NOSSA SENHORA DOS PRAZERES
A simplicidade e a humildade de uma festa religiosa
"Ó Senhora dos Prazeres, o meu coração está em brasa.
No dia 7 de Setembro chegamos a vossa casa"
Da Tradição Oral
Quarta-feira, 8 de Setembro, a tradição repetiu-se. Dezenas de pessoas de Castelo de Vide deslocaram-se em autocarro ou em automóveis próprios à Herdade das Fontaínhas, a cerca de 3 quilómetros de Vale de Açor, para, mais uma vez, darem cumprimento à Festa de Nossa Senhora dos Prazeres.
A tradição já não é o que era, é certo, mas a verdade é que continua a cumprir-se e ainda com muito sentimento.
As gentes de Castelo de Vide continuam a fazer o farnel e a passar um dia de convívio nesta herdade a pouca distância de Ponte de Sor.
Tudo começa alguns dias antes do 8 de Setembro. As mulheres dirigem-se à capela e limpam-na a preceito para que tudo esteja bonito no dia 8. O resultado fica à vista. A capela, simples, humilde mas muito bela fica pronta para receber os peregrinos.
No dia que antecede a festa, por volta do meio dia, a bandeira de Nossa Senhora dos Prazeres é colocada à janela do festeiro, em Castelo de Vide, que há mais de 34 anos é João Canário.
Nos tempos dos avós dos nossos avós, a bandeira era engalanada com tiras e colcha de damasco e quando colocada à janela era hábito lançar um foguete para anunciar o início da festa. Um acidente que ocorreu durante o lançamento de um foguete aquando da vinda de um governante a Castelo de Vide, e que vitimou mortalmente duas criança, levou as autoridades a proibirem o lançamento de foguetes em Castelo de Vide, assim sendo o lançamento do foguete deixou de ser feito.
Hoje a bandeira continua a ser colocada à janela da casa do festeiro para que as pessoas a possam engalanar com fitas de várias cores, as mesmas que após a celebração da missa são vendidas, e que revertem a favor da mordomia.
Na manhã do dia 8, a Herdade das Fontaínhas enche-se de gente, de gente de Castelo de Vide, vestido a rigor para festejar a Nossa Senhora dos Prazeres. Esta é pois uma das festas religiosas com maior simplicidade. As pessoas percorrem quase 70 quilómetros para agradecer à Senhora todo um ano de trabalho e de vida, numa demonstração de fé inegável e quase inigualável. Numa ermida situada no cimo de uma estrada de terra, cujas origens apontam para finais do século XV início do século XVI, as pessoas rezam com fervor, cumprindo uma tradição quase milenar.
Depois de celebrada a missa, Nossa Senhora dos Prazeres sai em procissão, com duas ou três voltas em redor do templo. À frente do cortejo religioso caminha o festeiro com a vara. A imagem de Nossa Senhora é conduzida num andor, seguida, em tempos, pela imagem do Sagrado Coração de Jesus. A Missa é concelebrada pelo padre de Castelo de Vide e pelo padre da Ponte de Sor.
Terminada a procissão, a Senhora volta para o altar e procede-se, quase de imediato, ao almoço. Cada família leva o tem mas sempre o suficiente para partilhar com mais três ou quatro bocas que apareçam à última da hora e desprevenidas.
Esta festa, muito pouco conhecida entre a maioria dos alentejanos, é sobretudo uma festa de fé, de convívio e de partilha, destacando-se a simplicidade e a humildade do acto, sem dúvida, digno de ver.
A lenda...
O Fonte Nova esteve à conversa com um dos festeiros mais antigos. João Alexandre contou-nos que "não há ninguém que se recorde do início desta festa. O que sabemos foi-nos dito pelos nossos avós". Acrescenta-nos, no entanto, que "antigamente havia um livro com carimbos dos vários lavradores que participavam na festa". Uma vez que não se sabia escrever, era esta uma forma de assinalar a sua presença.
