O segredo do progresso da “integração” europeia está no facto de os países europeus não se levarem muito a sério. Não se levam a sério enquanto Estados. De outro modo, como explicar a disponibilidade e até o entusiasmo – ou pelo menos uma relutância muito fugidia – com que prescindem daquilo que mais os define como Estados? Como compreender que desistam com tanto silêncio e sem lágrimas, da capacidade legislativa que é constitutiva da sua soberania? E a soberania não mais quer dizer do que ter controlo sobre o próprio destino. Ora, os países europeus já não querem mais ter controlo sobre o seu próprio destino porque, por assim dizer, se tornaram umas piadas para eles mesmos.Neste sentido muito unilateral, a União Europeia é o resultado das grandes e pequenas piadas que os países contam sobre eles mesmos. Ver o humor como motor da “integração europeia” não é necessariamente depreciativo. Pode ajudar a repor algumas coisas no seu devido lugar, como o riso sempre faz. É certo que também degrada a dignidade e gravidade do “projecto”. Porém, não vale a pena ver aqui argumentação anti-europeísta. Até porque as comunidades europeias nasceram de outra motivação bem diferente. Nos anos 50 e 60, os países europeus levavam-se bem a sério; sabiam bem quão perigosos eram. A constituição dessas primeiras comunidades assentou em motivos e propósitos inegavelmente nobres. Mas hoje, 65 anos depois da II Guerra Mundial, os motivos são outros. O “aprofundamento” da União é possível e inevitável porque, aos olhos dos seus cidadãos, os países europeus gozam de um estatuto perto do da anedota. Por enquanto, os europeístas não se preocupam com esta tendência; chegam mesmo a rejubilar com ela, como se de um sintoma superior de civilização se tratasse. Iludem-se. É uma questão de tempo até as piadas nacionais contagiarem a União; é uma questão de tempo até as piadas nacionais serem substituídas por uma grande piada europeia. Talvez por isso, em jeito de preparação, a “Europa” não assuma uma forma política. É que uma piada tem de poder ser contada de maneiras diferentes.
Categorias
Entidades
O segredo do progresso da “integração” europeia está no facto de os países europeus não se levarem muito a sério. Não se levam a sério enquanto Estados. De outro modo, como explicar a disponibilidade e até o entusiasmo – ou pelo menos uma relutância muito fugidia – com que prescindem daquilo que mais os define como Estados? Como compreender que desistam com tanto silêncio e sem lágrimas, da capacidade legislativa que é constitutiva da sua soberania? E a soberania não mais quer dizer do que ter controlo sobre o próprio destino. Ora, os países europeus já não querem mais ter controlo sobre o seu próprio destino porque, por assim dizer, se tornaram umas piadas para eles mesmos.Neste sentido muito unilateral, a União Europeia é o resultado das grandes e pequenas piadas que os países contam sobre eles mesmos. Ver o humor como motor da “integração europeia” não é necessariamente depreciativo. Pode ajudar a repor algumas coisas no seu devido lugar, como o riso sempre faz. É certo que também degrada a dignidade e gravidade do “projecto”. Porém, não vale a pena ver aqui argumentação anti-europeísta. Até porque as comunidades europeias nasceram de outra motivação bem diferente. Nos anos 50 e 60, os países europeus levavam-se bem a sério; sabiam bem quão perigosos eram. A constituição dessas primeiras comunidades assentou em motivos e propósitos inegavelmente nobres. Mas hoje, 65 anos depois da II Guerra Mundial, os motivos são outros. O “aprofundamento” da União é possível e inevitável porque, aos olhos dos seus cidadãos, os países europeus gozam de um estatuto perto do da anedota. Por enquanto, os europeístas não se preocupam com esta tendência; chegam mesmo a rejubilar com ela, como se de um sintoma superior de civilização se tratasse. Iludem-se. É uma questão de tempo até as piadas nacionais contagiarem a União; é uma questão de tempo até as piadas nacionais serem substituídas por uma grande piada europeia. Talvez por isso, em jeito de preparação, a “Europa” não assuma uma forma política. É que uma piada tem de poder ser contada de maneiras diferentes.