Comentários em: Se calhar sou eu que sou maluquinho, mas estas merdas assustam-me

27-01-2011
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(1) Nem todas as “experiencias” requerem intencionalidade / consciencia (nao obstante essa ser uma – ou a – marca fundamental do ser humano);

(2) Damasio tende a “autonomizar” a sua (digamos que) “area de investigacao”, o que em si mesmo nao e’ pornografico. O problema esta’ nele pretender (porventura de forma inconsciente, resultante de alguma ignorancia ou falta de entendimento de certas ideias fundamentais sobre o caracter transcendente de alguns “elementos” [eis um termo cientifico e a-holitico usado liberalmente aqui so’ para te chatear] deste problema; ou de forma consciente, resultante de discordancia sobre a qual pouco elabora) ser isso “suficiente” para tecer juizos que ultrapassam em muito o dominio – importante – das reaccoes neurologicas, dos micro-fenemenos onde uma analise “causa-efeito” pode ser util, ainda que nao seja suficiente para entender o fenomeno estudado, desde logo porque um “fenomeno” porventura requer um entendimento X, etc e tal, isso esta’ subentendido.

Tudo isto deriva tambem para uma discussao conceptual que nao sei se interessa muito ao Damasio, e nao sei se teria de interessar – se ele fosse um pouco mais humilde. O problema esta’ nele, por vezes, como outros neurocientistas, exagerar ou descuidar na forma como “comunica” e “apresenta” resultados da sua investigacao. Nevertheless, caro Joao, se passares os olhos (por exemplo) pela revista Scientific American Mind, acho que encontraras resultados interessantes *e* comunicados de forma localizada, sem pretender resumir o fenomeno a uma observacao essencialmente neurologica.

Dou-te um exemplo: o facto de uma pessoa lembrar com maior facilidade caras de pessoas que sorri(r)am. A explicacao evolucionaria e’ simples: a memoria selectiva de pessoas que parecam mais “kind towards us” releva para a nossa sobrevivencia. Repara que isto nao implica qualquer juizo sobre porque e’ que alguem sorri perante outro. Apenas se comparam os resultados de memorizacao de caras sorridentes ou nao sorridentes.

Outro exemplo, tambem da ultima edicao dessa revista, talvez ainda mais interessante, sobre o papel dos estereotipos mais profundos em cada um de nos. Perante uma imagem que aparece durante muito pouco tempo, existe um diferencial de reaccao neurologico perante uma cara de um branco e de um negro a olhar directamente para nos: a cara de um negro suscita uma reaccao neurologica associada a medo, etc (estou a resumir para nao me alongar muito). Contudo, se a fotografia aparecer durante um tempo nao demasiado curto, as diferencas esbatem-se: aqui da-se lugar ao “consciente”, e o preconceito sub-consciente tem menos peso. Tambem se registam diferencas interessantes a nivel neurologico (activacao de uma regiao do cerebro associada ao sentimento de inseguranca) se as fotografias NAO estiverem a olhar de frente, mas de lado.

(Espero que nao haja por ai um leitor idiota que me venha acusar de racismo – compre a revista e va’ bugiar in advance, obrigado!).

No fundo, eu quero acreditar que tu ate’ das “algum” valor a este tipo de “micro-experiencias” e “micro-conhecimento”, embora tenhas dificuldade em nao sacar de artilharia pesada para “contextualizar” isto, dizer que “cuidado, nao pode ser so’ isso”, etc, e isso eu ate’ percebo. Mas cuidado que isso excesso leva-te ao ceu… e a uma atitude obscura, anti-cientifica, que na pratica resulta num total dismissing of science as a – one of – potential source of knowledge.

(3) “Para Damásio, ver um quadro de Goya, ler, conversar, ou o que quer que seja, são sobretudo coisas que se passam dentro do nosso corpo.”

