O Cachimbo de Magritte: Sócrates vs. Jerónimo: análise

07-08-2010
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Ponto prévio. O debate de hoje não traz proveitos eleitorais para nenhum dos intervenientes, apesar de ser mais importante para Jerónimo (que quer mostrar-se em forma na defesa do seu programa, i.e. a crítica ao Governo). Ambos já se estrearam nestes debates televisivos, pelo que cada vez menos será interessante ouvi-los superfluamente sobre os seus programas, e cada vez mais se quererá assistir ao confronto directo entre candidatos. As regras não o permitem. Por isso, os únicos pontos de interesse serão (1) ver se Jerónimo está hoje mais acordado do que quando 'enfrentou' Louçã, e (2) ver como Sócrates lida com um comunista a acusá-lo de fazer políticas 'de direita'. Ou seja, antes de começar, o debate já não interessava muito.Talvez por isso, o debate surpreendeu pela positiva. Jerónimo de Sousa mostrou-se mais acutilante nas respostas às questões, e sobretudo nos ataques às políticas do Governo. Tentou colar o PS ao PSD, pondo-os no mesmo saco, ambos com as "orientações neoliberais da União Europeia". Se dúvida houvesse, para a esquerda old school, nas questões estruturantes, não há distinção entre os dois partidos do centro.Sócrates, por seu lado, tentou apelar à missão dos comunistas em combater a Direita, em vez do PS. Para o 1º Ministro, as políticas do Governo, nomeadamente as políticas sociais que ele enumerou repetidamente numa tentativa de seduzir o voto dos eleitores de esquerda, são a prova que o PS tem governado fiel às suas origens. Assim, Sócrates optou, sempre que possível, mostrar trabalho e apontar as armas ao PSD, a Direita.Bipolarização. Sócrates bipolarizou o voto entre Esquerda e Direita, e repetiu aquilo que já tinha dito antes: esta bipolarização é determinante para a escolha do voto entre PS e PSD. O objectivo de Sócrates é claro: insiste no perigo de um governo de Direita e oferece como única solução o voto no PS, para convencer os eleitores da esquerda a preferir os socialistas ao PCP e (sobretudo) ao BE. Nesta mesma linha, o 1º Ministro recusou responder sobre cenários de coligações.Sindicatos e Educação. Jerónimo esteve muito bem, questionando pontos específicos das políticas educativas do Governo, e a relação do Governo com os sindicatos. Sócrates não soube responder ao mesmo nível, e refugiou-se em discursos vazios do estilo "a nossa ambição é dar uma melhor educação para todos".Desemprego e Código Laboral. É um dos temas tradicionais do PCP, e naturalmente dos mais fortes de Jerónimo, que defendeu medidas de emergência para combater o desemprego. Sócrates responde com o trabalho feito, mas sai arrasado pela réplica de Jerónimo, que afirma que "Sócrates fala com convencimento e quer substituir a realidade", apontando ainda incorrecções nos números que o 1º Ministro usou em sua defesa.TVI e Manuela Moura Guedes. Jerónimo de Sousa diz que o PCP tem uma posição política, mas recusa fazer insinuações sobre o envolvimento do PS no afastamento do Jornal de Manuela Moura Guedes. Sócrates recusa aceitar que as suas críticas a Manuela Moura Guedes tenham originado esta posição da Prisa, e afastou-se de responsabilidades. Admite, timidamente, que as explicações da Prisa não são "contundentes", e finalmente remete avaliações finais para a ERC. Mas não acabou sem antes atacar o PSD, relembrando o Governo anterior, e censurando o aproveitamento político que diz que está a ser retirado deste caso.Mas o melhor ficou para o fim, quando Sócrates obrigou Judite de Sousa a explicar melhor a sua pergunta a Jerónimo. A entrevistadora referiu-se a Prisa como querendo ser "mais papista que o Papa", ou seja querendo mostrar ao Governo que era seu 'aliado' cancelando o programa televisivo. Sócrates mostrou os dentes, abandonou as delicadezas e deixou voltar o 'animal'. Não deixou que Jerónimo respondesse e recusou qualquer cenário em que isso fosse possível. Ao fazê-lo, Sócrates mostrou a sua determinação em esclarecer os alegados 'mal-entendidos' e quebrou as regras acordadas, pois não permitiu a Jerónimo encerrar o debate.Em resumo, foi um debate mais vivo do que se esperava, com Jerónimo de Sousa a empurrar Sócrates para os temas que mais interessam ao PCP e para os quais melhor estava preparado. Sócrates nem sempre conseguiu responder à altura, e mostrou pontos fracos. O 1º Ministro tentou conduzir o debate para a crítica da Direita, e começou a sua primeira intervenção falando do PSD. Jerónimo não deixou, esteve melhor, e venceu o debate.Para a memória fica uma grande frase de Sócrates: "É melhor não acreditar em tudo o que vem nos jornais". De facto, isso dava muito jeito a José Sócrates.