Daquilo de que não há dúvidas é que se tratava, de facto, de uma festa de lavradores.
Isso mesmo nos diz a lenda que, como todas as lendas pode ter sempre alguma coisa de verdade.
Essa mesma lenda nos foi contada por João Alexandre, a mesma que sempre ouviu aos seus pais e avós.
"Tudo isto se terá passado há mais de quinhentos anos. A Nossa Senhora apareceu a um pastorinho negro que andava na pastorícia nesta herdade e disse-lhe para ir a Castelo de Vide, onde encontraria um grupo de lavradores reunidos junto à Pedra da Paciência, que se encontrava junto à Igreja Matriz e lhes dissesse que a Nossa Senhora lhes enviava a mensagem de que tinham que construir uma ermida na herdade das Fontaínhas, onde teriam que realizar uma festa todos os anos no dia 8 de Setembro. Os lavradores não acreditaram nem da primeira nem da segunda vez. À terceira a Senhora transformou o pastorinha num rapaz branco. Perante isto não foi necessário mais nada. A igreja foi construída e a festa realiza-se todos os anos no dia 8 de Setembro".
Das origens aos dias de hoje...
João Alexandre explicou-nos alguns dos hábitos de antigamente. Se hoje se deslocam de autocarro ou em carros próprios, antigamente faziam-no de bestas ou a pé, o que levava cerca de 3 dias para cada lado, o que no total dava uma semana completa.
"As pessoas dormiam em casas certas, de pessoas conhecidas mas traziam os seus próprios mantimentos, para si e para os animais".
Algum tempo depois, "começou-se a vir de comboio. No dia da partida iam, até à estação da CP de Castelo de Vide, três cavalos (no do meio vinha o festeiro com a bandeira e de cada lado um padrinho) à frente de um cortejo de carroças, de trens e charrettes. Apanhavam o comboio que os levavam até à estação de Torre das Vargens, onde os aguardavam carros com parelhas alugados pelas pessoas de Castelo de Vide (tal como hoje se aluga um taxi) que os transportavam até aqui à herdade. Tudo isto uns dias antes do dia 8. Então as pessoas dormiam por aqui, havia colchões por todo o lado e quando havia muita gente, até na igreja se faziam camas".
No final do dia 8 havia a reza do terço e o jantar e muitas vezes bailes, "houve alturas em que o padre proibiu a realização do baile junto à igreja, então arranjámos o terreno e fizemo-lo cerca de 50 metros mais abaixo" conta-nos ainda João Alexandre, pessoa que aliás participou pela primeira vez numa destas festas "ao colo da minha mãe".
Agora é tudo muito mais fácil. As pessoas deslocam-se de automóvel ou de autocarro e em regra permanecem lá apenas durante o dia 8 de Setembro.
A Igreja...
Numa lápide colocada numa das paredes laterais da igreja pode ler-se que a ermida já existiria no início de 1500.
Com o passar dos anos houve necessidade de se recorrer a algumas melhorias, nomeadamente à reconstrução das casas de alojamento e até mesmo da própria igreja, por volta da década de 50 do século passado e por iniciativa do padre J. de Freitas, com a ajuda e empenho de gente de boa vontade de Castelo de Vide.
A igreja localiza-se no alto da herdade das Fontaínhas, a cerca de 3 quilómetros de Vale de Açor, numa curva à esquerda para quem circula no sentido de Ponte de Sor.
Trata-se de um templo bonito mas sem grande ostentação. É uma igreja ampla mas simples, onde apenas se podem ver alguns símbolos como a Ordem Militar de Avis e em cada altar estão representadas as cruzes com os oito pontos cardeais.
A igreja situa-se numa herdade privada, a herdade das Fontaínhas, cuja propriedade pertence a uma família residente em Cabeção.
Manuela Lã Branca
In Jornal Fonte Nova
"Ó Senhora dos Prazeres, adeus até para o ano!