A questao esta’ neste “sobretudo”. O Damasio nao e’ filosofio e, como neurocientista, interessa-se “sobretudo” por “este” aspecto destas complexas questoes. Nao sei se por ignorancia, desentendimento ou discordancia, ele tem (do pouco que li dele) uma atitude que poderia ser mais humilde relativamente ‘a “dimensao” das suas descobertas, nomeadamente ‘a forma como lhes da’ sentido no contexto mais vasto da vivencia humana (ao inves do tal micro-acontecimento, tipo “como chocolate, hormona X e’ libertada, logo, o chocolate pode substituir o amor”.

(4) “Na dedução transcendental (Crítica da Razão Pura), Kant diz que nós não observamos a consciência; ela é aquilo que nos permite obervar e ter uma experiência unificada do mundo.”

A consciencia nao e’ necessaria para podermos “observar” o que quer que seja – mas talvez para fazermos “sentido” desse observar, nomeadamente para fazer uma “observacao” (aqui implicando um uso da linguagem). Uma leoa “observa” um antilope antes de iniciar uma cacada – podemos dizer isto, ou nao? E sera’ ela consciente? Podemos dizer que nos (humanos) “experimentamos” / “vivenciamos” essa consciencia, ou nao? Nao a “observamos” no sentido de que ela nao e’ “dettachable”, mas “vigiamo-la”, sendo parte dela, fair enough. Isto significa que ela não é “totalmente” objectificável, pois é algo sempre pressuposto na observação de o que quer que seja. Mas nao significa que nao seja “cada vez mais” *estudavel*, “ate’ *objectivavel*.

Face ao que escreveu o Luis Rainha:

“O não-distanciamento pode fazer parte inextrincável da subjectividade própria, mas não da alheia: o subjectivo do outro poderá um dia ser objectivo para o observador externo. Não sei como nem quando, mas desconfio que mais vai ser aprendido sobre a consciência humana em laboratórios do que em bibliotecas onde se remastigam as objecções do venerando Kant.”

Declaro-me neste aspecto 70% Rainha, 30% Galamba.

(5) ““Referir a” destroi a noção de consciência que Damásio pressupõe, porque ela só existe numa relação constitutiva com o mundo. A consciência não é uma interioridade, mas é, na sua identidade constitutiva, essencialmente algo que aponta para fora de si, e isto Damásio nunca entenderá enquanto se mantiver dentro do paradigma objectificante que pressupõe em todas as suas investigações.”

Isto faz-me lembrar a afirmacao popular (alguem a pode confirmar ou desconfirmar? Suspeito que e’ um “boato” continuado…) de que Einstein tera’ dito que os humanos apenas conseguem usar 10% da capacidade cerebral que tem. Ora, se apenas conseguem usar 10%, que sentido faz considerar os 100% como relevantes? Se nao servem para nada…

Voltando ao teu ponto: temos essa “relacao constitutiva com o mundo”, muito bem. Acho que o Damasio devia falar disso em todos os prefacios dos seus livros cientificos (estou a falar a serio). Mas, depois desse (com todo o respeito) “disclaimer”, nao devemos partir ‘a busca de mais conhecimento? E’ que ficar apenas a remoer o Kant nao honra, digo eu, o fim ultimo da Filosofia…

(Nao se deduza daqui que o que o Damasio faz o honra mais.)

(6) Quanto a “humildades” e afins, recordo apenas que muitos pensadores mudaram radicalmente de opiniao ao longo da vida, Witt., Nozick, e por ai fora. O Witt., em particular, que achava que tinha “descoberto a solucao para todos os problemas filosoficos” e desistiu de tudo, para mais tarde voltar com “novas solucoes”, de qualquer modo ainda soberbamente “misticas” – no sentido de construirem um novo mundo, uma nova forma de entender “tudo” o que nos envolve -, e’ um exemplo a reter…

Daqui a 30 anos falamos, Mr. Mystic �

(7) Ezequiel, controla-te, homem! E’ uma ordem! �

Abracos,

Ler um livro é na realidade uma reacção físico-química. O que ele não percebe é que um livro não é uma simples causa a nossa experiência, mas algo intendido nela, algo constitutivo dessa mesma experiência. A intencionalidade da experiência foi algo introduzido por Kant na sua Crítica da Razão Pura (que Damásio ou não leu ou não entendeu) e desenvolvido por outros como Husserl, e depois radicalizado por Heidegger no seu livro Ser e Tempo.

