Luanda 2006: Diário de bordo

18-12-2009
marcar artigo

Tanguiéta – Cotonou (Benin)Acordo com uma forte chuvada. Como se diria lá pelas bandas do nosso Portugal, chove a cântaros. Espero que seja uma chuva tipicamente africana. Daquelas que vai e vem. Mas é bem forte e cai durante quase uma hora.Quando me levanto ainda caem algumas pingas. Mas tem que ser e não podemos ficar todo o dia à espera que a chuva passe. Tínhamos programado sair ao raiar do dia e são já sete horas. É a hora da missa da manhã. Começam a chegar vários carros. Com missionários das redondezas. Também alguns locais. Antes de sair vou buscar a nossa Bíblia. Entro na Igreja. Simples e sóbria. Mas é quanto basta para a casa de Deus.Por causa da chuva que continua a cair não tomamos o pequeno-almoço. Não havia condições. Havemos de parar e prepará-lo a meio da manhã quando deixar de chover.Situado entre a Nigéria e o Togo, o Benin tem 700 Km de cumprimento e 200 Km de largura no sul e cerca de 300m a Norte. É o berço do voodoo e a base de um dos mais poderosos reinos africanos, com uma história que ultrapassa em muito as fronteiras actuais do país. O reino de Dome, um dos maiores Impérios Africanos. É também aqui no Benin que se localiza o antigo entreposto comercial Português da época dos descobrimentos de S. João Batista d’Ajuda.O forte de São João Baptista de Ajudá, na cidade de Ouidah na costa de Dahomey (originalmente Ajudá), foi construído na sequencia da chegada dos portugueses a estas paragens em 1580. Em torno do mesmo cresceu o comércio do escravo. O forte, construído na terra dada a Portugal pelo rei de Dahomey, esteve sob controlo português desde 1721 até 1961. Como curiosidade da importância da passagem dos portugueses por estas paragens é o facto do português ser, à época, a única língua estrangeira que os reis de Dahomey autorizavam.Depois da abolição do comércio legal da escravatura em 1807, o forte foi perdendo gradualmente a importância. O forte é hoje um museu.Porto Novo, a segunda cidade dos País, foi igualmente fundada pelos portugueses.O Benin possui, também, muito da mística Africana que costuma alimentar a imaginação dos europeus. As aldeias de pescadores construídas em bambus – Ganvié, ao lado da capital -, é uma das imagens mais famosas do Benin. Nas zonas rurais a vida vai correndo como... acontecia há dezenas de anos atrás.Politicamente, o país emerge de um regime marxista-leninista, dando os primeiros passos num no regime democrático. Ao longo da estrada, por algumas aldeias e cidades por onde vamos passando, é possível ver os seus reflexos. Placas com a indicação das sedes de candidatura dos candidatos à Presidência da República, mostram que o País atravessou recentemente um período eleitoral. E na sequência do qual foi eleito um novo Presidente.Ao longo da estrada, vamos tendo oportunidade de verificar a densidade da floresta Africana. Cada vez mais cerrada, com as árvores a assumirem, agora, um porte mais elevado.Está na hora do almoço. Na estrada entre Moussolou e Abomey procuramos um sítio para parar. Não é fácil. A densa floresta que ladeia a estrada de um lado e do outro não permite muitas clareiras. Parar junto a uma das inúmeras aldeias que se vão sucedendo é uma solução. Mas não é desejada. A sugestão do António acabamos por parar numa escola que, a cem metros da estrada, possui um logradouro óptimo. A escolha dos locais de paragem é sempre um drama. E este não foge à regra. Mas, depois de alguns amuos iniciais, já temos pão e atum em cima das carteiras da sala de aula. Esta, sem pareces, é feita em blocos de cimento. Um quadro de giz, com alguns escritos lembra-nos o local onde estamos. Alguns miúdos e mulheres mantêm-se à distância a apreciar o que fazemos. Não nos incomodam. Apenas assistem. Antes de sairmos o Victor oferece um frasco de Betadine a uma mulher que leva uma criança ao colo. Explicamos para o que