Dai saúde à mordomia e à família Transmontano"
NOSSA SENHORA DOS PRAZERES
A simplicidade e a humildade de uma festa religiosa
"Ó Senhora dos Prazeres, o meu coração está em brasa.
No dia 7 de Setembro chegamos a vossa casa"
Da Tradição Oral
Quarta-feira, 8 de Setembro, a tradição repetiu-se. Dezenas de pessoas de Castelo de Vide deslocaram-se em autocarro ou em automóveis próprios à Herdade das Fontaínhas, a cerca de 3 quilómetros de Vale de Açor, para, mais uma vez, darem cumprimento à Festa de Nossa Senhora dos Prazeres.
A tradição já não é o que era, é certo, mas a verdade é que continua a cumprir-se e ainda com muito sentimento.
As gentes de Castelo de Vide continuam a fazer o farnel e a passar um dia de convívio nesta herdade a pouca distância de Ponte de Sor.
Tudo começa alguns dias antes do 8 de Setembro. As mulheres dirigem-se à capela e limpam-na a preceito para que tudo esteja bonito no dia 8. O resultado fica à vista. A capela, simples, humilde mas muito bela fica pronta para receber os peregrinos.
No dia que antecede a festa, por volta do meio dia, a bandeira de Nossa Senhora dos Prazeres é colocada à janela do festeiro, em Castelo de Vide, que há mais de 34 anos é João Canário.
Nos tempos dos avós dos nossos avós, a bandeira era engalanada com tiras e colcha de damasco e quando colocada à janela era hábito lançar um foguete para anunciar o início da festa. Um acidente que ocorreu durante o lançamento de um foguete aquando da vinda de um governante a Castelo de Vide, e que vitimou mortalmente duas criança, levou as autoridades a proibirem o lançamento de foguetes em Castelo de Vide, assim sendo o lançamento do foguete deixou de ser feito.
Hoje a bandeira continua a ser colocada à janela da casa do festeiro para que as pessoas a possam engalanar com fitas de várias cores, as mesmas que após a celebração da missa são vendidas, e que revertem a favor da mordomia.
Na manhã do dia 8, a Herdade das Fontaínhas enche-se de gente, de gente de Castelo de Vide, vestido a rigor para festejar a Nossa Senhora dos Prazeres. Esta é pois uma das festas religiosas com maior simplicidade. As pessoas percorrem quase 70 quilómetros para agradecer à Senhora todo um ano de trabalho e de vida, numa demonstração de fé inegável e quase inigualável. Numa ermida situada no cimo de uma estrada de terra, cujas origens apontam para finais do século XV início do século XVI, as pessoas rezam com fervor, cumprindo uma tradição quase milenar.
Depois de celebrada a missa, Nossa Senhora dos Prazeres sai em procissão, com duas ou três voltas em redor do templo. À frente do cortejo religioso caminha o festeiro com a vara. A imagem de Nossa Senhora é conduzida num andor, seguida, em tempos, pela imagem do Sagrado Coração de Jesus. A Missa é concelebrada pelo padre de Castelo de Vide e pelo padre da Ponte de Sor.
Terminada a procissão, a Senhora volta para o altar e procede-se, quase de imediato, ao almoço. Cada família leva o tem mas sempre o suficiente para partilhar com mais três ou quatro bocas que apareçam à última da hora e desprevenidas.
Esta festa, muito pouco conhecida entre a maioria dos alentejanos, é sobretudo uma festa de fé, de convívio e de partilha, destacando-se a simplicidade e a humildade do acto, sem dúvida, digno de ver.
A lenda...
O Fonte Nova esteve à conversa com um dos festeiros mais antigos. João Alexandre contou-nos que "não há ninguém que se recorde do início desta festa. O que sabemos foi-nos dito pelos nossos avós". Acrescenta-nos, no entanto, que "antigamente havia um livro com carimbos dos vários lavradores que participavam na festa". Uma vez que não se sabia escrever, era esta uma forma de assinalar a sua presença.
