Alunos saíram-se pior a Português do que a Matemática

14-07-2010
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Estudantes não estão treinados para realizar um exercício crítico e isso está a prejudicá-los, diz associação de professores de Biologia

A nota de Matemática ultrapassou a de Português. Foi a segunda vez que aconteceu em 14 anos de exames nacionais do ensino secundário. Nas provas deste ano, cujos resultados foram ontem divulgados pelo Ministério da Educação, a média a Português ficou-se pelos 10,1 - a terceira pior média nesta disciplina desde que os exames começaram em 1997 - enquanto a de Matemática A se situou nos 10,8.

Pedro Feytor Pinto, da Associação de Professores de Português, regista o facto, mas remete para o Ministério da Educação explicações sobre as razões das "oscilações" registadas tanto ao nível das médias, como dos modelos de exame que têm sido propostos aos alunos.

"Este ano, saíram perguntas de um tipo novo", adiantou ao PÚBLICO, citando a título de exemplo a questão em que se pedia aos alunos que comentassem "a importância de Blimunda na consecução do sonho de voar" patente na obra Memorial do Convento, de José Saramago. Por comparação ao ano passado, a percentagem de reprovações subiu de quatro para seis por cento.

Feytor Pinto lembra que, ao contrário das provas de outras disciplinas, o exame de Português é realizado por todos os alunos do 12.º ano, independentemente das áreas que escolheram. Este ano, na 1.ª fase, bateu-se um recorde: realizaram a prova 66.958 alunos. Já o exame de Matemática A foi feito por 38.082. É o terceiro ano de médias positivas nesta disciplina. Ao contrário do que aconteceu noutras edições, a prova foi considerada mais equilibrada pela Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM).

Por comparação ao ano passado, a média subiu de 10 para 10,8 e a percentagem de reprovações desceu de 15 para 13 por cento. "É um bom sinal", comentou Miguel Abreu, vice-presidente da SPM, frisando que esta oscilação está longe das registadas em anos anteriores, quando as médias saltaram dois ou mais pontos, e que por isso é mais fiável. Frisa contudo que serão precisos mais anos de resultados que possam ser comparáveis antes de se poder concluir que os maus dias ficaram para trás.

Seja como for, tanto o grau de dificuldade da prova de exame proposta como os resultados obtidos continuam "muito abaixo do que seria desejável", comenta. O que levanta forçosamente a questão: os alunos voltariam a ter média positiva se o Ministério de Educação acatasse o nível de exigência requerido pela SPM?

"Nós não defendemos apenas uma mudança a nível dos exames, mas também no ensino da Matemática", responde aquele responsável. Mas Miguel Abreu lembra que os exames nacionais estabelecem standards, já que os professores trabalham nas aulas em função destes.

O exame de Matemática A é realizado pelos alunos da área de Ciências e Tecnologias. Para além deste, há mais duas provas de Matemática, uma dirigida aos estudantes de Humanidades e outra para os de Artes Visuais. E em ambas as médias foram negativas, caindo de 10,7 para 9,5 e de 10,4 para 8,7, respectivamente. Mas a nota mais baixa voltou a ser a do exame de Física e Química A, que funciona como prova de ingresso para os cursos de Medicina. A prova foi considerada com um nível de dificuldade adequado pelas associações do sector, só que a média baixou de 8,4 para 8,1.

Falta exercício crítico

Entre as cinco disciplinas com média negativa na primeira fase dos exames nacionais do secundário figura também de novo Biologia e Geologia, outra que funciona como prova para os cursos de Saúde. Com a excepção de 2008, a média nesta disciplina tem-se mantido abaixo de 10 desde há quatro anos, quando se estrearam os exames do novo programa implementado a partir de 2004. "Houve uma alteração do paradigma de avaliação. Antes pedia-se mais uma memorização de conteúdos cognitivos, agora há uma parte interpretativa que é mais avaliada", frisa João Oliveira, da Associação Portuguesa de Professores de Biologia e Geologia, que encontra aí uma razão para estes persistentes maus resultados: "Não se trata de replicar conteúdos que memorizaram. Estes exames requerem da parte dos alunos um exercício crítico para o qual não estão treinados".

Na prova houve algumas questões que suscitaram polémica e para as quais a associação chamou a atenção, mas João Oliveira considera que são "pontuais" e não justificam os resultados obtidos.

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A outra prova com média negativa foi a Geometria Descritiva, que também havia sido considerado equilibrada pela associação de professores da disciplina. Depois de Física e Química A, foi a disciplina com maior percentagem de reprovações - 17 por cento.

Dos 24 exames realizados, verifica-se uma subida de médias em 10 provas. Sete disciplinas registam uma taxa de reprovação de zero por cento, entre as quais Desenho A, Inglês e Espanhol.

Em comunicado, o Ministério da Educação sublinhou que, no conjunto, as classificações revelam "uma tendência de estabilidade dos resultados".

