O valor das ideias: "Não é agradável trabalhar aos sábados mas é sempre melhor do que não ter o posto de trabalho!" diz direcção da AutoEuropa

23-05-2009
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A tese do Engº Belmiro, segundo a qual os trabalhadores da AutoEuropa não deveriam insistir em aumentos salariais, porque hoje em dia muita sorte tem quem tem emprego, acabou por não ser a mais surpreendente do dia. O próprio director geral da Auto Europa Andreas Henrichs o superou, com a estonteante declaração:"'Não é agradável [trabalhar aos sábados] mas é sempre melhor do que não ter o posto de trabalho!" Não, estimado leitor, é apenas impressão sua: o director geral da AutoEuropa assegura não estar desta forma a fazer pressão sobre os trabalhadores. Leia-se: chantagem. Aparentemente, para a Administração da AutoEuropa, o problema actual da fábrica passa por estar a usar apenas 43% da sua capacidade. Nesse sentido, o aumento da utilização da capacidade produtiva passaria por os operários passarem também a trabalhar ao Sábado. A Comissão de Trabalhadores pretende que esse trabalho adicional seja remunerado: uma parte em tempo e outra em dinheiro. E aqui surje o primeiro ponto de clivagem. Aparentemente, a AutoEuropa não está disposta em incorrer em custos financeiros com o trabalho aos Sábados. A minha primeira perplexidade surge aqui. Num momento de crise de procura, particularmente acentuada no sector automóvel, para que quer a AutoEuropa utilização adicional de capacidade? Produção de veículos para stock parece a resposta mais óbvia. Um automóvel não seria um bem perecível e seria de admitir que a empresa quisesse produzir e armazenar. Mas curiosamente não é o caso. Porque a AutoEuropa considera que os dias adicionais de férias (leia-se paragem na produção) que os trabalhadores terão este ano por falta de procura, compensam perfeitamente os sábados, sem necessidade de qualquer remuneração adicional.Ora vamo lá ver: a AutoEuropa não quer produzir tantos dias de semana no ano porque há uma quebra de procura. Mas considera necessário que se produza ao Sábado, compensando esses dias de férias adicionais. É de mim, ou as contas não batem certo? Há uma urgência em a produção ser realizada já?Os sindicatos pretendem que os Sábados sejam encarados como medida temporária mas a administração não se compromete com isso e fala numa das minhas palavras preferidas, "fexibilidade" para garantir que a empresa se pode manter activa até 2015. Henrichs diz que as medidas podem não resolver o problema deste ano, mas são fundamentais dos próximos. E entretanto faz-se saber que há duas fábricas do grupo VW que estão prontas a receber a produção da AE, ambas na Alemanha, e que alegadamente já operam ao Sábado. Segunda perplexidade. Forma de garantir a viabilidade até 2015? No segundo semestre deste ano já é sabido que apenas uma linha de montagem estará operacional. E portanto um número indeterminado de trabalhadores deixará de ter emprego. A todos é contudo pedido para já o trabalho ao Sábado, não remunerado. Pode parecer uma pergunta estúpida, mas se o trabalho fosse distribuído ao longo do ano, pelos 5 dias úteis, não haveria a possibilidade de evitar uma parcela desses despedimentos anunciados para o 2º semestre? André Macedo, no "i", considera ser tudo uma gigantesca cabala de trabalhadores e empresa para levar o Estado a conceder mais apoios à AutoEuropa. Admitamos que seja esse o caso. O erro nunca estaria no que Manuel Pinho terá de fazer agora para tentar assegurar a presença de uma fábrica que representa 10% das nossas exportações e entre 1 e 2% do PIB. Porque estão em causa 3200 postos trabalho directos e eventualmente 40000 em indústrias de componentes para automóveis. É evidente que qualquer governo com preocupações sociais tentará evitar a deslocalização da fábrica. Esse não é o erro, contrariamente ao que pretende André Macedo e alguns entusiastas do quanto pior, melhor. O erro é anterior. E vem desse modelo de desenvolvimento que tentou fazer crescer países à custa do capital estrangeiro criando paraísos para o IDE. Ao IDE tudo se concedeu: isenções fiscais, cedências de terrenos, subsídios, etc. Este é um erro que vem do inícios dos anos 90, e conheceu expoentes no leste Europeu e na Irlanda, mas também foi notório entre nós. Qual o problema do IDE? Nesta crise de crédito, tende a reverter o fluxo de capital para a origem. E ficam as Quimondas deste mundo. O afã neoliberal de lhes abrir as portas não se preocupou com a rapidez com que eles pode saír. E os chamamentos políticos nessa coisa a que chamam UE são tremendemente nacionalistas. Espero estar errado, mas com duas fábricas disponíveis na Alemanha, e com uma estranha intenção de trabalhar ao Sábado e despedir muita gente a partir do 2º semestre, alguma coisa me leva a pensar que a AE não está a agir de boa fé, preparando-se para a partir do 2º semestre saír progressivamente de Portugal. Não foi Manuel Pinho que a trouxe para cá. Não o culpem se existem todas as condições na UE para os países fazerem isto uns aos outros. O redesenho dessa União é o verdadeiro desafio. Infelizmente tardio para muito gente na AE. Não é sequer sério pretender que as pessoas tenham de passar a trabalhar num dos raros dias da semana que podiam estar com os filhos, como novo paradigma social do pós crise. Isso mereceria que os trabalhadores europeus se unissem numa contestação séria.


