O Cachimbo de Magritte: Estado de negação 10 na escala 10 (act.)

25-01-2011
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O que torna interessantíssima a entrevista do Professor José Reis hoje ao Público é a clareza com que põe os problemas.É no plano europeu, defende ele, que o problema português deve encontrar solução. Não é aqui em casa. É lá fora. Primordialmente lá fora. Como? Com integração orçamental, do mercado de trabalho e social. Como ele diz: «Nesta fragilidade crescente das nações do euro, se não tivermos forma de caminhar e abrir horizontes, ficamos com sérios problemas. É evidente que uma integração orçamental, de mercados de trabalho ou social não se faz de um dia para o outro. Ao pé disso, criar uma moeda única foi uma coisa simples. Contudo, abrir esse caminho como cenário alternativo é essencial. Provavelmente, não encontramos via de resposta aos problemas actuais que não seja esta.»Esta - é a abolição definitiva do Estado português. É o caminho da União Política. Até que enfim, encontro alguém, em quadrantes que não são os meus, que diagnostica a seriedade da situação assim, nestes termos, como me tenho esforçado por fazer há já bastante tempo.A diferença está em que eu considero essa saída inaceitável. Não estou na disposição de me desfazer disto – de Portugal – assim, sem luta e sem honra. Também não acredito, valha-nos isso, que a Europa esteja na disposição de nos comprar, mesmo em saldo. Felizmente, a «Europa», no fundo, não é um problema económico, ou exclusivamente equacionável como problema económico, como quer o pensamento economicista do Professor José Reis. É mais, bem mais do que isso, e as nações da Europa não estão para nos aturar. Fazem bem, e eu agradeço.O Professor José Reis não vê nessa rejeição da Europa um problema insolúvel. Diz ele que isso passa «por combates que mesmo uma nação portuguesa pode fazer.» O combate pelo fim do que lhe resta como existência soberana. Seria o nosso último combate.Estou a exagerar a vontade de aniquilação que preconiza o Professor José Reis? Ouçamo-lo. Também ele pensa, como eu, que «o cenário de desagregação da zona euro é um cenário possível. É um cenário em que os problemas de uma economia como a nossa seriam muito maiores e que, por isso, é bom contrapor outros cenários.»Quais? Pois «é necessário que, à escala global, se encontrem substitutos ao que os países foram noutras fases da história económica. Tivemos fases que foram muito centradas nos Estados-nação e sabemos que hoje isso se mantém, mas com fragilidades que não havia anteriormente. Provavelmente a grande vantagem europeia é que nós podemos, a uma escala supranacional, repercutir uma imagem do género da que os Estados-nação representavam, com capacidade de intervir directamente em formas de regulação que tenham a ver com o crédito, financiamento, fluxos financeiros e questões orçamentais.»Em suma; para o Professor José Reis, que elabora, como não vi ninguém fazer, até hoje, na esquerda, com tanta clareza, sobre o problema português e a solução desejável, o problema português é um problema económico. A nação e o Estado, o Estado-nação um empecilho à sua resolução. É bem provável, pelo caminho que as coisas levam, que a grande distinção entre a esquerda «progressista» e a direita conservadora se venha a fazer nesta clivagem: entre advogar Portugal e advogar o seu fim.É verdade. Concordo. As coisas nunca estiveram tão negras. O haraquiri é que não me parece uma opção. Como dizia Schopenhauer, querendo talvez dizer algo diferente do que eu quero, o suicídio nunca é solução, porque é já sempre tarde de mais.Estamos, felizmente, condenados a resolver os problemas aqui – e não na Europa. Sim, claro. Vai doer muito. Mas não há escape para isso, como sonha o Professor José Reis.P.S.: Não vou elaborar, porque o espaço não é infinito, na cómica contradição que afecta o pensamento do Professor, quando defende o Estado contra os que o acham «colonizado por interesses» e, por isso, um «monstro» hipertrofiado, defendendo, acto contínuo, o seu desaparecimento na Europa. Provavelmente ele entende por Estado uma coisa diferente do que eu entendo. Para ele Estado talvez seja governança, administração de coisas. Para mim é a forma política pela qual um povo existe na era moderna. Mas isso dava outro post.


