Há uns anos, alguém me contou o seguinte: "estão a vender camisolas de Estaline na Festa do Avante". Com todo o respeito pelo contador da estória, recusei a veracidade da mesma. Como diria Eliot, era demasiada realidade. Mas, hoje, a realidade apresenta-se na capa do “Diário de Notícias”: PCP reabilita memória de Estaline.Confesso: senti uma certa dificuldade em encarar a realidade. Perdão: senti uma certa náusea. Mas deixemos de lado a náusea. Vamos lá tentar argumentar.1- Primeiro lugar: parabéns ao “DN”. Poderia ter remetido a coisa para as páginas interiores.2 - O PCP tem o direito de dizer o que quiser. Felizmente, é assim em regimes burgueses e capitalistas. As pessoas podem dizer as maiores barbaridades, pois sabem que não existem excursões "voluntárias"...3 - Esta reabilitação deve-se à consolidação do marxismo-leninismo no seio dos comunistas portugueses. O que é o marxismo-leninismo? Resposta: uma piada de mau gosto. Feita por quem? Por Estaline, claro. O "marxismo-leninismo" foi cunhado após a morte de Lenine. Constituiu a base de sustentação ideológica de Estaline.Por que razão é uma piada de mau gosto? Ora, tentou o impossível: juntar as análises proféticas de Marx (em versões para criança de 5 anos) com as doutrinas revolucionárias de Lenine. O marxismo e o leninismo são duas correntes incompatíveis. Não se podem juntar. O marxismo não pressupunha uma acção humana de vanguarda. As leis da história não precisam de agência humana. O socialismo já tinha lugar marcado no autocarro da história. Bastava esperar que o dito autocarro aparecesse na paragem marcada. Ou seja, o capitalismo geraria as contradições sem a ajuda de apressados revolucionários.Em termos de história da filosofia política, o marxismo-leninismo é uma aberração, uma doutrina demasiado pobre para merecer qualquer atenção.Problema? Devido às suas consequências históricas (milhões de mortos), o marxismo-leninismo deve ser analisado ao nível das histórias das ideias.Atenção: a história da filosofia política é diferente da história das ideias políticas; a primeira analisa a coerência interna das doutrinas; a segunda analisa a influência real das ideias junto dos homens de carne e osso. E, neste sentido, é fascinante observar que um partido operante num sistema democrático (não quer dizer que seja democrático) assenta numa invenção filosófica aberrante feita pelo maior salafrário da história recente.Brilhante. Aliás, um caso de estudo antropológico.4 - Como é evidente, o PCP segue à risca o dogma comunista: os crimes de Estaline não foram, de facto, crimes. Foram acasos ou etapas da construção da utopia. Afinal, um comunista não se engana. A história é que se enganou, meus caros. E a história há-de voltar aos eixos...5- Que fazer? Se algum editor está a ler este "post", faça um favor ao ambiente intelectual português: reedite o "Arquipélago do Gulag". Ler Soljenitsine seria um bom começo. É que ainda existem tipos que apelidam dissidentes de "traidor soljenitsista" Não, meus caros, não são seres espaciais. Vivem aqui, em Lisboa no ano de 2005.Mas, mais importante, seria bom que os comunistas portugueses fizessem uma excursão aos países do leste europeu. A Letónia seria um bom destino. Se o fizessem, descobririam, finalmente, a grande evidência do século XX: Estaline e Hitler são dois cacos do mesmo pote totalitário. Mas a isto voltaremos mais tarde.[Henrique Raposo]
Categorias
Entidades
Há uns anos, alguém me contou o seguinte: "estão a vender camisolas de Estaline na Festa do Avante". Com todo o respeito pelo contador da estória, recusei a veracidade da mesma. Como diria Eliot, era demasiada realidade. Mas, hoje, a realidade apresenta-se na capa do “Diário de Notícias”: PCP reabilita memória de Estaline.Confesso: senti uma certa dificuldade em encarar a realidade. Perdão: senti uma certa náusea. Mas deixemos de lado a náusea. Vamos lá tentar argumentar.1- Primeiro lugar: parabéns ao “DN”. Poderia ter remetido a coisa para as páginas interiores.2 - O PCP tem o direito de dizer o que quiser. Felizmente, é assim em regimes burgueses e capitalistas. As pessoas podem dizer as maiores barbaridades, pois sabem que não existem excursões "voluntárias"...3 - Esta reabilitação deve-se à consolidação do marxismo-leninismo no seio dos comunistas portugueses. O que é o marxismo-leninismo? Resposta: uma piada de mau gosto. Feita por quem? Por Estaline, claro. O "marxismo-leninismo" foi cunhado após a morte de Lenine. Constituiu a base de sustentação ideológica de Estaline.Por que razão é uma piada de mau gosto? Ora, tentou o impossível: juntar as análises proféticas de Marx (em versões para criança de 5 anos) com as doutrinas revolucionárias de Lenine. O marxismo e o leninismo são duas correntes incompatíveis. Não se podem juntar. O marxismo não pressupunha uma acção humana de vanguarda. As leis da história não precisam de agência humana. O socialismo já tinha lugar marcado no autocarro da história. Bastava esperar que o dito autocarro aparecesse na paragem marcada. Ou seja, o capitalismo geraria as contradições sem a ajuda de apressados revolucionários.Em termos de história da filosofia política, o marxismo-leninismo é uma aberração, uma doutrina demasiado pobre para merecer qualquer atenção.Problema? Devido às suas consequências históricas (milhões de mortos), o marxismo-leninismo deve ser analisado ao nível das histórias das ideias.Atenção: a história da filosofia política é diferente da história das ideias políticas; a primeira analisa a coerência interna das doutrinas; a segunda analisa a influência real das ideias junto dos homens de carne e osso. E, neste sentido, é fascinante observar que um partido operante num sistema democrático (não quer dizer que seja democrático) assenta numa invenção filosófica aberrante feita pelo maior salafrário da história recente.Brilhante. Aliás, um caso de estudo antropológico.4 - Como é evidente, o PCP segue à risca o dogma comunista: os crimes de Estaline não foram, de facto, crimes. Foram acasos ou etapas da construção da utopia. Afinal, um comunista não se engana. A história é que se enganou, meus caros. E a história há-de voltar aos eixos...5- Que fazer? Se algum editor está a ler este "post", faça um favor ao ambiente intelectual português: reedite o "Arquipélago do Gulag". Ler Soljenitsine seria um bom começo. É que ainda existem tipos que apelidam dissidentes de "traidor soljenitsista" Não, meus caros, não são seres espaciais. Vivem aqui, em Lisboa no ano de 2005.Mas, mais importante, seria bom que os comunistas portugueses fizessem uma excursão aos países do leste europeu. A Letónia seria um bom destino. Se o fizessem, descobririam, finalmente, a grande evidência do século XX: Estaline e Hitler são dois cacos do mesmo pote totalitário. Mas a isto voltaremos mais tarde.[Henrique Raposo]