Em Fevereiro de 2002, um senhor da minha terra escreveu um artigo de opinião publicado num jornal local intitulado "Internet: Arma de dois gumes". Nesse artigo, o Sr. Humberto considerava a Internet "a mais tenebrosa arma do mal", fornecida por "pais descuidados" às "suas crianças", ideias que tive o prazer de contrapor na semana seguinte, claro está. Mas isso é outra história!Na verdade, este tipo de abordagens é recorrente sempre que aparece algo novo. A história está cheia deste tipo de resistências, de receios e preconceitos, sempre que aparece algo que rompe com o passado, que traz novidade, que mexe com a vida das pessoas. Foi assim com o aparecimento da Internet, mas também foi assim com o aparecimento do telefone que ia fazer com que as pessoas deixassem de falar pessoalmente, da rádio que ia acabar com os músicos, da televisão que ia arruinar a rádio, do computador que ia fazer com que as pessoas deixassem de saber escrever. Isto já para não falar do automóvel que ia acabar com as caminhadas a pé, da máquina de lavar que ia fazer com que se deixasse de lavar roupa à mão (mesmo peças pequenas), do elevador que ia trazer problemas à coluna, ou da calculadora que ia fazer com que se abandonassem os cálculos mentais.Mas este raciocínio aplica-se também a iniciativas inovadoras. Lembro-me bem que o director de um jornal escreveu um editorial na semana em que foi lançada a iniciativa e-escola, dizendo essencialmente que dali a algum tempo iria ver computadores à venda na “Feira da Ladra”.Por estes dias foram entregues os primeiros computadores Magalhães de um universo de 500 mil previstos para alunos do 1º ciclo. E lá vieram alguns comentadores mostrar a sua indignação! O que interessa é dizer mal, de preferência de forma polémica, para chocar, para terem resposta, para serem falados. E não é que estas miseráveis tácticas, embora claras e muito conhecidas, resultam mesmo? Há sempre quem, como eu, não aguente tamanhas parvoíces!Pacheco Pereira, por exemplo, achou excessiva a cobertura televisiva da estação pública ao acontecimento, embora se tenha escusado de comentar a ridícula prestação de uma estação de televisão à volta do “controlo parental” do computador que ele não considera português. Mas este comentador político-partidário, que é daqueles que sabe de tudo, opina sobre tudo como se fosse um sábio a que todos devemos prestar atenção e, porque não, vassalagem, vai ainda mais longe. Contesta a utilização das tecnologias em idade tenra, usando meios argumentos, meias investigações, meias verdades mas, acima de tudo, completas aberrações científicas.Tivemos também agora Santana Castilho, professor universitário, a mandar-se contra a generalização da tecnologia no ensino, em nome das aprendizagens e dos métodos de outrora, do passado, de há dois séculos atrás. Para este articulista, foram tecnocratas a decidir levar os computadores para as salas de aula, argumentando que as escolas e os professores não foram sequer ouvidos. Eu pergunto: será que Santana Castilho perguntou alguma coisa aos alunos para fundamentar as suas opiniões? Mais: perguntou alguma coisa às escolas e aos professores? Saberá Santana Castilho o que diz? Conhecerá o que já acontece há muito tempo em inúmeras escolas portuguesas ao nível da utilização da tecnologia no processo ensino-aprendizagem? Já agora, os elevadores deveriam ser interditos a menores de 6 anos para que estas crianças não sejam prejudicadas no seu desenvolvimento motor? O que motiva esta gente a dizer mal de tudo?Do meu ponto de vista, o que move verdadeiramente alguns líderes de opinião, não são o tipo de reservas típicas dos desinformados Senhores Humbertos. Em algumas pessoas, o que dói mesmo, lá no seu íntimo mais profundo, é o facto deste tipo de medidas vulgarizarem coisas (objectos e serviços) que estão, à partida, nas mãos de elites. O que os incomoda realmente é que o Estado, com este tipo de medidas, dê um impulso à democratização e massificação, neste caso, da tecnologia. O que os põe nervosos é o facto do dinheiro dos contribuintes estar a ser usado para combater desigualdades. O que os deixa loucos de raiva é que o dinheiro de todos nós, do Estado, sirva para proporcionar igualdade de oportunidades. Este tipo de gente deve estar a trepar pelas paredes, de facto!Não estranho, portanto, reacções deste tipo. São normais em democracia, onde as pessoas são livres de dizer o que pensam, de exprimir o que sentem, de lutar por aquilo em que acreditam, de espalhar as suas ideias pelos canais que estão ao seu alcance. Até mesmo aqueles que defendem ideais elitistas o podem fazer, e ainda bem! Espero é que este tipo de pessoas não chegue nunca ao poder! Desgraçados seriam todos aqueles que não nasceram nos seus próprios mundos!Artigo publicado no Semanário Económico de 3-9 de Outubro.
