O Pedro Ferro foi dos tipos mais geniais que conheci. A morte veio cedo, provando, mais uma vez, que os deuses escolhem os mais jovens e os mais sábios para os terem a seu lado. Esta noite folheava uma das revistas "Imenso Sul" - a que um grupo alargado de jornalistas alentejanos deu corpo na década de 90 - e reli, maravilhado, mais um belíssimo texto do Pedro a propósito de, na altura, Outubro de 1998, José Saramago ter ganho o Prémio Nobel da Literatura. A coluna trimestral do Pedro chamava-se "Uma Cidade ao Sol". E tem dos momentos mais altos da nossa Literatura. Sempre com as palavras a deixarem escrita na cal das paredes a realidade de todos os dias, qual Artesão do Efémero, como lhe chamou o José Luís Jones na colectânea que editou com textos do Pedro. Mas vamos à crónica:
"Obrigado JoséSe o Nobel da Literatura tivesse um critério democrático e rotativo por países, o português galardoado teria sido João Catatau - o das regras de trânsito, salvo erro. Ele é o autor mais vendido e comentado no país com maior índice europeu de mortes na estrada. Sinal de que ler não é sinal de aprender.Mas a arcaica e elitista academia sueca age por desígnios que só ela sabe e o prémio maior da literatura mundial veio para José Saramago.Se o mérito primeiro é do autor de "Memorial do Convento", não deixa de ser verdade que a nossa pátria linguística - disseminada por todo o mundo - há muito merecia tal distinção. Não só por Saramago - sem dúvida um dos maiores escritores de sempre - mas por todos os que fazem das palavras ditas na língua de Saramago um ofício, uma estética, uma ferramenta de universalismo e de humanismo. Por todos os que, em português fazendo literatura, praticam o exercício da humanidade militante.Livre toda a gente é de concordar ou não. Os argumentos é que, por vezes, são obtusos. Discordar da obtenção do Nobel ao escritor por ele ser um "comunista inveterado", como disse o Vaticano, é tão ridículo como achar que ele só não recebeu o galardão há mais anos "por ser comunista" - posição esta o de alguns que só conseguem ver no autor de "História do Cerco de Lisboa" um objecto de agitação e propaganda.Portugal ufana-se muito legitimamente de ter um Nobel da Literatura. Mas continua a ser um país sem hábitos de leitura.Exemplo desse horror pelo objecto literário viu-se há pouco na Expo'98. Nas intermináveis filas de espera, nas quais se chegava a estar oito horas, não se via um livro, um livrito sequer - nem que fosse de palavras cruzadas. Ou tão pouco um jornal. O português aguentava estoicamente oito horas de seca, dando sopapos nos putos e ralhando com a mulher por ter teimado em arrastar para a "Expor" o diabo da velha que há muito devia ter sido atirada para um asilo. Mas ler, nada.Nem que venham aí mais 20 ou 30 Nobel da Literatura isto muda. E não venham dizer que a culpa é da generalização dos suportes informáticos. A malta, lá ter computadores tem - para jogar às cartas e outras entretengas assim. Lá ter acesso à Internet tem - para ler o relatório de um procurador raivoso sobre algumas aventuras sexuais do presidente dos Estados Unidos, por exemplo.O que espanta num cenário destes não é haver um escritor português a ganhar o Nobel: o que espanta é ainda haver quem se dê ao trabalho de escrever.Por se dar a esse trabalho. Pelas milhares de belas páginas que nos deu e que nos vai continuar a dar. Pelo Nobel que prestigia as letras portuguesas e projecta o nome de Portugal no mundo. Por tudo isto e por continuar a fazer da literatura um campo de crença no ser incompleto, frágil e perdido que é o Homem, obrigado José.
Pedro Ferro, "Imenso Sul", nº 16/Outono de 1998"
Que coisa linda!
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O Pedro Ferro foi dos tipos mais geniais que conheci. A morte veio cedo, provando, mais uma vez, que os deuses escolhem os mais jovens e os mais sábios para os terem a seu lado. Esta noite folheava uma das revistas "Imenso Sul" - a que um grupo alargado de jornalistas alentejanos deu corpo na década de 90 - e reli, maravilhado, mais um belíssimo texto do Pedro a propósito de, na altura, Outubro de 1998, José Saramago ter ganho o Prémio Nobel da Literatura. A coluna trimestral do Pedro chamava-se "Uma Cidade ao Sol". E tem dos momentos mais altos da nossa Literatura. Sempre com as palavras a deixarem escrita na cal das paredes a realidade de todos os dias, qual Artesão do Efémero, como lhe chamou o José Luís Jones na colectânea que editou com textos do Pedro. Mas vamos à crónica:
"Obrigado JoséSe o Nobel da Literatura tivesse um critério democrático e rotativo por países, o português galardoado teria sido João Catatau - o das regras de trânsito, salvo erro. Ele é o autor mais vendido e comentado no país com maior índice europeu de mortes na estrada. Sinal de que ler não é sinal de aprender.Mas a arcaica e elitista academia sueca age por desígnios que só ela sabe e o prémio maior da literatura mundial veio para José Saramago.Se o mérito primeiro é do autor de "Memorial do Convento", não deixa de ser verdade que a nossa pátria linguística - disseminada por todo o mundo - há muito merecia tal distinção. Não só por Saramago - sem dúvida um dos maiores escritores de sempre - mas por todos os que fazem das palavras ditas na língua de Saramago um ofício, uma estética, uma ferramenta de universalismo e de humanismo. Por todos os que, em português fazendo literatura, praticam o exercício da humanidade militante.Livre toda a gente é de concordar ou não. Os argumentos é que, por vezes, são obtusos. Discordar da obtenção do Nobel ao escritor por ele ser um "comunista inveterado", como disse o Vaticano, é tão ridículo como achar que ele só não recebeu o galardão há mais anos "por ser comunista" - posição esta o de alguns que só conseguem ver no autor de "História do Cerco de Lisboa" um objecto de agitação e propaganda.Portugal ufana-se muito legitimamente de ter um Nobel da Literatura. Mas continua a ser um país sem hábitos de leitura.Exemplo desse horror pelo objecto literário viu-se há pouco na Expo'98. Nas intermináveis filas de espera, nas quais se chegava a estar oito horas, não se via um livro, um livrito sequer - nem que fosse de palavras cruzadas. Ou tão pouco um jornal. O português aguentava estoicamente oito horas de seca, dando sopapos nos putos e ralhando com a mulher por ter teimado em arrastar para a "Expor" o diabo da velha que há muito devia ter sido atirada para um asilo. Mas ler, nada.Nem que venham aí mais 20 ou 30 Nobel da Literatura isto muda. E não venham dizer que a culpa é da generalização dos suportes informáticos. A malta, lá ter computadores tem - para jogar às cartas e outras entretengas assim. Lá ter acesso à Internet tem - para ler o relatório de um procurador raivoso sobre algumas aventuras sexuais do presidente dos Estados Unidos, por exemplo.O que espanta num cenário destes não é haver um escritor português a ganhar o Nobel: o que espanta é ainda haver quem se dê ao trabalho de escrever.Por se dar a esse trabalho. Pelas milhares de belas páginas que nos deu e que nos vai continuar a dar. Pelo Nobel que prestigia as letras portuguesas e projecta o nome de Portugal no mundo. Por tudo isto e por continuar a fazer da literatura um campo de crença no ser incompleto, frágil e perdido que é o Homem, obrigado José.
Pedro Ferro, "Imenso Sul", nº 16/Outono de 1998"
Que coisa linda!