(1) Nem todas as “experiencias” requerem intencionalidade / consciencia (nao obstante essa ser uma – ou a – marca fundamental do ser humano);

(2) Damasio tende a “autonomizar” a sua (digamos que) “area de investigacao”, o que em si mesmo nao e’ pornografico. O problema esta’ nele pretender (porventura de forma inconsciente, resultante de alguma ignorancia ou falta de entendimento de certas ideias fundamentais sobre o caracter transcendente de alguns “elementos” [eis um termo cientifico e a-holitico usado liberalmente aqui so’ para te chatear] deste problema; ou de forma consciente, resultante de discordancia sobre a qual pouco elabora) ser isso “suficiente” para tecer juizos que ultrapassam em muito o dominio – importante – das reaccoes neurologicas, dos micro-fenemenos onde uma analise “causa-efeito” pode ser util, ainda que nao seja suficiente para entender o fenomeno estudado, desde logo porque um “fenomeno” porventura requer um entendimento X, etc e tal, isso esta’ subentendido.

Tudo isto deriva tambem para uma discussao conceptual que nao sei se interessa muito ao Damasio, e nao sei se teria de interessar – se ele fosse um pouco mais humilde. O problema esta’ nele, por vezes, como outros neurocientistas, exagerar ou descuidar na forma como “comunica” e “apresenta” resultados da sua investigacao. Nevertheless, caro Joao, se passares os olhos (por exemplo) pela revista Scientific American Mind, acho que encontraras resultados interessantes *e* comunicados de forma localizada, sem pretender resumir o fenomeno a uma observacao essencialmente neurologica.

Dou-te um exemplo: o facto de uma pessoa lembrar com maior facilidade caras de pessoas que sorri(r)am. A explicacao evolucionaria e’ simples: a memoria selectiva de pessoas que parecam mais “kind towards us” releva para a nossa sobrevivencia. Repara que isto nao implica qualquer juizo sobre porque e’ que alguem sorri perante outro. Apenas se comparam os resultados de memorizacao de caras sorridentes ou nao sorridentes.

Outro exemplo, tambem da ultima edicao dessa revista, talvez ainda mais interessante, sobre o papel dos estereotipos mais profundos em cada um de nos. Perante uma imagem que aparece durante muito pouco tempo, existe um diferencial de reaccao neurologico perante uma cara de um branco e de um negro a olhar directamente para nos: a cara de um negro suscita uma reaccao neurologica associada a medo, etc (estou a resumir para nao me alongar muito). Contudo, se a fotografia aparecer durante um tempo nao demasiado curto, as diferencas esbatem-se: aqui da-se lugar ao “consciente”, e o preconceito sub-consciente tem menos peso. Tambem se registam diferencas interessantes a nivel neurologico (activacao de uma regiao do cerebro associada ao sentimento de inseguranca) se as fotografias NAO estiverem a olhar de frente, mas de lado.

(Espero que nao haja por ai um leitor idiota que me venha acusar de racismo – compre a revista e va’ bugiar in advance, obrigado!).

No fundo, eu quero acreditar que tu ate’ das “algum” valor a este tipo de “micro-experiencias” e “micro-conhecimento”, embora tenhas dificuldade em nao sacar de artilharia pesada para “contextualizar” isto, dizer que “cuidado, nao pode ser so’ isso”, etc, e isso eu ate’ percebo. Mas cuidado que isso excesso leva-te ao ceu… e a uma atitude obscura, anti-cientifica, que na pratica resulta num total dismissing of science as a – one of – potential source of knowledge.

(3) “Para Damásio, ver um quadro de Goya, ler, conversar, ou o que quer que seja, são sobretudo coisas que se passam dentro do nosso corpo.”

A questao esta’ neste “sobretudo”. O Damasio nao e’ filosofio e, como neurocientista, interessa-se “sobretudo” por “este” aspecto destas complexas questoes. Nao sei se por ignorancia, desentendimento ou discordancia, ele tem (do pouco que li dele) uma atitude que poderia ser mais humilde relativamente ‘a “dimensao” das suas descobertas, nomeadamente ‘a forma como lhes da’ sentido no contexto mais vasto da vivencia humana (ao inves do tal micro-acontecimento, tipo “como chocolate, hormona X e’ libertada, logo, o chocolate pode substituir o amor”.

