O Cachimbo de Magritte: Opressão intelectual

18-12-2009
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Vale muito a pena ler este post do João Galamba. Nele encontramos um conjunto de vícios muito reveladores do clima de opressão intelectual que tem acompanhado o debate em curso sobre o casamento e adopção homossexual.O primeiro dos vícios intelectuais a considerar é a perda de contacto com a realidade. O que a realidade nos mostra, de modo imediato, bastando para isso ter os olhos abertos, é que as crianças têm uma mãe e um pai. A filiação natural é o primeiro e fundamental acto no teatro da existência humana. Apenas secundariamente, mediante a tragédia da orfandade ou do abandono, do pai ou da mãe de aluguer, da geração assistida artificialmente, pode a realidade dar-nos a ver a filiação homossexual. O João Galamba manifesta uma preocupante perda de contacto com a realidade quando exige dos defensores da filiação natural e críticos da filiação homossexual a justificação das suas posições, ao mesmo tempo que toma como auto-evidente a sua própria posição de defesa da filiação homossexual. Infelizmente, para ele e para a posição insustentável que pretende defender, a única coisa que é realmente auto-evidente são as limitações da filiação homossexual quando comparadas com a plenitude da filiação natural.O segundo vício intelectual é a proibição de perguntar. O João Galamba perdeu o contacto com a realidade quando, motivado pelo propósito de tornar possível um argumento favorável às suas ilegítimas reivindicações, dela excluiu voluntariamente uma das suas partes fundamentais. No caso do casamento e adopção homossexual, a parte excluída é a natureza. A natureza não é, como bem sabemos, uma parte irrelevante da realidade. A descoberta da natureza está na origem de uma das actividades superiores desenvolvidas pelos homens: a filosofia e/ou ciência. Seria razoável que o debate em curso sobre o casamento e adopção homossexual não dispensasse o auxílio da filosofia e/ou ciência e o recurso à natureza para chegar às suas conclusões. Infelizmente, a preocupação crescente com a natureza, que um pouco por todo o mundo se vai materializando na defesa do ambiente e dos recursos do planeta que habitamos, não tem o seu paralelo na defesa da dualidade, mulher e homem, que permeia a existência humana. A pergunta pela natureza é uma questão proibida e o João Galamba eleva a autoridade máxima o princípio da não exclusão (no post: a não exclusão dos homossexuais da possibilidade da adopção). É claro que eu não descarto à partida o princípio da não exclusão, podendo justamente ser examinado e testado, mas denuncio vivamente o clima de opressão intelectual que ridiculariza e expulsa do espaço público quem põe em causa a bondade do casamento e adopção gay através do recurso a uma vasta herança filosófica e/ou científica fundada na natureza. O João Galamba fala no seu post de “preconceitos”, “irracionalismos”, “arbitrariedades”, como se os defensores do casamento e filiação natural fossem – para além de perigosos homofóbicos – um conjunto de atrasados (leia-se: conservadores, reaccionários, arcaicos), alimentados apenas por preconceitos sem qualquer fundamento racional.O terceiro vício intelectual é a banalização da linguagem. É evidente que quando as palavras “casamento” e “filiação”, desde sempre associadas à experiência familiar tradicional, começam a ser usadas para evocar outro tipo de experiências ditas familiares, o resultado é uma crescente dificuldade de comunicação entre as pessoas. O diálogo intelectual pressupõe a determinação clara daquilo que é igual e desigual. Tratar de forma igual aquilo que é desigual obscurece o sentido preciso das experiências que pretendemos evocar e redunda em injustiça. A perda do contacto com a realidade é uma consequência lógica da banalização da linguagem. O post do João Galamba decai neste vício intelectual quando cede à tentação de enunciar o papão da homofobia como sendo a pedra de toque de todos os argumentos contra a filiação homossexual, excepto aquele que aconselha prudência e chama a atenção para a necessidade de se considerar as suas implicações para as crianças. O maior perigo da vulgarização da linguagem, da ampliação ilimitada das experiências evocadas pelas palavras, é o da suspeição: se qualquer experiência dita familiar constitui um casamento, se qualquer experiência dita parental constitui a filiação, se qualquer argumento contra o casamento e adopção homossexual constitui um argumento homofóbico, então o casamento, a filiação e a homofobia deixam de ter qualquer significado preciso. A insistência em dar às palavras o significado que se quiser, independentemente do seu sentido original, é a forma de poder que os protagonistas da opressão intelectual elegem para não terem de submeter as suas posições à crítica racional.