O que torna interessantíssima a entrevista do Professor José Reis hoje ao Público é a clareza com que põe os problemas.É no plano europeu, defende ele, que o problema português deve encontrar solução. Não é aqui em casa. É lá fora. Primordialmente lá fora. Como? Com integração orçamental, do mercado de trabalho e social. Como ele diz: «Nesta fragilidade crescente das nações do euro, se não tivermos forma de caminhar e abrir horizontes, ficamos com sérios problemas. É evidente que uma integração orçamental, de mercados de trabalho ou social não se faz de um dia para o outro. Ao pé disso, criar uma moeda única foi uma coisa simples. Contudo, abrir esse caminho como cenário alternativo é essencial. Provavelmente, não encontramos via de resposta aos problemas actuais que não seja esta.»Esta - é a abolição definitiva do Estado português. É o caminho da União Política. Até que enfim, encontro alguém, em quadrantes que não são os meus, que diagnostica a seriedade da situação assim, nestes termos, como me tenho esforçado por fazer há já bastante tempo.A diferença está em que eu considero essa saída inaceitável. Não estou na disposição de me desfazer disto – de Portugal – assim, sem luta e sem honra. Também não acredito, valha-nos isso, que a Europa esteja na disposição de nos comprar, mesmo em saldo. Felizmente, a «Europa», no fundo, não é um problema económico, ou exclusivamente equacionável como problema económico, como quer o pensamento economicista do Professor José Reis. É mais, bem mais do que isso, e as nações da Europa não estão para nos aturar. Fazem bem, e eu agradeço.O Professor José Reis não vê nessa rejeição da Europa um problema insolúvel. Diz ele que isso passa «por combates que mesmo uma nação portuguesa pode fazer.» O combate pelo fim do que lhe resta como existência soberana. Seria o nosso último combate.Estou a exagerar a vontade de aniquilação que preconiza o Professor José Reis? Ouçamo-lo. Também ele pensa, como eu, que «o cenário de desagregação da zona euro é um cenário possível. É um cenário em que os problemas de uma economia como a nossa seriam muito maiores e que, por isso, é bom contrapor outros cenários.»Quais? Pois «é necessário que, à escala global, se encontrem substitutos ao que os países foram noutras fases da história económica. Tivemos fases que foram muito centradas nos Estados-nação e sabemos que hoje isso se mantém, mas com fragilidades que não havia anteriormente. Provavelmente a grande vantagem europeia é que nós podemos, a uma escala supranacional, repercutir uma imagem do género da que os Estados-nação representavam, com capacidade de intervir directamente em formas de regulação que tenham a ver com o crédito, financiamento, fluxos financeiros e questões orçamentais.»Em suma; para o Professor José Reis, que elabora, como não vi ninguém fazer, até hoje, na esquerda, com tanta clareza, sobre o problema português e a solução desejável, o problema português é um problema económico. A nação e o Estado, o Estado-nação um empecilho à sua resolução. É bem provável, pelo caminho que as coisas levam, que a grande distinção entre a esquerda «progressista» e a direita conservadora se venha a fazer nesta clivagem: entre advogar Portugal e advogar o seu fim.É verdade. Concordo. As coisas nunca estiveram tão negras. O haraquiri é que não me parece uma opção. Como dizia Schopenhauer, querendo talvez dizer algo diferente do que eu quero, o suicídio nunca é solução, porque é já sempre tarde de mais.Estamos, felizmente, condenados a resolver os problemas aqui – e não na Europa. Sim, claro. Vai doer muito. Mas não há escape para isso, como sonha o Professor José Reis.P.S.: Não vou elaborar, porque o espaço não é infinito, na cómica contradição que afecta o pensamento do Professor, quando defende o Estado contra os que o acham «colonizado por interesses» e, por isso, um «monstro» hipertrofiado, defendendo, acto contínuo, o seu desaparecimento na Europa. Provavelmente ele entende por Estado uma coisa diferente do que eu entendo. Para ele Estado talvez seja governança, administração de coisas. Para mim é a forma política pela qual um povo existe na era moderna. Mas isso dava outro post.

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