O Cachimbo de Magritte: Trichet, as finanças públicas e a crise

23-12-2009
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Como se sabe, ontem o Banco Central Europeu reduziu as taxas de juro. Em circunstâncias como as que vivemos é muito difícil avaliar com exactidão as decisões relativas à política monetária. Por uma razão simples: não se pode regressar ao momento zero e fazer outra experiência com uma decisão diferente da que foi tomada. .Ao que parece, Trichet e os seus pares conferem uma grande importância à compostura das autoridades monetárias. Tudo menos aparentar pânico. Isso não quer dizer que as críticas que se têm sucedido ao comportamento do BCE, e às suas frias palavras, sejam disparatadas. Muitas delas fazem bastante sentido. Mas é preciso perceber que um banqueiro central está sujeito a regras discursivas diferentes das que se espera de um outro tipo de agente. O banqueiro central tem de transmitir credibilidade, o que implica que não pode mentir; mas tem de transmitir também confiança, bem este que no momento actual também se pauta pela escassez. Numa crise como a que vivemos hoje, o banqueiro central é como o responsável por uma casa em chamas que comunica pausadamente e com serenidade que "o fogo está controlado". Talvez o fogo não esteja controlado. Mas há a possibilidade o vir a controlar. Ora se o banqueiro central disser que o fogo passou para o ponto da calamidade, então todos aqueles que o escutam desertarão e não estarão disponíveis para ajudar a apagá-lo..As dúvidas subsistem: estarão as taxas de juro da zona Euro ainda excessivamente elevadas? Bernanke e os seus pares provavelmente responderiam afirmativamente. Mas Bernanke pode apostar na articulação com um orçamento federal, e Trichet não. Como Trichet afirmou na conferência de imprensa de ontem, as finanças públicas de certos países da União Europeia estão a pisar o risco da catástrofe. Falar de sustentabilidade das finanças públicas quando a economia está em ruínas pode parecer excêntrico. Mas não percebo como é que a crise actual pode ser combatida com maior eficácia se experimentarmos colapsos sucessivos das finanças públicas dos Estados-Membros. .Talvez os nossos tempos sirvam de lição e nos ajudem a julgar os governos de por toda a Europa que, em tempos de crescimento, se entretiveram a aumentar a despesa pública e a agravar os défices orçamentais. Em tempos de prosperidade esbanjaram irresponsavelmente os recursos que agora fazem falta. Trata-se do reflexo ou da miopia incompetente de quem nos governou (na Europa, para não pensarem que falo só de Portugal) nos últimos 15 anos - anos de crescimento -, ou da auto-confiança soberba de quem pensava que nada de mal - calamidades naturais, guerras, crises económicas graves - poderia acontecer ao nosso mundinho protegido. Mas os nossos tempos também têm de servir de lição para nos ajudar a julgar as nossas "opiniões públicas" e eleitorados que facilmente se deixam seduzir pelas promessas redentoras do aumento dos gastos do Estado e de défices sucessivos. Talvez ajudem a julgar mais rigorosamente os que denunciavam com muito sentimento humanitário que havia "mais vida para além do défice".


Como se sabe, ontem o Banco Central Europeu reduziu as taxas de juro. Em circunstâncias como as que vivemos é muito difícil avaliar com exactidão as decisões relativas à política monetária. Por uma razão simples: não se pode regressar ao momento zero e fazer outra experiência com uma decisão diferente da que foi tomada. .Ao que parece, Trichet e os seus pares conferem uma grande importância à compostura das autoridades monetárias. Tudo menos aparentar pânico. Isso não quer dizer que as críticas que se têm sucedido ao comportamento do BCE, e às suas frias palavras, sejam disparatadas. Muitas delas fazem bastante sentido. Mas é preciso perceber que um banqueiro central está sujeito a regras discursivas diferentes das que se espera de um outro tipo de agente. O banqueiro central tem de transmitir credibilidade, o que implica que não pode mentir; mas tem de transmitir também confiança, bem este que no momento actual também se pauta pela escassez. Numa crise como a que vivemos hoje, o banqueiro central é como o responsável por uma casa em chamas que comunica pausadamente e com serenidade que "o fogo está controlado". Talvez o fogo não esteja controlado. Mas há a possibilidade o vir a controlar. Ora se o banqueiro central disser que o fogo passou para o ponto da calamidade, então todos aqueles que o escutam desertarão e não estarão disponíveis para ajudar a apagá-lo..As dúvidas subsistem: estarão as taxas de juro da zona Euro ainda excessivamente elevadas? Bernanke e os seus pares provavelmente responderiam afirmativamente. Mas Bernanke pode apostar na articulação com um orçamento federal, e Trichet não. Como Trichet afirmou na conferência de imprensa de ontem, as finanças públicas de certos países da União Europeia estão a pisar o risco da catástrofe. Falar de sustentabilidade das finanças públicas quando a economia está em ruínas pode parecer excêntrico. Mas não percebo como é que a crise actual pode ser combatida com maior eficácia se experimentarmos colapsos sucessivos das finanças públicas dos Estados-Membros. .Talvez os nossos tempos sirvam de lição e nos ajudem a julgar os governos de por toda a Europa que, em tempos de crescimento, se entretiveram a aumentar a despesa pública e a agravar os défices orçamentais. Em tempos de prosperidade esbanjaram irresponsavelmente os recursos que agora fazem falta. Trata-se do reflexo ou da miopia incompetente de quem nos governou (na Europa, para não pensarem que falo só de Portugal) nos últimos 15 anos - anos de crescimento -, ou da auto-confiança soberba de quem pensava que nada de mal - calamidades naturais, guerras, crises económicas graves - poderia acontecer ao nosso mundinho protegido. Mas os nossos tempos também têm de servir de lição para nos ajudar a julgar as nossas "opiniões públicas" e eleitorados que facilmente se deixam seduzir pelas promessas redentoras do aumento dos gastos do Estado e de défices sucessivos. Talvez ajudem a julgar mais rigorosamente os que denunciavam com muito sentimento humanitário que havia "mais vida para além do défice".

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