A Monarquia sem óculos cor-de-rosa O nosso correligionário Faria e Silva é um romântico, um monárquico pelo coração, uma pessoa de convicções e de bem. Infelizmente o caminho da Monarquia não passa pelo romantismo. Tenho 61 anos, sou militante monárquico desde os 16, fui dirigente da Junta Escolar de Lisboa da Causa Monárquica assim como da Junta Distrital de Lisboa da mesma Causa, fui militante da Convergência Monárquica, fui dirigente do PPM, fui até membro do Congresso da Causa Real, encontro-me agora, de vez em quando, com um grupo de monárquicos no seio da Acção Monárquica Tradicionalista. Ao longo da vida conheci vários Príncipes, portugueses e estrangeiros. Ao longo destes anos todos foi-me frequentemente esfregado o nariz na realidade, nem sempre bem cheirosa, da política monárquica. Tive ampla oportunidade de me aperceber não só da força como das fragilidades da solução monárquica. Foi aí que aprendi que se não pode viver de ilusões. Para voltarmos a ter a Monarquia em Portugal é preciso:1º - Sabermos estruturar uma solução sistémica à volta do conceito monárquico. "A Monarquia" é coisa que não existe. A Monarquia é um esqueleto que só vale em função da carne e dos músculos que rodearem esse esqueleto. Uma Monarquia que funcionasse como esta República, apenas com um Chefe de Estado hereditário, seria tão má - ou pior - do que ela.2º - Definirmos um projecto nacional capaz de preservar a nossa identidade, a nossa liberdade, o nosso bem-estar, a nossa soberania. Uma Monarquia que aceitasse a dissolução de Portugal na União Europeia, e por conseguinte na Espanha, seria tão criminosa como a República que tal fizesse.3º - Propor aos portugueses um Rei que lhes mereça o respeito e a fidelidade. Um mau Rei, um Rei sem as qualidades morais e intelectuais para exercer com dignidade e eficácia a sua função régia, não só nunca será aceite pelos portugueses como, se o fosse, seria tão mau chefe de estado como o pior dos Presidentes da República. O Rei não é um ícone, é um funcionário. Ou seja, é alguém com uma função a desempenhar e que será julgado em função da forma como o fizer. D. João VI foi um péssimo Rei, e não foi por culpa própria, mas sim por culpa da sua total falta de qualidades. Não podemos correr o risco de sujeitar de novo Portugal a um tal desastre. Submetermos o ideal monárquico à "fatalidade" de falsas regras de sucessão, seria pior do que sacrificar o essencial ao acidental: seria sacrificar o essencial ao erro. Têm os monárquicos a obrigação de conhecer as regras de sucessão da nossa Monarquia para não fazerem propostas não só irrealistas como violadoras das regras da Monarquia e dos privilégios dos portugueses.4º - Escorraçar do seu seio aqueles que apenas aspiram a efémeros penachos e títulos vazios, e que são incapazes de pensar a Monarquia como instrumento ao serviço do bem comum. É preciso substituir os ambiciosos, os vaidosos, os diletantes, por outros monárquicos - que os há - para quem o serviço da Monarquia seja em primeiro lugar o serviço de Portugal e dos portugueses, um sacrifício, uma missão que se cumpre sem olhar a benefícios pessoais. É preciso afastar os "súbditos", os "vassalos", os subservientes, e chamar a nós portugueses livres, capazes de combater pelo ideal de uma Pátria livre.Em determinado momento pode ser eficaz entrarmos na luta para a eleição de um Presidente da República, para salvar Portugal no imediato, enquanto não é possível estruturar alternativas. Os monárquicos, pela insensatez de alguns, têm vindo a matar aos poucos a Monarquia como alternativa. Muito trabalho terá de ser feito, antes de que a Monarquia possa ser de novo alternativa. E o país não pode ficar à espera. Temos de combater com as armas possíveis, e não com ilusões.Nuno Cardoso da Silva