A tese do Engº Belmiro, segundo a qual os trabalhadores da AutoEuropa não deveriam insistir em aumentos salariais, porque hoje em dia muita sorte tem quem tem emprego, acabou por não ser a mais surpreendente do dia. O próprio director geral da Auto Europa Andreas Henrichs o superou, com a estonteante declaração:"'Não é agradável [trabalhar aos sábados] mas é sempre melhor do que não ter o posto de trabalho!" Não, estimado leitor, é apenas impressão sua: o director geral da AutoEuropa assegura não estar desta forma a fazer pressão sobre os trabalhadores. Leia-se: chantagem. Aparentemente, para a Administração da AutoEuropa, o problema actual da fábrica passa por estar a usar apenas 43% da sua capacidade. Nesse sentido, o aumento da utilização da capacidade produtiva passaria por os operários passarem também a trabalhar ao Sábado. A Comissão de Trabalhadores pretende que esse trabalho adicional seja remunerado: uma parte em tempo e outra em dinheiro. E aqui surje o primeiro ponto de clivagem. Aparentemente, a AutoEuropa não está disposta em incorrer em custos financeiros com o trabalho aos Sábados. A minha primeira perplexidade surge aqui. Num momento de crise de procura, particularmente acentuada no sector automóvel, para que quer a AutoEuropa utilização adicional de capacidade? Produção de veículos para stock parece a resposta mais óbvia. Um automóvel não seria um bem perecível e seria de admitir que a empresa quisesse produzir e armazenar. Mas curiosamente não é o caso. Porque a AutoEuropa considera que os dias adicionais de férias (leia-se paragem na produção) que os trabalhadores terão este ano por falta de procura, compensam perfeitamente os sábados, sem necessidade de qualquer remuneração adicional.Ora vamo lá ver: a AutoEuropa não quer produzir tantos dias de semana no ano porque há uma quebra de procura. Mas considera necessário que se produza ao Sábado, compensando esses dias de férias adicionais. É de mim, ou as contas não batem certo? Há uma urgência em a produção ser realizada já?Os sindicatos pretendem que os Sábados sejam encarados como medida temporária mas a administração não se compromete com isso e fala numa das minhas palavras preferidas, "fexibilidade" para garantir que a empresa se pode manter activa até 2015. Henrichs diz que as medidas podem não resolver o problema deste ano, mas são fundamentais dos próximos. E entretanto faz-se saber que há duas fábricas do grupo VW que estão prontas a receber a produção da AE, ambas na Alemanha, e que alegadamente já operam ao Sábado. Segunda perplexidade. Forma de garantir a viabilidade até 2015? No segundo semestre deste ano já é sabido que apenas uma linha de montagem estará operacional. E portanto um número indeterminado de trabalhadores deixará de ter emprego. A todos é contudo pedido para já o trabalho ao Sábado, não remunerado. Pode parecer uma pergunta estúpida, mas se o trabalho fosse distribuído ao longo do ano, pelos 5 dias úteis, não haveria a possibilidade de evitar uma parcela desses despedimentos anunciados para o 2º semestre? André Macedo, no "i", considera ser tudo uma gigantesca cabala de trabalhadores e empresa para levar o Estado a conceder mais apoios à AutoEuropa. Admitamos que seja esse o caso. O erro nunca estaria no que Manuel Pinho terá de fazer agora para tentar assegurar a presença de uma fábrica que representa 10% das nossas exportações e entre 1 e 2% do PIB. Porque estão em causa 3200 postos trabalho directos e eventualmente 40000 em indústrias de componentes para automóveis. É evidente que qualquer governo com preocupações sociais tentará evitar a deslocalização da fábrica. Esse não é o erro, contrariamente ao que pretende André Macedo e alguns entusiastas do quanto pior, melhor. O erro é anterior. E vem desse modelo de desenvolvimento que tentou fazer crescer países à custa do capital estrangeiro criando paraísos para o IDE. Ao IDE tudo se concedeu: isenções fiscais, cedências de terrenos, subsídios, etc. Este é um erro que vem do inícios dos anos 90, e conheceu expoentes no leste Europeu e na Irlanda, mas também foi notório entre nós. Qual o problema do IDE? Nesta crise de crédito, tende a reverter o fluxo de capital para a origem. E ficam as Quimondas deste mundo. O afã neoliberal de lhes abrir as portas não se preocupou com a rapidez com que eles pode saír. E os chamamentos políticos nessa coisa a que chamam UE são tremendemente nacionalistas. Espero estar errado, mas com duas fábricas disponíveis na Alemanha, e com uma estranha intenção de trabalhar ao Sábado e despedir muita gente a partir do 2º semestre, alguma coisa me leva a pensar que a AE não está a agir de boa fé, preparando-se para a partir do 2º semestre saír progressivamente de Portugal. Não foi Manuel Pinho que a trouxe para cá. Não o culpem se existem todas as condições na UE para os países fazerem isto uns aos outros. O redesenho dessa União é o verdadeiro desafio. Infelizmente tardio para muito gente na AE. Não é sequer sério pretender que as pessoas tenham de passar a trabalhar num dos raros dias da semana que podiam estar com os filhos, como novo paradigma social do pós crise. Isso mereceria que os trabalhadores europeus se unissem numa contestação séria.

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