O valor das ideias: A intolerância radical de Nuno Melo quanto à Turquia na UE

23-05-2009
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[imagem disponível no Fait Divers]Depois de Paulo Rangel se ter mostrado reticente sobre a entrada da Turquia na UE, refugiando-se em pró formas do tipo, "Vamos primeiro ver se dá com os Balcãs", em entrevista ao Público de hoje, o cabeça de lista do CDS PP mostra uma oposição clara a esse projecto.O único argumento concebível para um tal receio teria a ver com a eventual facilidade de infiltração de extremistas islâmicos. Mas sejamos sérios: o grupo que planeou e executou o 11/9 esteve na Alemanha tempo de sobra, sem que a Turquia fosse parte da UE; a segunda maior comunidade no Reino Unido ("a seguir aos britânicos", como diria o meu amigo Adnand Hamid, nos tempos que vivi em Oxford) é, de longe, a paquistanesa. E o Reino Unido nem sequer pratica uma política conivente com o Espaço Schengen. Contudo, os atentados em Londres ocorreram!A Espanha fica muito mais longe da Turquia do que de Marrocos. E o facto é que o 11 de Março de 2004 não foi um mero pesadelo....Quando se adicionam estes exemplos, torna-se difícil não ver a típica paranóia securitária da direita a dominar a agenda europeia de Nuno Melo. E alguns falariam mesmo em alguma xenofobia, mas prefiro nem ir por aí. O facto é que o combate ao terrorismo se faz ajudando Obama no Hindu Kush, e, sobretudo, melhorando as redes de inteligência europeias e a sua cooperação com outras agências mundiais. Se alguma coisa o 11/9 mostrou, foi que os "potenciais terroristas" estão sempre já dentro de portas quando damos pela ameaça. Não é construindo um muro à volta da Europa que evitamos novos ataques.Mas houve no pensamento de Nuno Melo, algo profundamente mais inquietante. Ele disse que o problema era a Europa ter uma matriz judaico-cristã. Ou seja, as difusas fronteiras da Europa que ninguém sabe bem onde ficam, são para Nuno Melo uma questão religiosa. Apesar de o falhado tratado constitucional europeu ter evitado essa identificação.Nestes casos, contudo, ninguém fala em fundamentalismo. Pelo contrário. Só que o extremismo de Nuno Melo vai ao ponto de colidir com o Vaticano. Porque, se enquanto teólogo Joseph Ratzinger, considerou cristã a matriz europeia, após assumir as vestes papais tem desenhado um discurso radicalmente oposto no que se refere à Turquia: defendendo explicitamente a sua entrada na UE.Chama-se a isto, em bom português, ser mais papista que o Papa.Obviamente que há uma outra questão. O velho problema dos Direitos Humanos, do respeito pela democracia, e por uma conjunto de regras sociais e políticas que dividem o próximo oriente da Europa Ocidental. Diz-se que eles estão longe, na Turquia, de uma arquitectura sócio institucional compatível com a cidadania europeia. Este argumento é de uma hipocrisia notável por diversos motivos:1) o objectivo declarado do construtor da adesão de Portugal à CEE, Mário Soares, passou precisamente por nos integrar o mais rapidamente possível num bloco onde fosse difícil pôr em causa por qualquer sublevação as instituições democráticas portuguesas. Com a Espanha passou-se o mesmo. Sendo a direita do anterior regime, que encontrou em parte guarida no CDS, um dos focos de receio de sublevação (basta lembrar o MDLP), é preciso algum descaramento para vir agora, numa atitude revanchista, hostilizar essa entrada turca. O argumento da modernização da sociedade e das instituições não é válido para a Turquia?2) A UE teve uma compreensível pressa na integração dos novos Estados do Leste europeu. Mais uma vez por critérios políticos, tentando solidificar raízes democráticas em países que as não tinham. O resultado económico foi um desastre, mas isso é outra história. O alargamento da UE foi antes de mais um projecto político. E nenhum desses países tinha mais tradições democráticas que a Turquia.3) O próprio euro, como já debati longamente neste blogue, tem raízes políticas e não económicas. A ideia original era criar pela partilha da moeda um reforço da unidade entre os povos europeus. Um critério político semelhante não pode ser aplicado à Turquia?