Daquilo de que não há dúvidas é que se tratava, de facto, de uma festa de lavradores.
Isso mesmo nos diz a lenda que, como todas as lendas pode ter sempre alguma coisa de verdade.
Essa mesma lenda nos foi contada por João Alexandre, a mesma que sempre ouviu aos seus pais e avós.
"Tudo isto se terá passado há mais de quinhentos anos. A Nossa Senhora apareceu a um pastorinho negro que andava na pastorícia nesta herdade e disse-lhe para ir a Castelo de Vide, onde encontraria um grupo de lavradores reunidos junto à Pedra da Paciência, que se encontrava junto à Igreja Matriz e lhes dissesse que a Nossa Senhora lhes enviava a mensagem de que tinham que construir uma ermida na herdade das Fontaínhas, onde teriam que realizar uma festa todos os anos no dia 8 de Setembro. Os lavradores não acreditaram nem da primeira nem da segunda vez. À terceira a Senhora transformou o pastorinha num rapaz branco. Perante isto não foi necessário mais nada. A igreja foi construída e a festa realiza-se todos os anos no dia 8 de Setembro".
Das origens aos dias de hoje...
João Alexandre explicou-nos alguns dos hábitos de antigamente. Se hoje se deslocam de autocarro ou em carros próprios, antigamente faziam-no de bestas ou a pé, o que levava cerca de 3 dias para cada lado, o que no total dava uma semana completa.
"As pessoas dormiam em casas certas, de pessoas conhecidas mas traziam os seus próprios mantimentos, para si e para os animais".
Algum tempo depois, "começou-se a vir de comboio. No dia da partida iam, até à estação da CP de Castelo de Vide, três cavalos (no do meio vinha o festeiro com a bandeira e de cada lado um padrinho) à frente de um cortejo de carroças, de trens e charrettes. Apanhavam o comboio que os levavam até à estação de Torre das Vargens, onde os aguardavam carros com parelhas alugados pelas pessoas de Castelo de Vide (tal como hoje se aluga um taxi) que os transportavam até aqui à herdade. Tudo isto uns dias antes do dia 8. Então as pessoas dormiam por aqui, havia colchões por todo o lado e quando havia muita gente, até na igreja se faziam camas".
No final do dia 8 havia a reza do terço e o jantar e muitas vezes bailes, "houve alturas em que o padre proibiu a realização do baile junto à igreja, então arranjámos o terreno e fizemo-lo cerca de 50 metros mais abaixo" conta-nos ainda João Alexandre, pessoa que aliás participou pela primeira vez numa destas festas "ao colo da minha mãe".
Agora é tudo muito mais fácil. As pessoas deslocam-se de automóvel ou de autocarro e em regra permanecem lá apenas durante o dia 8 de Setembro.
A Igreja...
Numa lápide colocada numa das paredes laterais da igreja pode ler-se que a ermida já existiria no início de 1500.
Com o passar dos anos houve necessidade de se recorrer a algumas melhorias, nomeadamente à reconstrução das casas de alojamento e até mesmo da própria igreja, por volta da década de 50 do século passado e por iniciativa do padre J. de Freitas, com a ajuda e empenho de gente de boa vontade de Castelo de Vide.
A igreja localiza-se no alto da herdade das Fontaínhas, a cerca de 3 quilómetros de Vale de Açor, numa curva à esquerda para quem circula no sentido de Ponte de Sor.
Trata-se de um templo bonito mas sem grande ostentação. É uma igreja ampla mas simples, onde apenas se podem ver alguns símbolos como a Ordem Militar de Avis e em cada altar estão representadas as cruzes com os oito pontos cardeais.
A igreja situa-se numa herdade privada, a herdade das Fontaínhas, cuja propriedade pertence a uma família residente em Cabeção.
Manuela Lã Branca
In Jornal Fonte Nova
"Ó Senhora dos Prazeres, adeus até para o ano!
Dai saúde à mordomia e à família Transmontano"