Cravo de Abril: Bonito, muito bonito...

23-12-2009
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José Neves, camarada:Não comentei o texto do Manuel Alegre no sitio ao comentário destinado. Não, não o fiz. Não que ao fazê-lo aqui queira a atenção deslocada ao local que lhe era devida. Não fosse falar do homem que vou falar e o comentário ao teu texto "de pés descalços" seria feito no sitio a ele destinado. Mas, atrevo-me, e venho aqui dizer-te que conheço um homem de quem quero falar-te. Também o conheces, ainda que não saiba eu se deste pormenor saibas a essência. O homem de que te falo foi menino nos anos de 1950. Andou à escola nas Cortes, ao pé de Leiria, onde, no intervalo dos ensinamentos, se dedicava a ser criança num país de trevas e fomes e jogava à bola. Para que o fizesse sem molestar os pés descalços dos colegas e amigos pobres, este menino descalçava-se a caminho da escola, escondia as botas do seu privilégio de filho da pequena burguesia, e corria as horas dos dias na mesma condição dos amigos. pés frios no chão inflamado pela pobreza dos homens. Este menino, já rapaz feito, nunca calçou as botas enquanto todos os meninos da sua terra o não puderam imitar. às escondidas da mãe - nenhuma mãe quer os pés dos filhos rotos e ensaguentados pelos caminhos! - este menino fez-se homem sempre que escondia as botas nalgum buraco, até à noite, até ao regresso a casa - já calçado. Este menino, já rapaz e no colégio, foi várias vezes apanhado a distribuir propaganda comunista. Livros vermelhos. Sonhos em construção. Este menino fez-se rapaz. Cada vez que era apanhado em tais actividades revolucionárias, o castigo era sempre o mesmo... Correr descalço à volta do colégio, por cima de silvas, urze, tojo... mato. Se o mandavam dar duas voltas, em homenagem aos calos criados enquanto menino a jogar descalço com os amigos pobres - na verdade da sua classe, pois era lá que se encontrava o seu coração - este menino rapaz dava antes quatro ou cinco voltas, era até à exaustão. Das janelas dos seus quartos, das salas do colégio, os amigos - os mesmos da bola! - gritavam«Manel Faria, manel faria MANEL FARIA». Era a homenagem que lhe faziam na sua coragem. Manuel Faria era um célebre atleta na altura. Este menino era rapaz. E revolucionário. Nas pequenas coisas de criança e nas maiores, como se veio a comprovar pela educação que deu aos seus filhos. Este menino de pés descalços ainda hoje é conhecido por muitos em Leiria - seus amigos - por Manuel Faria. Este menino cresceu. Casou. Teve filhos. Este menino é hoje homem. Chama-se António Galamba (ou Manuel Faria) e é meu pai. para ele o meu grito, desta minha janela de Aljustrel: MANUEL FARIA, MANUEL FARIA, MANUEL FARIA...


José Neves, camarada:Não comentei o texto do Manuel Alegre no sitio ao comentário destinado. Não, não o fiz. Não que ao fazê-lo aqui queira a atenção deslocada ao local que lhe era devida. Não fosse falar do homem que vou falar e o comentário ao teu texto "de pés descalços" seria feito no sitio a ele destinado. Mas, atrevo-me, e venho aqui dizer-te que conheço um homem de quem quero falar-te. Também o conheces, ainda que não saiba eu se deste pormenor saibas a essência. O homem de que te falo foi menino nos anos de 1950. Andou à escola nas Cortes, ao pé de Leiria, onde, no intervalo dos ensinamentos, se dedicava a ser criança num país de trevas e fomes e jogava à bola. Para que o fizesse sem molestar os pés descalços dos colegas e amigos pobres, este menino descalçava-se a caminho da escola, escondia as botas do seu privilégio de filho da pequena burguesia, e corria as horas dos dias na mesma condição dos amigos. pés frios no chão inflamado pela pobreza dos homens. Este menino, já rapaz feito, nunca calçou as botas enquanto todos os meninos da sua terra o não puderam imitar. às escondidas da mãe - nenhuma mãe quer os pés dos filhos rotos e ensaguentados pelos caminhos! - este menino fez-se homem sempre que escondia as botas nalgum buraco, até à noite, até ao regresso a casa - já calçado. Este menino, já rapaz e no colégio, foi várias vezes apanhado a distribuir propaganda comunista. Livros vermelhos. Sonhos em construção. Este menino fez-se rapaz. Cada vez que era apanhado em tais actividades revolucionárias, o castigo era sempre o mesmo... Correr descalço à volta do colégio, por cima de silvas, urze, tojo... mato. Se o mandavam dar duas voltas, em homenagem aos calos criados enquanto menino a jogar descalço com os amigos pobres - na verdade da sua classe, pois era lá que se encontrava o seu coração - este menino rapaz dava antes quatro ou cinco voltas, era até à exaustão. Das janelas dos seus quartos, das salas do colégio, os amigos - os mesmos da bola! - gritavam«Manel Faria, manel faria MANEL FARIA». Era a homenagem que lhe faziam na sua coragem. Manuel Faria era um célebre atleta na altura. Este menino era rapaz. E revolucionário. Nas pequenas coisas de criança e nas maiores, como se veio a comprovar pela educação que deu aos seus filhos. Este menino de pés descalços ainda hoje é conhecido por muitos em Leiria - seus amigos - por Manuel Faria. Este menino cresceu. Casou. Teve filhos. Este menino é hoje homem. Chama-se António Galamba (ou Manuel Faria) e é meu pai. para ele o meu grito, desta minha janela de Aljustrel: MANUEL FARIA, MANUEL FARIA, MANUEL FARIA...

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