(4) “Na dedução transcendental (Crítica da Razão Pura), Kant diz que nós não observamos a consciência; ela é aquilo que nos permite obervar e ter uma experiência unificada do mundo.”

A consciencia nao e’ necessaria para podermos “observar” o que quer que seja – mas talvez para fazermos “sentido” desse observar, nomeadamente para fazer uma “observacao” (aqui implicando um uso da linguagem). Uma leoa “observa” um antilope antes de iniciar uma cacada – podemos dizer isto, ou nao? E sera’ ela consciente? Podemos dizer que nos (humanos) “experimentamos” / “vivenciamos” essa consciencia, ou nao? Nao a “observamos” no sentido de que ela nao e’ “dettachable”, mas “vigiamo-la”, sendo parte dela, fair enough. Isto significa que ela não é “totalmente” objectificável, pois é algo sempre pressuposto na observação de o que quer que seja. Mas nao significa que nao seja “cada vez mais” *estudavel*, “ate’ *objectivavel*.

Face ao que escreveu o Luis Rainha:

“O não-distanciamento pode fazer parte inextrincável da subjectividade própria, mas não da alheia: o subjectivo do outro poderá um dia ser objectivo para o observador externo. Não sei como nem quando, mas desconfio que mais vai ser aprendido sobre a consciência humana em laboratórios do que em bibliotecas onde se remastigam as objecções do venerando Kant.”

Declaro-me neste aspecto 70% Rainha, 30% Galamba.

(5) ““Referir a” destroi a noção de consciência que Damásio pressupõe, porque ela só existe numa relação constitutiva com o mundo. A consciência não é uma interioridade, mas é, na sua identidade constitutiva, essencialmente algo que aponta para fora de si, e isto Damásio nunca entenderá enquanto se mantiver dentro do paradigma objectificante que pressupõe em todas as suas investigações.”

Isto faz-me lembrar a afirmacao popular (alguem a pode confirmar ou desconfirmar? Suspeito que e’ um “boato” continuado…) de que Einstein tera’ dito que os humanos apenas conseguem usar 10% da capacidade cerebral que tem. Ora, se apenas conseguem usar 10%, que sentido faz considerar os 100% como relevantes? Se nao servem para nada…

Voltando ao teu ponto: temos essa “relacao constitutiva com o mundo”, muito bem. Acho que o Damasio devia falar disso em todos os prefacios dos seus livros cientificos (estou a falar a serio). Mas, depois desse (com todo o respeito) “disclaimer”, nao devemos partir ‘a busca de mais conhecimento? E’ que ficar apenas a remoer o Kant nao honra, digo eu, o fim ultimo da Filosofia…

(Nao se deduza daqui que o que o Damasio faz o honra mais.)

(6) Quanto a “humildades” e afins, recordo apenas que muitos pensadores mudaram radicalmente de opiniao ao longo da vida, Witt., Nozick, e por ai fora. O Witt., em particular, que achava que tinha “descoberto a solucao para todos os problemas filosoficos” e desistiu de tudo, para mais tarde voltar com “novas solucoes”, de qualquer modo ainda soberbamente “misticas” – no sentido de construirem um novo mundo, uma nova forma de entender “tudo” o que nos envolve -, e’ um exemplo a reter…

Daqui a 30 anos falamos, Mr. Mystic �

(7) Ezequiel, controla-te, homem! E’ uma ordem! �

Abracos,

Ler um livro é na realidade uma reacção físico-química. O que ele não percebe é que um livro não é uma simples causa a nossa experiência, mas algo intendido nela, algo constitutivo dessa mesma experiência. A intencionalidade da experiência foi algo introduzido por Kant na sua Crítica da Razão Pura (que Damásio ou não leu ou não entendeu) e desenvolvido por outros como Husserl, e depois radicalizado por Heidegger no seu livro Ser e Tempo.

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