É inadmissível que uma questão tão séria como o casamento e a filiação homossexual esteja a ser tão mal discutida no espaço público e sob a ameaça nada democrática da opressão intelectual. Não é por mero acaso que escolho o post do João Galamba como exemplo paradigmático do clima de opinião que nos envolve actualmente. Os mesmíssimos vícios estiveram patentes no Prós & Contras de anteontem e podem ser encontrados um pouco por todo o lado. Escolhi o post do João Galamba por causa do que ele escreveu mas também por ter sido ele o autor. Apesar de muito raramente concordar com o que o João Galamba escreve, sempre gostei de o ler, muito por causa do seu gosto pela discussão filosófica e da sua capacidade para se subtrair ao ataque irracional e ideologicamente determinado que o Jugular faz a algumas das mais relevantes conquistas culturais da humanidade. Que uma pessoa como o João Galamba tenha sucumbido, em menos de nada, aos vício intelectuais que aqui tentei descrever, é apenas mais um sintoma da gravidade do clima de opressão intelectual que nos envolve e um alerta para a necessidade de ser urgentemente combatido e derrotado.Nota final: a "perda do contacto com a realidade", a "proibição de perguntar" e a "banalização da linguagem" não são categorias de minha autoria; foram amplamente tratadas por um célebre filósofo político do século passado para denunciar alguns dos principais problemas associados à emergência do Nacional Socialismo na Alemanha da década de 30 e ao domínio do Marxismo nas universidades alemãs da década de 60.


Vale muito a pena ler este post do João Galamba. Nele encontramos um conjunto de vícios muito reveladores do clima de opressão intelectual que tem acompanhado o debate em curso sobre o casamento e adopção homossexual.O primeiro dos vícios intelectuais a considerar é a perda de contacto com a realidade. O que a realidade nos mostra, de modo imediato, bastando para isso ter os olhos abertos, é que as crianças têm uma mãe e um pai. A filiação natural é o primeiro e fundamental acto no teatro da existência humana. Apenas secundariamente, mediante a tragédia da orfandade ou do abandono, do pai ou da mãe de aluguer, da geração assistida artificialmente, pode a realidade dar-nos a ver a filiação homossexual. O João Galamba manifesta uma preocupante perda de contacto com a realidade quando exige dos defensores da filiação natural e críticos da filiação homossexual a justificação das suas posições, ao mesmo tempo que toma como auto-evidente a sua própria posição de defesa da filiação homossexual. Infelizmente, para ele e para a posição insustentável que pretende defender, a única coisa que é realmente auto-evidente são as limitações da filiação homossexual quando comparadas com a plenitude da filiação natural.O segundo vício intelectual é a proibição de perguntar. O João Galamba perdeu o contacto com a realidade quando, motivado pelo propósito de tornar possível um argumento favorável às suas ilegítimas reivindicações, dela excluiu voluntariamente uma das suas partes fundamentais. No caso do casamento e adopção homossexual, a parte excluída é a natureza. A natureza não é, como bem sabemos, uma parte irrelevante da realidade. A descoberta da natureza está na origem de uma das actividades superiores desenvolvidas pelos homens: a filosofia e/ou ciência. Seria razoável que o debate em curso sobre o casamento e adopção homossexual não dispensasse o auxílio da filosofia e/ou ciência e o recurso à natureza para chegar às suas conclusões. Infelizmente, a preocupação crescente com a natureza, que um pouco por todo o mundo se vai materializando na defesa do ambiente e dos recursos