Reabriu esta semana o Parlamento. Os senhores deputados, requeimados pelo sol dos Tomates e cheirando ainda ao óleo químico dos bronzeadores, chegaram de seus círculos com os pátrios alforges pejados de ideias e projectos de lei. Abriu-se a galhofa dos trabalhos para discutir com gravidade democrática a "sessão legislativa". Os nossos representantes não sabem a quantas andam. A questão foi resolvida ontem pelo presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, em favor do partido que representa, aceitando a proposta de referendo sobre o aborto por considerar que na quinta-feira se iniciou uma nova sessão legislativa. Em Portugal há sempre um Gama para os trabalhos de monta. Para fugir à sisa ou assentar praça na banca pública, servem os Silvas, os Soares, os Sousas. Mas para descobrir novos mundos ou interpretar leis — exige-se um Gama. Ah! Os Gamas... Assomavam noutros tempos da Vidigueira, trazendo da planície os olhos impregnados de distância, e rumavam em naus e caravelas às Índias da nossa perdição; chegam hoje a S. Bento em viaturas de luxo com motorista, e um compêndio de hermenêutica debaixo do braço.A matéria conduz-nos directamente à colonização do Estado pelo PS — o sonho mexicano de que nos falava há dias o Manuel Azinhal. Assim talvez se entenda a nomeação de Guilherme Oliveira Martins para o Tribunal de Contas. As origens deste remontam à Casa dos Contos, criada por D. João I. É, por isso, um dos mais velhos órgãos da administração pública portuguesa. Foi crismada de Erário Régio no tempo de Pombal, que chamou a si o cargo de Inspector-Geral do Tesouro — para que as massas ficassem mais à mão de semear. Foi talvez o único momento em que o órgão serviu interesses particulares ou de facção. A reforma administrativa de Mouzinho da Silveira, no século XIX, crismou-o de Tribunal do Tesouro Publico. Logo após, respondeu pelo nome de Conselho Fiscal de Contas, para ser finalmente baptizado de Tribunal de Contas em 1849.A República, com a prosápia balofa dos seus legisladores, converteu-o em Conselho Superior da Administração Financeira do Estado, entre 1911 e 1919, e em Conselho Superior de Finanças, a partir daí, mas o Estado Novo recuperou o nome antigo de Tribunal de Contas em 1930. A reforma estadonovista permitiu dotar a instituição dos principais meios, que ainda hoje mantém, e assegurar a sua independência. Durante o consulado de Salazar, o Tribunal de Contas recusou algumas vezes a Conta do Estado. Cavaco, por exemplo, escolheu o socialista Sousa Franco para presidir ao Tribunal, entre 1986 e 1995.O processo de nomeação de Guilherme Oliveira Martins diz muito sobre a natureza nepótica do regime e a "mexicanização" em curso. O Tribunal sobreviveu a guerras civis, ao terramoto, ao fim da monarquia, às revoluções políticas, mas ameaça soçobrar agora — no seu prestígio de independência e isenção — às unhas desta fauna socialista e socrática.A eleição de Soares, o mentiroso-mor, em Janeiro do próximo ano, parece ser a cerejinha no topo do bolo. O aldrabão conhece os truques da democracia: quanto mais mente, mais sobe nas sondagens. É previsível que daqui para a frente encurte a distância que o separa do putativo candidato Cavaco Silva, contando para tal com a afeição da imprensa e os seus discursos «populares». Se o desgraçado já mente bem de improviso, imaginem os milagres que não fará de papel e caneta na mão.
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Reabriu esta semana o Parlamento. Os senhores deputados, requeimados pelo sol dos Tomates e cheirando ainda ao óleo químico dos bronzeadores, chegaram de seus círculos com os pátrios alforges pejados de ideias e projectos de lei. Abriu-se a galhofa dos trabalhos para discutir com gravidade democrática a "sessão legislativa". Os nossos representantes não sabem a quantas andam. A questão foi resolvida ontem pelo presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, em favor do partido que representa, aceitando a proposta de referendo sobre o aborto por considerar que na quinta-feira se iniciou uma nova sessão legislativa. Em Portugal há sempre um Gama para os trabalhos de monta. Para fugir à sisa ou assentar praça na banca pública, servem os Silvas, os Soares, os Sousas. Mas para descobrir novos mundos ou interpretar leis — exige-se um Gama. Ah! Os Gamas... Assomavam noutros tempos da Vidigueira, trazendo da planície os olhos impregnados de distância, e rumavam em naus e caravelas às Índias da nossa perdição; chegam hoje a S. Bento em viaturas de luxo com motorista, e um compêndio de hermenêutica debaixo do braço.A matéria conduz-nos directamente à colonização do Estado pelo PS — o sonho mexicano de que nos falava há dias o Manuel Azinhal. Assim talvez se entenda a nomeação de Guilherme Oliveira Martins para o Tribunal de Contas. As origens deste remontam à Casa dos Contos, criada por D. João I. É, por isso, um dos mais velhos órgãos da administração pública portuguesa. Foi crismada de Erário Régio no tempo de Pombal, que chamou a si o cargo de Inspector-Geral do Tesouro — para que as massas ficassem mais à mão de semear. Foi talvez o único momento em que o órgão serviu interesses particulares ou de facção. A reforma administrativa de Mouzinho da Silveira, no século XIX, crismou-o de Tribunal do Tesouro Publico. Logo após, respondeu pelo nome de Conselho Fiscal de Contas, para ser finalmente baptizado de Tribunal de Contas em 1849.A República, com a prosápia balofa dos seus legisladores, converteu-o em Conselho Superior da Administração Financeira do Estado, entre 1911 e 1919, e em Conselho Superior de Finanças, a partir daí, mas o Estado Novo recuperou o nome antigo de Tribunal de Contas em 1930. A reforma estadonovista permitiu dotar a instituição dos principais meios, que ainda hoje mantém, e assegurar a sua independência. Durante o consulado de Salazar, o Tribunal de Contas recusou algumas vezes a Conta do Estado. Cavaco, por exemplo, escolheu o socialista Sousa Franco para presidir ao Tribunal, entre 1986 e 1995.O processo de nomeação de Guilherme Oliveira Martins diz muito sobre a natureza nepótica do regime e a "mexicanização" em curso. O Tribunal sobreviveu a guerras civis, ao terramoto, ao fim da monarquia, às revoluções políticas, mas ameaça soçobrar agora — no seu prestígio de independência e isenção — às unhas desta fauna socialista e socrática.A eleição de Soares, o mentiroso-mor, em Janeiro do próximo ano, parece ser a cerejinha no topo do bolo. O aldrabão conhece os truques da democracia: quanto mais mente, mais sobe nas sondagens. É previsível que daqui para a frente encurte a distância que o separa do putativo candidato Cavaco Silva, contando para tal com a afeição da imprensa e os seus discursos «populares». Se o desgraçado já mente bem de improviso, imaginem os milagres que não fará de papel e caneta na mão.