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Em Fevereiro de 2002, um senhor da minha terra escreveu um artigo de opinião publicado num jornal local intitulado "Internet: Arma de dois gumes". Nesse artigo, o Sr. Humberto considerava a Internet "a mais tenebrosa arma do mal", fornecida por "pais descuidados" às "suas crianças", ideias que tive o prazer de contrapor na semana seguinte, claro está. Mas isso é outra história!Na verdade, este tipo de abordagens é recorrente sempre que aparece algo novo. A história está cheia deste tipo de resistências, de receios e preconceitos, sempre que aparece algo que rompe com o passado, que traz novidade, que mexe com a vida das pessoas. Foi assim com o aparecimento da Internet, mas também foi assim com o aparecimento do telefone que ia fazer com que as pessoas deixassem de falar pessoalmente, da rádio que ia acabar com os músicos, da televisão que ia arruinar a rádio, do computador que ia fazer com que as pessoas deixassem de saber escrever. Isto já para não falar do automóvel que ia acabar com as caminhadas a pé, da máquina de lavar que ia fazer com que se deixasse de lavar roupa à mão (mesmo peças pequenas), do elevador que ia trazer problemas à coluna, ou da calculadora que ia fazer com que se abandonassem os cálculos mentais.Mas este raciocínio aplica-se também a iniciativas inovadoras. Lembro-me bem que o director de um jornal escreveu um editorial na semana em que foi lançada a iniciativa e-escola, dizendo essencialmente que dali a algum tempo iria ver computadores à venda na “Feira da Ladra”.Por estes dias foram entregues os primeiros computadores Magalhães de um universo de 500 mil previstos para alunos do 1º ciclo. E lá vieram alguns comentadores mostrar a sua indignação! O que interessa é dizer mal, de preferência de forma polémica, para chocar, para terem resposta, para serem falados. E não é que estas miseráveis tácticas, embora claras e muito conhecidas, resultam mesmo? Há sempre quem, como eu, não aguente tamanhas parvoíces!Pacheco Pereira, por exemplo, achou excessiva a cobertura televisiva da estação pública ao acontecimento, embora se tenha escusado de comentar a ridícula prestação de uma estação de televisão à volta do “controlo parental” do computador que ele não considera português. Mas este comentador político-partidário, que é daqueles que sabe de tudo, opina sobre tudo como se fosse um sábio a que todos devemos prestar atenção e, porque não, vassalagem, vai ainda mais longe. Contesta a utilização das tecnologias em idade tenra, usando meios argumentos, meias investigações, meias verdades mas, acima de tudo, completas aberrações científicas.Tivemos também agora Santana Castilho, professor universitário, a mandar-se contra a generalização da tecnologia no ensino, em nome das aprendizagens e dos métodos de outrora, do passado, de há dois séculos atrás. Para este articulista, foram tecnocratas a decidir levar os computadores para as salas de aula, argumentando que as escolas e os professores não foram sequer ouvidos. Eu pergunto: será que Santana Castilho perguntou alguma coisa aos alunos para fundamentar as suas opiniões? Mais: perguntou alguma coisa às escolas e aos professores? Saberá Santana Castilho o que diz? Conhecerá o que já acontece há muito tempo em inúmeras escolas portuguesas ao nível da utilização da tecnologia no processo ensino-aprendizagem? Já agora, os elevadores deveriam ser interditos a menores de 6 anos para que estas crianças não sejam prejudicadas no seu desenvolvimento motor? O que motiva esta gente a dizer mal de tudo?Do meu ponto de vista, o que move verdadeiramente alguns líderes de opinião, não são o tipo de reservas típicas dos desinformados Senhores Humbertos. Em algumas pessoas, o que dói mesmo, lá no seu íntimo mais profundo, é o facto deste tipo de medidas vulgarizarem coisas (objectos e serviços) que estão, à partida, nas mãos de elites. O que os incomoda realmente é que o Estado, com este tipo de medidas, dê um impulso à democratização e massificação, neste caso, da tecnologia. O que os põe nervosos é o facto do dinheiro dos contribuintes estar a ser usado para combater desigualdades. O que os deixa loucos de raiva é que o dinheiro de todos nós, do Estado, sirva para proporcionar igualdade de oportunidades. Este tipo de gente deve estar a trepar pelas paredes, de facto!Não estranho, portanto, reacções deste tipo. São normais em democracia, onde as pessoas são livres de dizer o que pensam, de exprimir o que sentem, de lutar por aquilo em que acreditam, de espalhar as suas ideias pelos canais que estão ao seu alcance. Até mesmo aqueles que defendem ideais elitistas o podem fazer, e ainda bem! Espero é que este tipo de pessoas não chegue nunca ao poder! Desgraçados seriam todos aqueles que não nasceram nos seus próprios mundos!Artigo publicado no Semanário Económico de 3-9 de Outubro.