques soezes à sociedade civil (demonizada sob o epíteto de "corporações"); se continuar a tomar o partido do capitalismo corrupto contra os cidadãos em geral; e se não der uma resposta às preocupações legítimas do populismo de direita (contribuindo assim para desmascarar a agenda oculta, essa sim ilegítima, que este possa ter); se não der sinais claros de se querer demarcar do centrão dos interesses - a consequência será uma nova descida eleitoral. Talvez não tão acentuada como a que sofreu ontem, que pode ter aproximado o partido do seu núcleo irredutível; mas assim mesmo uma descida.

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