Antologias: "As águas cingiam-me até à alma"

20-01-2011
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"As águas cingiam-me até à alma" via O que eu andei ... de João B. Serra em 13/03/09 Aquilo que imediatamente nos chama atenção é a sua singularidade no conjunto dos textos proféticos. Esta obra breve, a única que foi escrita na terceira pessoa, é a mais dramática história de solidão de toda Bíblia e, no entanto, é contada como que do exterior dessa solidão - como se, ao mergulhar no negrume dessa solidão, o "eu" se tivesse perdido de si mesmo. Portanto, o "eu" só pode falar de si mesmo como um outro. Como na frase de Rimbaud: "je est un autre".Jonas não se mostra apenas relutante em falar (como Jeremias, por exemplo). Não, Jonas recusa-se mesmo a falar. "Agora a palavra do Senhor foi dirigida a Jonas (...) Mas Jonas levantou-se e fugiu da face do Senhor".Jonas foge. Paga a sua passagem e embarca num navio. Rebenta uma tempestade terrível, de tal forma que os marinheiros temem que o navio naufrague. Todos pedem aos seus deuses que os poupem. Jonas, pelo contrário, "tinha descido ao porão e, deitando-se ali, dormia profundamente". O sono, portanto, como retirada absoluta do mundo. Sono como uma imagem de solidão. Oblomov enroscado no seu divã, regressando pelo sonho ao útero da mãe. Jonas no ventre da baleia.O comandante do navio encontra então Jonas e diz-lhe que reze ao seu Deus. Entretanto, os marinheiros deitam sortes para ver quem será o responsável pela tempestade: "...e a sorte caiu sobre Jonas"."E então ele disse-lhes: 'Pegai em mim e lançai-me ao mar e o mar se acalmará porque sei que foi por minha causa que vos sobreveio esta tempestade.'"No entanto, os homens remavam para ver se conseguiam ganhar a terra, mas em vão, pois o mar cada vez se embravecia mais contra eles" (...)."E foi assim que pegaram em Jonas e o lançaram ao mar e a fúria do mar acalmou-se".Não obstante a mitologia popular em torno da baleia, o grande peixe que engole Jonas não é de modo algum um agente de destruição. É o peixe que o salva de morrer afogado. "As águas cingiam-me até à alma, o abismo cerrava-se à minha volta, as algas pegavam-se à minha cabeça".Paul Auster, Inventar a Solidão. Porto, Asa, 2004. p. 141


"As águas cingiam-me até à alma" via O que eu andei ... de João B. Serra em 13/03/09 Aquilo que imediatamente nos chama atenção é a sua singularidade no conjunto dos textos proféticos. Esta obra breve, a única que foi escrita na terceira pessoa, é a mais dramática história de solidão de toda Bíblia e, no entanto, é contada como que do exterior dessa solidão - como se, ao mergulhar no negrume dessa solidão, o "eu" se tivesse perdido de si mesmo. Portanto, o "eu" só pode falar de si mesmo como um outro. Como na frase de Rimbaud: "je est un autre".Jonas não se mostra apenas relutante em falar (como Jeremias, por exemplo). Não, Jonas recusa-se mesmo a falar. "Agora a palavra do Senhor foi dirigida a Jonas (...) Mas Jonas levantou-se e fugiu da face do Senhor".Jonas foge. Paga a sua passagem e embarca num navio. Rebenta uma tempestade terrível, de tal forma que os marinheiros temem que o navio naufrague. Todos pedem aos seus deuses que os poupem. Jonas, pelo contrário, "tinha descido ao porão e, deitando-se ali, dormia profundamente". O sono, portanto, como retirada absoluta do mundo. Sono como uma imagem de solidão. Oblomov enroscado no seu divã, regressando pelo sonho ao útero da mãe. Jonas no ventre da baleia.O comandante do navio encontra então Jonas e diz-lhe que reze ao seu Deus. Entretanto, os marinheiros deitam sortes para ver quem será o responsável pela tempestade: "...e a sorte caiu sobre Jonas"."E então ele disse-lhes: 'Pegai em mim e lançai-me ao mar e o mar se acalmará porque sei que foi por minha causa que vos sobreveio esta tempestade.'"No entanto, os homens remavam para ver se conseguiam ganhar a terra, mas em vão, pois o mar cada vez se embravecia mais contra eles" (...)."E foi assim que pegaram em Jonas e o lançaram ao mar e a fúria do mar acalmou-se".Não obstante a mitologia popular em torno da baleia, o grande peixe que engole Jonas não é de modo algum um agente de destruição. É o peixe que o salva de morrer afogado. "As águas cingiam-me até à alma, o abismo cerrava-se à minha volta, as algas pegavam-se à minha cabeça".Paul Auster, Inventar a Solidão. Porto, Asa, 2004. p. 141

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