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A Monarquia sem óculos cor-de-rosa O nosso correligionário Faria e Silva é um romântico, um monárquico pelo coração, uma pessoa de convicções e de bem. Infelizmente o caminho da Monarquia não passa pelo romantismo. Tenho 61 anos, sou militante monárquico desde os 16, fui dirigente da Junta Escolar de Lisboa da Causa Monárquica assim como da Junta Distrital de Lisboa da mesma Causa, fui militante da Convergência Monárquica, fui dirigente do PPM, fui até membro do Congresso da Causa Real, encontro-me agora, de vez em quando, com um grupo de monárquicos no seio da Acção Monárquica Tradicionalista. Ao longo da vida conheci vários Príncipes, portugueses e estrangeiros. Ao longo destes anos todos foi-me frequentemente esfregado o nariz na realidade, nem sempre bem cheirosa, da política monárquica. Tive ampla oportunidade de me aperceber não só da força como das fragilidades da solução monárquica. Foi aí que aprendi que se não pode viver de ilusões. Para voltarmos a ter a Monarquia em Portugal é preciso:1º - Sabermos estruturar uma solução sistémica à volta do conceito monárquico. "A Monarquia" é coisa que não existe. A Monarquia é um esqueleto que só vale em função da carne e dos músculos que rodearem esse esqueleto. Uma Monarquia que funcionasse como esta República, apenas com um Chefe de Estado hereditário, seria tão má - ou pior - do que ela.2º - Definirmos um projecto nacional capaz de preservar a nossa identidade, a nossa liberdade, o nosso bem-estar, a nossa soberania. Uma Monarquia que aceitasse a dissolução de Portugal na União Europeia, e por conseguinte na Espanha, seria tão criminosa como a República que tal fizesse.3º - Propor aos portugueses um Rei que lhes mereça o respeito e a fidelidade. Um mau Rei, um Rei sem as qualidades morais e intelectuais para exercer com dignidade e eficácia a sua função régia, não só nunca será aceite pelos portugueses como, se o fosse, seria tão mau chefe de estado como o pior dos Presidentes da República. O Rei não é um ícone, é um funcionário. Ou seja, é alguém com uma função a desempenhar e que será julgado em função da forma como o fizer. D. João VI foi um péssimo Rei, e não foi por culpa própria, mas sim por culpa da sua total falta de qualidades. Não podemos correr o risco de sujeitar de novo Portugal a um tal desastre. Submetermos o ideal monárquico à "fatalidade" de falsas regras de sucessão, seria pior do que sacrificar o essencial ao acidental: seria sacrificar o essencial ao erro. Têm os monárquicos a obrigação de conhecer as regras de sucessão da nossa Monarquia para não fazerem propostas não só irrealistas como violadoras das regras da Monarquia e dos privilégios dos portugueses.4º - Escorraçar do seu seio aqueles que apenas aspiram a efémeros penachos e títulos vazios, e que são incapazes de pensar a Monarquia como instrumento ao serviço do bem comum. É preciso substituir os ambiciosos, os vaidosos, os diletantes, por outros monárquicos - que os há - para quem o serviço da Monarquia seja em primeiro lugar o serviço de Portugal e dos portugueses, um sacrifício, uma missão que se cumpre sem olhar a benefícios pessoais. É preciso afastar os "súbditos", os "vassalos", os subservientes, e chamar a nós portugueses livres, capazes de combater pelo ideal de uma Pátria livre.Em determinado momento pode ser eficaz entrarmos na luta para a eleição de um Presidente da República, para salvar Portugal no imediato, enquanto não é possível estruturar alternativas. Os monárquicos, pela insensatez de alguns, têm vindo a matar aos poucos a Monarquia como alternativa. Muito trabalho terá de ser feito, antes de que a Monarquia possa ser de novo alternativa. E o país não pode ficar à espera. Temos de combater com as armas possíveis, e não com ilusões.Nuno Cardoso da Silva