É evidente que dos direitos das mulheres, à compatibilização da justiça penal, há um trabalho a fazer. Mas a tentativa de o obrigar negando o acesso à Turquia pode ter um efeito contraproducente, gerando uma efectiva sensação no mundo Árabe de que "os cruzados", na linguagem da Al Qaeda, são um inimigo a abater. E, adicionalmente, a tentativa de mudança cultural da Turquia pela via da negação do acesso à europa, tem alguns problemas de base: se é evidente que há coisas a mudar na sociedade turca, como as que listei acima, é importante reconhecer que um dos grandes fracassos da URSS e posteriormente do Ocidente no Afeganistão tem sido tentar abranger pelo poder de Cabul as tribos do sudesta: porque isso é não reconhecer que o conceito ocidental de Estado centralizado não cabe na realidade afegã, que nunca o conheceu, com excepção de um período ditatorial no final do séc. XIX.Quer isto dizer que a UE não pode ser drástica no que toca aos costumes turcos. Há pontos inegociáveis: direitos das mulheres, democracia funcional, ausência de pena de morte, etc. Mas integrar a Turquia é admitir a Europa como realidade multicolorida. Não é forçar a Turquia a ser a Aústria.E a mudança é sempre mais fácil quando há amizade entre as partes. A amizade UE Turquia só tem um caminho: o da adesão.Uma nota final de pragmatismo. Quando Obama apelou à adesão da Turquia, ele sabia que é o aliado mais sólido do ocidente naquela zona. E sabia que há canais energéticos vitais para a Europa que passam por lá. A Turquia é um poderoso elemento num momento em que a Ásia Central e o Irão precisam de ser vistos de perto. Para quem não perceber outra linguagem, a geopolítica e a geoeconomia mandam imperativamente que a UE dê esse sinal claro aos turcos.Quanto a Rangel, a experiência de integrar primeiro países com bolsas islâmicas significativas mas minoritárias, é uma afirmação no mínimo questionável quanto à tolerância e não securitarismo do PSD. A questão das fronteiras da Europa nunca foi resolvida politicamente. Um certo Donald Rumsfeldt disse nos anos 90 que a fronteira oriental do Afeganistão era o limite da Europa. Não é grande fonte, mas isso abrangia a Turquia.


[imagem disponível no Fait Divers]Depois de Paulo Rangel se ter mostrado reticente sobre a entrada da Turquia na UE, refugiando-se em pró formas do tipo, "Vamos primeiro ver se dá com os Balcãs", em entrevista ao Público de hoje, o cabeça de lista do CDS PP mostra uma oposição clara a esse projecto.O único argumento concebível para um tal receio teria a ver com a eventual facilidade de infiltração de extremistas islâmicos. Mas sejamos sérios: o grupo que planeou e executou o 11/9 esteve na Alemanha tempo de sobra, sem que a Turquia fosse parte da UE; a segunda maior comunidade no Reino Unido ("a seguir aos britânicos", como diria o meu amigo Adnand Hamid, nos tempos que vivi em Oxford) é, de longe, a paquistanesa. E o Reino Unido nem sequer pratica uma política conivente com o Espaço Schengen. Contudo, os atentados em Londres ocorreram!A Espanha fica muito mais longe da Turquia do que de Marrocos. E o facto é que o 11 de Março de 2004 não foi um mero pesadelo....Quando se adicionam estes exemplos, torna-se difícil não ver a típica paranóia securitária da direita a dominar a agenda europeia de Nuno Melo. E alguns falariam mesmo em alguma xenofobia, mas prefiro nem ir por aí. O facto é que o combate ao terrorismo se faz ajudando Obama no Hindu Kush, e, sobretudo, melhorando as redes de inteligência europeias e a sua cooperação com outras agências mundiais. Se alguma coisa o 11/9 mostrou, foi que os "potenciais terroristas" estão sempre já dentro de portas quando damos pela ameaça. Não é construindo um muro à volta da Europa que evitamos novos ataques.Mas houve no pensamento de Nuno Melo, algo profundamente mais inquietante. Ele disse que o problema era a Europa ter uma matriz judaico-cristã. Ou seja, as difusas fronteiras da Europa que ninguém sabe bem onde ficam, são para Nuno Melo uma questão religiosa. Apesar de o falhado tratado constitucional europeu ter evitado essa identificação.Nestes casos, contudo, ninguém fala em fundamentalismo. Pelo contrário. Só que o extremismo de Nuno Melo vai ao ponto de colidir com