Estudantes não estão treinados para realizar um exercício crítico e isso está a prejudicá-los, diz associação de professores de Biologia

A nota de Matemática ultrapassou a de Português. Foi a segunda vez que aconteceu em 14 anos de exames nacionais do ensino secundário. Nas provas deste ano, cujos resultados foram ontem divulgados pelo Ministério da Educação, a média a Português ficou-se pelos 10,1 - a terceira pior média nesta disciplina desde que os exames começaram em 1997 - enquanto a de Matemática A se situou nos 10,8.

Pedro Feytor Pinto, da Associação de Professores de Português, regista o facto, mas remete para o Ministério da Educação explicações sobre as razões das "oscilações" registadas tanto ao nível das médias, como dos modelos de exame que têm sido propostos aos alunos.

"Este ano, saíram perguntas de um tipo novo", adiantou ao PÚBLICO, citando a título de exemplo a questão em que se pedia aos alunos que comentassem "a importância de Blimunda na consecução do sonho de voar" patente na obra Memorial do Convento, de José Saramago. Por comparação ao ano passado, a percentagem de reprovações subiu de quatro para seis por cento.

Feytor Pinto lembra que, ao contrário das provas de outras disciplinas, o exame de Português é realizado por todos os alunos do 12.º ano, independentemente das áreas que escolheram. Este ano, na 1.ª fase, bateu-se um recorde: realizaram a prova 66.958 alunos. Já o exame de Matemática A foi feito por 38.082. É o terceiro ano de médias positivas nesta disciplina. Ao contrário do que aconteceu noutras edições, a prova foi considerada mais equilibrada pela Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM).

Por comparação ao ano passado, a média subiu de 10 para 10,8 e a percentagem de reprovações desceu de 15 para 13 por cento. "É um bom sinal", comentou Miguel Abreu, vice-presidente da SPM, frisando que esta oscilação está longe das registadas em anos anteriores, quando as médias saltaram dois ou mais pontos, e que por isso é mais fiável. Frisa contudo que serão precisos mais anos de resultados que possam ser comparáveis antes de se poder concluir que os maus dias ficaram para trás.

Seja como for, tanto o grau de dificuldade da prova de exame proposta como os resultados obtidos continuam "muito abaixo do que seria desejável", comenta. O que levanta forçosamente a questão: os alunos voltariam a ter média positiva se o Ministério de Educação acatasse o nível de exigência requerido pela SPM?

"Nós não defendemos apenas uma mudança a nível dos exames, mas também no ensino da Matemática", responde aquele responsável. Mas Miguel Abreu lembra que os exames nacionais estabelecem standards, já que os professores trabalham nas aulas em função destes.

O exame de Matemática A é realizado pelos alunos da área de Ciências e Tecnologias. Para além deste, há mais duas provas de Matemática, uma dirigida aos estudantes de Humanidades e outra para os de Artes Visuais. E em ambas as médias foram negativas, caindo de 10,7 para 9,5 e de 10,4 para 8,7, respectivamente. Mas a nota mais baixa voltou a ser a do exame de Física e Química A, que funciona como prova de ingresso para os cursos de Medicina. A prova foi considerada com um nível de dificuldade adequado pelas associações do sector, só que a média baixou de 8,4 para 8,1.

Falta exercício crítico

Entre as cinco disciplinas com média negativa na primeira fase dos exames nacionais do secundário figura também de novo Biologia e Geologia, outra que funciona como prova para os cursos de Saúde. Com a excepção de 2008, a média nesta disciplina tem-se mantido abaixo de 10 desde há quatro anos, quando se estrearam os exames do novo programa implementado a partir de 2004. "Houve uma alteração do paradigma de avaliação. Antes pedia-se mais uma memorização de conteúdos cognitivos, agora há uma parte interpretativa que é mais avaliada", frisa João Oliveira, da Associação Portuguesa de Professores de Biologia e Geologia, que encontra aí uma razão para estes persistentes maus resultados: "Não se trata de replicar conteúdos que memorizaram. Estes exames requerem da parte dos alunos um exercício crítico para o qual não estão treinados".

Na prova houve algumas questões que suscitaram polémica e para as quais a associação chamou a atenção, mas João Oliveira considera que são "pontuais" e não justificam os resultados obtidos.

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A outra prova com média negativa foi a Geometria Descritiva, que também havia sido considerado equilibrada pela associação de professores da disciplina. Depois de Física e Química A, foi a disciplina com maior percentagem de reprovações - 17 por cento.

Dos 24 exames realizados, verifica-se uma subida de médias em 10 provas. Sete disciplinas registam uma taxa de reprovação de zero por cento, entre as quais Desenho A, Inglês e Espanhol.

Em comunicado, o Ministério da Educação sublinhou que, no conjunto, as classificações revelam "uma tendência de estabilidade dos resultados".

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