Entre a sua nomeação e a partida para a mais longínqua província portuguesa, Meira recebeu dezenas de cartas, metendo cunha, velha e honorífica instituição nacional. Nos seus primeiros meses de governador, já instalado na ilha, recebeu outras tantas missivas. Uma delas de João Soares, ex-padre que fizera o curso para capelão militar e que viria depois a fundar o Colégio Moderno. Ora, o despadrado acabara de publicar um «Atlas», que o governo adoptara oficialmente nas escolas primárias da Metrópole. E na carta solicitava que o novel governador, seu correligionário, adoptasse igualmente o «Atlas» em Timor: «Muito me obsequeria [sic] V. Exª. recomendando a sua adopção, devendo os pedidos ser feitos directamente à casa editora (...)»É compreensível o zelo comercial do distinto pedagogo. E sobre tão delicada matéria, vou publicar já a seguir um postalzinho. Garanto-vos que me divirto muito mais a escrever sobre estes assuntos do que vocês a lerem... Para já, quero que saibam que, nesse ano de 1924, o antigo seminarista passou a ter em casa mais uma boca para alimentar — a do filho Mário, nascido em Dezembro. E a avaliar pelo aspecto anafado que a criançola ainda hoje apresenta, o dinheiro gasto em papas deve ter consumido boa parte do orçamento familiar. Percebe-se, outrossim, que o matulão haja contraído à nascença uma vontade indómita de viajar: afinal, foi parido sob o signo do «Atlas»...Da mesma época, há uma carta notável dirigida a Meira pelo jornalista Adelino Ferrão de Castelo Branco. Era o que pode chamar-se um assessor de imprensa avant la lettre. Oferece-se para viajar com Meira para Timor, com vista a pugnar pela imagem do político: «uma colaboração em tudo e por tudo de conveniência do governador» — escreve ele. E explica porquê: «(...) não pelo facto do meu passado mais ou menos glorioso (pois isso é só de valor representativo) mas sim na minha qualidade de jornalista, onde posso ser de grande utilidade para a colónia e ainda mais para a obra do governador». Logo após, expõe a estratégia a seguir: «entender-me-ei com dois ou três jornais de larga circulação no país onde combinarei a minha correspondência literária e noticiosa a enviar dessa possessão ultramarina; e nessa colaboração jornalística (...) eu farei conhecer (...) a obra governativa e administrativa do governador da província; enfim, tomarei sobre mim o encargo de impor ao conhecimento geral e de fazer marcar perante a opinião pública o nome do tenente-coronel Meira e a obra por ele encetada e feita em Timor».E com o propósito de convencer definitivamente o governador, voluntaria-se ao exame prévio: «Claro está que a confecção dos artigos que enviarei serão antes e devidamente por si apreciados e escritos dentro da mais unida e perfeita colaboração com V. Exª.» Em post-scriptum, o notável plumitivo lança ainda um último argumento de peso sobre o destinatário, informando este de que está «proposto pelo sr. Presidente do ministério para a Ordem de Cristo».Enfim, um homem fora de tempo. Hoje, o Ferrão seria uma das referências do jornalismo luso.A leitura destas missivas poderá ser feita no blogue Cartas Portuguesas — A I República por Correspondência , uma produção do Luís Bonifácio que, não tarda nada, vai dar início à publicação das ditas.Eu volto já a seguir, como prometido, para vos contar umas curiosidades sobre o «Atlas».
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Entre a sua nomeação e a partida para a mais longínqua província portuguesa, Meira recebeu dezenas de cartas, metendo cunha, velha e honorífica instituição nacional. Nos seus primeiros meses de governador, já instalado na ilha, recebeu outras tantas missivas. Uma delas de João Soares, ex-padre que fizera o curso para capelão militar e que viria depois a fundar o Colégio Moderno. Ora, o despadrado acabara de publicar um «Atlas», que o governo adoptara oficialmente nas escolas primárias da Metrópole. E na carta solicitava que o novel governador, seu correligionário, adoptasse igualmente o «Atlas» em Timor: «Muito me obsequeria [sic] V. Exª. recomendando a sua adopção, devendo os pedidos ser feitos directamente à casa editora (...)»É compreensível o zelo comercial do distinto pedagogo. E sobre tão delicada matéria, vou publicar já a seguir um postalzinho. Garanto-vos que me divirto muito mais a escrever sobre estes assuntos do que vocês a lerem... Para já, quero que saibam que, nesse ano de 1924, o antigo seminarista passou a ter em casa mais uma boca para alimentar — a do filho Mário, nascido em Dezembro. E a avaliar pelo aspecto anafado que a criançola ainda hoje apresenta, o dinheiro gasto em papas deve ter consumido boa parte do orçamento familiar. Percebe-se, outrossim, que o matulão haja contraído à nascença uma vontade indómita de viajar: afinal, foi parido sob o signo do «Atlas»...Da mesma época, há uma carta notável dirigida a Meira pelo jornalista Adelino Ferrão de Castelo Branco. Era o que pode chamar-se um assessor de imprensa avant la lettre. Oferece-se para viajar com Meira para Timor, com vista a pugnar pela imagem do político: «uma colaboração em tudo e por tudo de conveniência do governador» — escreve ele. E explica porquê: «(...) não pelo facto do meu passado mais ou menos glorioso (pois isso é só de valor representativo) mas sim na minha qualidade de jornalista, onde posso ser de grande utilidade para a colónia e ainda mais para a obra do governador». Logo após, expõe a estratégia a seguir: «entender-me-ei com dois ou três jornais de larga circulação no país onde combinarei a minha correspondência literária e noticiosa a enviar dessa possessão ultramarina; e nessa colaboração jornalística (...) eu farei conhecer (...) a obra governativa e administrativa do governador da província; enfim, tomarei sobre mim o encargo de impor ao conhecimento geral e de fazer marcar perante a opinião pública o nome do tenente-coronel Meira e a obra por ele encetada e feita em Timor».E com o propósito de convencer definitivamente o governador, voluntaria-se ao exame prévio: «Claro está que a confecção dos artigos que enviarei serão antes e devidamente por si apreciados e escritos dentro da mais unida e perfeita colaboração com V. Exª.» Em post-scriptum, o notável plumitivo lança ainda um último argumento de peso sobre o destinatário, informando este de que está «proposto pelo sr. Presidente do ministério para a Ordem de Cristo».Enfim, um homem fora de tempo. Hoje, o Ferrão seria uma das referências do jornalismo luso.A leitura destas missivas poderá ser feita no blogue Cartas Portuguesas — A I República por Correspondência , uma produção do Luís Bonifácio que, não tarda nada, vai dar início à publicação das ditas.Eu volto já a seguir, como prometido, para vos contar umas curiosidades sobre o «Atlas».