o Vaticano. Porque, se enquanto teólogo Joseph Ratzinger, considerou cristã a matriz europeia, após assumir as vestes papais tem desenhado um discurso radicalmente oposto no que se refere à Turquia: defendendo explicitamente a sua entrada na UE.Chama-se a isto, em bom português, ser mais papista que o Papa.Obviamente que há uma outra questão. O velho problema dos Direitos Humanos, do respeito pela democracia, e por uma conjunto de regras sociais e políticas que dividem o próximo oriente da Europa Ocidental. Diz-se que eles estão longe, na Turquia, de uma arquitectura sócio institucional compatível com a cidadania europeia. Este argumento é de uma hipocrisia notável por diversos motivos:1) o objectivo declarado do construtor da adesão de Portugal à CEE, Mário Soares, passou precisamente por nos integrar o mais rapidamente possível num bloco onde fosse difícil pôr em causa por qualquer sublevação as instituições democráticas portuguesas. Com a Espanha passou-se o mesmo. Sendo a direita do anterior regime, que encontrou em parte guarida no CDS, um dos focos de receio de sublevação (basta lembrar o MDLP), é preciso algum descaramento para vir agora, numa atitude revanchista, hostilizar essa entrada turca. O argumento da modernização da sociedade e das instituições não é válido para a Turquia?2) A UE teve uma compreensível pressa na integração dos novos Estados do Leste europeu. Mais uma vez por critérios políticos, tentando solidificar raízes democráticas em países que as não tinham. O resultado económico foi um desastre, mas isso é outra história. O alargamento da UE foi antes de mais um projecto político. E nenhum desses países tinha mais tradições democráticas que a Turquia.3) O próprio euro, como já debati longamente neste blogue, tem raízes políticas e não económicas. A ideia original era criar pela partilha da moeda um reforço da unidade entre os povos europeus. Um critério político semelhante não pode ser aplicado à Turquia?É evidente que dos direitos das mulheres, à compatibilização da justiça penal, há um trabalho a fazer. Mas a tentativa de o obrigar negando o acesso à Turquia pode ter um efeito contraproducente, gerando uma efectiva sensação no mundo Árabe de que "os cruzados", na linguagem da Al Qaeda, são um inimigo a abater. E, adicionalmente, a tentativa de mudança cultural da Turquia pela via da negação do acesso à europa, tem alguns problemas de base: se é evidente que há coisas a mudar na sociedade turca, como as que listei acima, é importante reconhecer que um dos grandes fracassos da URSS e posteriormente do Ocidente no Afeganistão tem sido tentar abranger pelo poder de Cabul as tribos do sudesta: porque isso é não reconhecer que o conceito ocidental de Estado centralizado não cabe na realidade afegã, que nunca o conheceu, com excepção de um período ditatorial no final do séc. XIX.Quer isto dizer que a UE não pode ser drástica no que toca aos costumes turcos. Há pontos inegociáveis: direitos das mulheres, democracia funcional, ausência de pena de morte, etc. Mas integrar a Turquia é admitir a Europa como realidade multicolorida. Não é forçar a Turquia a ser a Aústria.E a mudança é sempre mais fácil quando há amizade entre as partes. A amizade UE Turquia só tem um caminho: o da adesão.Uma nota final de pragmatismo. Quando Obama apelou à adesão da Turquia, ele sabia que é o aliado mais sólido do ocidente naquela zona. E sabia que há canais energéticos vitais para a Europa que passam por lá. A Turquia é um poderoso elemento num momento em que a Ásia Central e o Irão precisam de ser vistos de perto. Para quem não perceber outra linguagem, a geopolítica e a geoeconomia mandam imperativamente que a UE dê esse sinal claro aos turcos.Quanto a Rangel, a experiência de integrar primeiro países com bolsas islâmicas significativas mas minoritárias, é uma afirmação no mínimo questionável quanto à tolerância e não securitarismo do PSD. A questão das fronteiras da Europa nunca foi resolvida politicamente. Um certo Donald Rumsfeldt disse nos anos 90 que a fronteira oriental do Afeganistão era o limite da Europa. Não é grande fonte, mas isso abrangia a Turquia.

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