serve. Ela agradece. Depois, distribuo rebuçados pelas crianças. E graúdos, também. Recebem-nos de forma ordeira. Fazem uma festa. Antes de sairmos recolhemos o lixo e limpamos tudo.Estamos, pouco depois, de volta à estrada. O António, pelos rádios dos carros, tem a sua habitual tirada: Bendito Senhor pelo alimento que nos destes. Vamos a continuar caminho. Graças Senhor. – Amem! Digo eu...O trânsito é, agora, mais intenso. Estamos a poucos quilómetros de Abomey. Motorizadas, carros, peões, bicicletas, anda tudo na estrada.O Pinto recorda o trânsito da cidade do Cairo. Sim. É semelhante. A diferença é que aqui, em vez de carros, temos um enxame de motorizadas. Olha para aquele. Passa uma motorizada com ... uma arca frigorifica no banco de trás. E ali. Um galo e uma bicicleta em cima de uma motorizada. Como ? Mas estás a ver bem ? Não te enganaste ? Olho, fixamente, para a estrada à procura da motorizada, do galo e da bicicleta. E eis que eles ali vão. Literalmente. Dois artistas em cima de uma motorizada, uma bicicleta e o galo !... Pouco depois, outro cenário inacreditável. Uma carrinha Peugeot com uma vaca no tejadilho e ... dois perus pendurados. Não. Não. Não estou a alucinar. É tal qual mente exacto o que escrevo !E eis que...o nosso carro resolve fazer greve outra vez. Estamos parados na estrada. Hoje fizemos quatrocentos quilómetros e, de repente, o rapaz pára. Filtro. Já se viu. E se for a centralina, lembra-se alguém. Não sei. Tudo é possível. A verdade é que o carro, após algum tempo de repouso, volta a funcionar. Mas hoje, para evitarmos ficar parados na estrada, a única solução é rebocá-lo. Outra vez. E no meio do transito caótico de Cotonou, a capital do Benin.A preocupação no seio do grupo é evidente. Mais uma solução de deixarmos o carro volta-se a colocar. Depois do Benin está a Nigéria e tudo o que de desconhecido se apresenta.Para já o caminho é chegarmos a Cotonou. O Casimiro estabelece contacto com o Sr. João Sequeira, representante da Mota Engil no Benin e que se disponibiliza para nos vir buscar a entrada da cidade. A preocupação do Sr. Sequeira é que não fiquemos na estrada. Para além de todo o apoio, disponibiliza-se para nos deixar ficar em casa dele. E nós, depois de mais uma longa jornada, cansados, claro está que não dizemos que não. É com alguma dificuldade que conseguimos convencê-lo que preferimos ficar nas nossas tendas em cima dos carros. A boa vontade demonstrada é total. Aproveito para dar um mergulho na piscina. Eu, o Pedro e o Miguel somos os primeiros a mergulhar. Logo depois vem os outros. Lembro-me, literalmente, na nossa chegada, dez anos atrás, na viagem à Guiné-Bissau, da chegada ao Clube de Caça do Capé, em Bafatá. A refeição é partilhada por todos. Comemos umas excelentes costeletas, preparadas pelo Richard, o cozinheiro da casa.O momento de relaxe que encontramos é precioso. Mas, amanhã, logo às oito horas, há que estar à porta da oficina. Ou se consegue reparar o carro ou a opção terá que ser deixá-lo aqui. Alguns procuram-me convencer que esta, para além da única, será a melhor solução. Se calhar. Talvez. Pode ser. Provavelmente... Sim. Eu sei. Esta paga direitos de autor. Mas, estamos em África. Previsões só nos próximos trinta segundos. Para além disso é futurologia.Teremos, igualmente, que decidir se partimos, em direcção à Nigéria, logo que o carro fique pronto. O que havia programado seria passar a fronteira para a Nigéria logo pela manhã de forma a tentar, em dois dias, estar já nos Camarões. Com a ida ao mecânico e o inevitável atraso esta terá que ser um dado a tomar em conta. O Pinto pergunta-me como vamos fazer. No stress. Manhã logo se se verá e decidirá.Certo certo é que amanhã será outro dia. Hoje, a noite ainda nos vai dar oportunidade para alguns de nós irem beber uma cervejinha num bar local. Que serve de recarga das baterias. É já tarde quando me deito.

