Na sua crónica no Público, Vasco Pulido Valente, escrevendo sobre Saramago, destila superficialidade, e estou a ser bonzinho, por todas as entrelinhas. Duvido que alguma vez tenha lido O Ano da Morte de Ricardo Reis ou Ensaio Sobre a Cegueira.Diz VPV que Saramago viveu do “escândalo e da polémica”. Mas a sua fama como escritor não provém daí. Tem VPV em muito fraca conta os leitores de José Saramago dispersos um pouco por todo o mundo. E estes leitores, note-se, não são os leitores do Paulo Coelho.O que é evidente é que VPV não gostava da pessoa que era Saramago. Mas uma coisa é não gostar do criador outra não gostar da obra. Quase ninguém, por exemplo, estima Céline como homem, pois era um anti-semita com a cabeça cheia de ideias de merda. Contudo, felizmente, a Viagem ao Fim da Noite prova a distância enorme que existe entre o autor e as suas criações (mas, claro, a obra de um artista não pode desculpar os erros da sua vida, mas esses pertencem a outro departamento).VPV diz algumas coisas acertadas (sobre a importância dos prémios e do Nobel), mas, pecado capital, não se deve julgar uma obra partindo da biografia do autor (e, já agora, de um conhecimento rudimentar dos seus textos). O que se escreve excede sempre a vida vivida pelo criador, se ele é mesmo um criador (existe como que uma astúcia do acto de escrever - uma espécie de List der Vernunft? - que leva a mão para além da criatura que a faz mover).Fica-se com a impressão que VPV chamaria a Eça, se dele tivesse sido contemporâneo, Flaubert de segunda. (Na imagem os "Vencidos da Vida")
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Na sua crónica no Público, Vasco Pulido Valente, escrevendo sobre Saramago, destila superficialidade, e estou a ser bonzinho, por todas as entrelinhas. Duvido que alguma vez tenha lido O Ano da Morte de Ricardo Reis ou Ensaio Sobre a Cegueira.Diz VPV que Saramago viveu do “escândalo e da polémica”. Mas a sua fama como escritor não provém daí. Tem VPV em muito fraca conta os leitores de José Saramago dispersos um pouco por todo o mundo. E estes leitores, note-se, não são os leitores do Paulo Coelho.O que é evidente é que VPV não gostava da pessoa que era Saramago. Mas uma coisa é não gostar do criador outra não gostar da obra. Quase ninguém, por exemplo, estima Céline como homem, pois era um anti-semita com a cabeça cheia de ideias de merda. Contudo, felizmente, a Viagem ao Fim da Noite prova a distância enorme que existe entre o autor e as suas criações (mas, claro, a obra de um artista não pode desculpar os erros da sua vida, mas esses pertencem a outro departamento).VPV diz algumas coisas acertadas (sobre a importância dos prémios e do Nobel), mas, pecado capital, não se deve julgar uma obra partindo da biografia do autor (e, já agora, de um conhecimento rudimentar dos seus textos). O que se escreve excede sempre a vida vivida pelo criador, se ele é mesmo um criador (existe como que uma astúcia do acto de escrever - uma espécie de List der Vernunft? - que leva a mão para além da criatura que a faz mover).Fica-se com a impressão que VPV chamaria a Eça, se dele tivesse sido contemporâneo, Flaubert de segunda. (Na imagem os "Vencidos da Vida")