do planeta que habitamos, não tem o seu paralelo na defesa da dualidade, mulher e homem, que permeia a existência humana. A pergunta pela natureza é uma questão proibida e o João Galamba eleva a autoridade máxima o princípio da não exclusão (no post: a não exclusão dos homossexuais da possibilidade da adopção). É claro que eu não descarto à partida o princípio da não exclusão, podendo justamente ser examinado e testado, mas denuncio vivamente o clima de opressão intelectual que ridiculariza e expulsa do espaço público quem põe em causa a bondade do casamento e adopção gay através do recurso a uma vasta herança filosófica e/ou científica fundada na natureza. O João Galamba fala no seu post de “preconceitos”, “irracionalismos”, “arbitrariedades”, como se os defensores do casamento e filiação natural fossem – para além de perigosos homofóbicos – um conjunto de atrasados (leia-se: conservadores, reaccionários, arcaicos), alimentados apenas por preconceitos sem qualquer fundamento racional.O terceiro vício intelectual é a banalização da linguagem. É evidente que quando as palavras “casamento” e “filiação”, desde sempre associadas à experiência familiar tradicional, começam a ser usadas para evocar outro tipo de experiências ditas familiares, o resultado é uma crescente dificuldade de comunicação entre as pessoas. O diálogo intelectual pressupõe a determinação clara daquilo que é igual e desigual. Tratar de forma igual aquilo que é desigual obscurece o sentido preciso das experiências que pretendemos evocar e redunda em injustiça. A perda do contacto com a realidade é uma consequência lógica da banalização da linguagem. O post do João Galamba decai neste vício intelectual quando cede à tentação de enunciar o papão da homofobia como sendo a pedra de toque de todos os argumentos contra a filiação homossexual, excepto aquele que aconselha prudência e chama a atenção para a necessidade de se considerar as suas implicações para as crianças. O maior perigo da vulgarização da linguagem, da ampliação ilimitada das experiências evocadas pelas palavras, é o da suspeição: se qualquer experiência dita familiar constitui um casamento, se qualquer experiência dita parental constitui a filiação, se qualquer argumento contra o casamento e adopção homossexual constitui um argumento homofóbico, então o casamento, a filiação e a homofobia deixam de ter qualquer significado preciso. A insistência em dar às palavras o significado que se quiser, independentemente do seu sentido original, é a forma de poder que os protagonistas da opressão intelectual elegem para não terem de submeter as suas posições à crítica racional.É inadmissível que uma questão tão séria como o casamento e a filiação homossexual esteja a ser tão mal discutida no espaço público e sob a ameaça nada democrática da opressão intelectual. Não é por mero acaso que escolho o post do João Galamba como exemplo paradigmático do clima de opinião que nos envolve actualmente. Os mesmíssimos vícios estiveram patentes no Prós & Contras de anteontem e podem ser encontrados um pouco por todo o lado. Escolhi o post do João Galamba por causa do que ele escreveu mas também por ter sido ele o autor. Apesar de muito raramente concordar com o que o João Galamba escreve, sempre gostei de o ler, muito por causa do seu gosto pela discussão filosófica e da sua capacidade para se subtrair ao ataque irracional e ideologicamente determinado que o Jugular faz a algumas das mais relevantes conquistas culturais da humanidade. Que uma pessoa como o João Galamba tenha sucumbido, em menos de nada, aos vício intelectuais que aqui tentei descrever, é apenas mais um sintoma da gravidade do clima de opressão intelectual que nos envolve e um alerta para a necessidade de ser urgentemente combatido e derrotado.Nota final: a "perda do contacto com a realidade", a "proibição de perguntar" e a "banalização da linguagem" não são categorias de minha autoria; foram amplamente tratadas por um célebre filósofo político do século passado para denunciar alguns dos principais problemas associados à emergência do Nacional Socialismo na Alemanha da década de 30 e ao domínio do Marxismo nas universidades alemãs da década de 60.

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