Tanguiéta – Cotonou (Benin)Acordo com uma forte chuvada. Como se diria lá pelas bandas do nosso Portugal, chove a cântaros. Espero que seja uma chuva tipicamente africana. Daquelas que vai e vem. Mas é bem forte e cai durante quase uma hora.Quando me levanto ainda caem algumas pingas. Mas tem que ser e não podemos ficar todo o dia à espera que a chuva passe. Tínhamos programado sair ao raiar do dia e são já sete horas. É a hora da missa da manhã. Começam a chegar vários carros. Com missionários das redondezas. Também alguns locais. Antes de sair vou buscar a nossa Bíblia. Entro na Igreja. Simples e sóbria. Mas é quanto basta para a casa de Deus.Por causa da chuva que continua a cair não tomamos o pequeno-almoço. Não havia condições. Havemos de parar e prepará-lo a meio da manhã quando deixar de chover.Situado entre a Nigéria e o Togo, o Benin tem 700 Km de cumprimento e 200 Km de largura no sul e cerca de 300m a Norte. É o berço do voodoo e a base de um dos mais poderosos reinos africanos, com uma história que ultrapassa em muito as fronteiras actuais do país. O reino de Dome, um dos maiores Impérios Africanos. É também aqui no Benin que se localiza o antigo entreposto comercial Português da época dos descobrimentos de S. João Batista d’Ajuda.O forte de São João Baptista de Ajudá, na cidade de Ouidah na costa de Dahomey (originalmente Ajudá), foi construído na sequencia da chegada dos portugueses a estas paragens em 1580. Em torno do mesmo cresceu o comércio do escravo. O forte, construído na terra dada a Portugal pelo rei de Dahomey, esteve sob controlo português desde 1721 até 1961. Como curiosidade da importância da passagem dos portugueses por estas paragens é o facto do português ser, à época, a única língua estrangeira que os reis de Dahomey autorizavam.Depois da abolição do comércio legal da escravatura em 1807, o forte foi perdendo gradualmente a importância. O forte é hoje um museu.Porto Novo, a segunda cidade dos País, foi igualmente fundada pelos portugueses.O Benin possui, também, muito da mística Africana que costuma alimentar a imaginação dos europeus. As aldeias de pescadores construídas em bambus – Ganvié, ao lado da capital -, é uma das imagens mais famosas do Benin. Nas zonas rurais a vida vai correndo como... acontecia há dezenas de anos atrás.Politicamente, o país emerge de um regime marxista-leninista, dando os primeiros passos num no regime democrático. Ao longo da estrada, por algumas aldeias e cidades por onde vamos passando, é possível ver os seus reflexos. Placas com a indicação das sedes de candidatura dos candidatos à Presidência da República, mostram que o País atravessou recentemente um período eleitoral. E na sequência do qual foi eleito um novo Presidente.Ao longo da estrada, vamos tendo oportunidade de verificar a densidade da floresta Africana. Cada vez mais cerrada, com as árvores a assumirem, agora, um porte mais elevado.Está na hora do almoço. Na estrada entre Moussolou e Abomey procuramos um sítio para parar. Não é fácil. A densa floresta que ladeia a estrada de um lado e do outro não permite muitas clareiras. Parar junto a uma das inúmeras aldeias que se vão sucedendo é uma solução. Mas não é desejada. A sugestão do António acabamos por parar numa escola que, a cem metros da estrada, possui um logradouro óptimo. A escolha dos locais de paragem é sempre um drama. E este não foge à regra. Mas, depois de alguns amuos iniciais, já temos pão e atum em cima das carteiras da sala de aula. Esta, sem pareces, é feita em blocos de cimento. Um quadro de giz, com alguns escritos lembra-nos o local onde estamos. Alguns miúdos e mulheres mantêm-se à distância a apreciar o que fazemos. Não nos incomodam. Apenas assistem. Antes de sairmos o Victor oferece um frasco de Betadine a uma mulher que leva uma criança ao colo. Explicamos para o que serve. Ela agradece. Depois, distribuo