Ponto prévio. O debate de hoje não traz proveitos eleitorais para nenhum dos intervenientes, apesar de ser mais importante para Jerónimo (que quer mostrar-se em forma na defesa do seu programa, i.e. a crítica ao Governo). Ambos já se estrearam nestes debates televisivos, pelo que cada vez menos será interessante ouvi-los superfluamente sobre os seus programas, e cada vez mais se quererá assistir ao confronto directo entre candidatos. As regras não o permitem. Por isso, os únicos pontos de interesse serão (1) ver se Jerónimo está hoje mais acordado do que quando 'enfrentou' Louçã, e (2) ver como Sócrates lida com um comunista a acusá-lo de fazer políticas 'de direita'. Ou seja, antes de começar, o debate já não interessava muito.Talvez por isso, o debate surpreendeu pela positiva. Jerónimo de Sousa mostrou-se mais acutilante nas respostas às questões, e sobretudo nos ataques às políticas do Governo. Tentou colar o PS ao PSD, pondo-os no mesmo saco, ambos com as "orientações neoliberais da União Europeia". Se dúvida houvesse, para a esquerda old school, nas questões estruturantes, não há distinção entre os dois partidos do centro.Sócrates, por seu lado, tentou apelar à missão dos comunistas em combater a Direita, em vez do PS. Para o 1º Ministro, as políticas do Governo, nomeadamente as políticas sociais que ele enumerou repetidamente numa tentativa de seduzir o voto dos eleitores de esquerda, são a prova que o PS tem governado fiel às suas origens. Assim, Sócrates optou, sempre que possível, mostrar trabalho e apontar as armas ao PSD, a Direita.Bipolarização. Sócrates bipolarizou o voto entre Esquerda e Direita, e repetiu aquilo que já tinha dito antes: esta bipolarização é determinante para a escolha do voto entre PS e PSD. O objectivo de Sócrates é claro: insiste no perigo de um governo de Direita e oferece como única solução o voto no PS, para convencer os eleitores da esquerda a preferir os socialistas ao PCP e (sobretudo) ao BE. Nesta mesma linha, o 1º Ministro recusou responder sobre cenários de coligações.Sindicatos e Educação. Jerónimo esteve muito bem, questionando pontos específicos das políticas educativas do Governo, e a relação do Governo com os sindicatos. Sócrates não soube responder ao mesmo nível, e refugiou-se em discursos vazios do estilo "a nossa ambição é dar uma melhor educação para todos".Desemprego e Código Laboral. É um dos temas tradicionais do PCP, e naturalmente dos mais fortes de Jerónimo, que defendeu medidas de emergência para combater o desemprego. Sócrates responde com o trabalho feito, mas sai arrasado pela réplica de Jerónimo, que afirma que "Sócrates fala com convencimento e quer substituir a realidade", apontando ainda incorrecções nos números que o 1º Ministro usou em sua defesa.TVI e Manuela Moura Guedes. Jerónimo de Sousa diz que o PCP tem uma posição política, mas recusa fazer insinuações sobre o envolvimento do PS no afastamento do Jornal de Manuela Moura Guedes. Sócrates recusa aceitar que as suas críticas a Manuela Moura Guedes tenham originado esta posição da Prisa, e afastou-se de responsabilidades. Admite, timidamente, que as explicações da Prisa não são "contundentes", e finalmente remete avaliações finais para a ERC. Mas não acabou sem antes atacar o PSD, relembrando o Governo anterior, e censurando o aproveitamento político que diz que está a ser retirado deste caso.Mas o melhor ficou para o fim, quando Sócrates obrigou Judite de Sousa a explicar melhor a sua pergunta a Jerónimo. A entrevistadora referiu-se a Prisa como querendo ser "mais papista que o Papa", ou seja querendo mostrar ao Governo que era seu 'aliado' cancelando o programa televisivo. Sócrates mostrou os dentes, abandonou as delicadezas e deixou voltar o 'animal'. Não deixou que Jerónimo respondesse e recusou qualquer cenário em que isso fosse possível. Ao fazê-lo, Sócrates mostrou a sua determinação em esclarecer os alegados 'mal-entendidos' e quebrou as regras acordadas, pois não permitiu a Jerónimo encerrar o debate.Em resumo, foi um debate mais vivo do que se esperava, com Jerónimo de Sousa a empurrar Sócrates para os temas que mais interessam ao PCP e para os quais melhor estava preparado. Sócrates nem sempre conseguiu responder à altura, e mostrou pontos fracos. O 1º Ministro tentou conduzir o debate para a crítica da Direita, e começou a sua primeira intervenção falando do PSD. Jerónimo não deixou, esteve melhor, e venceu o debate.Para a memória fica uma grande frase de Sócrates: "É melhor não acreditar em tudo o que vem nos jornais". De facto, isso dava muito jeito a José Sócrates.

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