rebuçados pelas crianças. E graúdos, também. Recebem-nos de forma ordeira. Fazem uma festa. Antes de sairmos recolhemos o lixo e limpamos tudo.Estamos, pouco depois, de volta à estrada. O António, pelos rádios dos carros, tem a sua habitual tirada: Bendito Senhor pelo alimento que nos destes. Vamos a continuar caminho. Graças Senhor. – Amem! Digo eu...O trânsito é, agora, mais intenso. Estamos a poucos quilómetros de Abomey. Motorizadas, carros, peões, bicicletas, anda tudo na estrada.O Pinto recorda o trânsito da cidade do Cairo. Sim. É semelhante. A diferença é que aqui, em vez de carros, temos um enxame de motorizadas. Olha para aquele. Passa uma motorizada com ... uma arca frigorifica no banco de trás. E ali. Um galo e uma bicicleta em cima de uma motorizada. Como ? Mas estás a ver bem ? Não te enganaste ? Olho, fixamente, para a estrada à procura da motorizada, do galo e da bicicleta. E eis que eles ali vão. Literalmente. Dois artistas em cima de uma motorizada, uma bicicleta e o galo !... Pouco depois, outro cenário inacreditável. Uma carrinha Peugeot com uma vaca no tejadilho e ... dois perus pendurados. Não. Não. Não estou a alucinar. É tal qual mente exacto o que escrevo !E eis que...o nosso carro resolve fazer greve outra vez. Estamos parados na estrada. Hoje fizemos quatrocentos quilómetros e, de repente, o rapaz pára. Filtro. Já se viu. E se for a centralina, lembra-se alguém. Não sei. Tudo é possível. A verdade é que o carro, após algum tempo de repouso, volta a funcionar. Mas hoje, para evitarmos ficar parados na estrada, a única solução é rebocá-lo. Outra vez. E no meio do transito caótico de Cotonou, a capital do Benin.A preocupação no seio do grupo é evidente. Mais uma solução de deixarmos o carro volta-se a colocar. Depois do Benin está a Nigéria e tudo o que de desconhecido se apresenta.Para já o caminho é chegarmos a Cotonou. O Casimiro estabelece contacto com o Sr. João Sequeira, representante da Mota Engil no Benin e que se disponibiliza para nos vir buscar a entrada da cidade. A preocupação do Sr. Sequeira é que não fiquemos na estrada. Para além de todo o apoio, disponibiliza-se para nos deixar ficar em casa dele. E nós, depois de mais uma longa jornada, cansados, claro está que não dizemos que não. É com alguma dificuldade que conseguimos convencê-lo que preferimos ficar nas nossas tendas em cima dos carros. A boa vontade demonstrada é total. Aproveito para dar um mergulho na piscina. Eu, o Pedro e o Miguel somos os primeiros a mergulhar. Logo depois vem os outros. Lembro-me, literalmente, na nossa chegada, dez anos atrás, na viagem à Guiné-Bissau, da chegada ao Clube de Caça do Capé, em Bafatá. A refeição é partilhada por todos. Comemos umas excelentes costeletas, preparadas pelo Richard, o cozinheiro da casa.O momento de relaxe que encontramos é precioso. Mas, amanhã, logo às oito horas, há que estar à porta da oficina. Ou se consegue reparar o carro ou a opção terá que ser deixá-lo aqui. Alguns procuram-me convencer que esta, para além da única, será a melhor solução. Se calhar. Talvez. Pode ser. Provavelmente... Sim. Eu sei. Esta paga direitos de autor. Mas, estamos em África. Previsões só nos próximos trinta segundos. Para além disso é futurologia.Teremos, igualmente, que decidir se partimos, em direcção à Nigéria, logo que o carro fique pronto. O que havia programado seria passar a fronteira para a Nigéria logo pela manhã de forma a tentar, em dois dias, estar já nos Camarões. Com a ida ao mecânico e o inevitável atraso esta terá que ser um dado a tomar em conta. O Pinto pergunta-me como vamos fazer. No stress. Manhã logo se se verá e decidirá.Certo certo é que amanhã será outro dia. Hoje, a noite ainda nos vai dar oportunidade para alguns de nós irem beber uma cervejinha num bar local. Que serve de recarga das baterias. É já tarde quando me deito.

marcar artigo