Na sequência da recentíssima publicação, na Caminho, do seu último romance, A Sala Magenta, Mário de Carvalho (fotografia obtida aqui) tem concedido algumas entrevistas a diversos jornais e revistas. Na passada sexta‑feira, foi a vez do Ípsilon, onde se transcreve uma conversa que o escritor teve com Isabel Coutinho. Como seria de esperar, as palavras do autor de Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde (1994) são reveladoras de um aturado conhecimento do ofício literário e de um grau de exigência que parece raro na nossa época tão acelerada. Entre outras, destacaria duas ideias, que não hesito em subscrever: a necessidade de produzir uma obra com a exacta consciência de tudo o que de mais importante já foi feito no domínio literário (mesmo que se escreva contra tudo isso) e a permanente recusa do que se poderá designar como autoplágio (esse método garantido para a persistência do sucesso imediato).Em relação à primeira, diz o escritor: «Este país tem um Padre António Vieira, tem um Fernão Lopes, tem Pessoa, tem Eça de Queirós. O Pessoa mete raiva quando se lê o Livro do Desassossego. O Padre António Vieira é um escalão tão alto que não conseguiremos atingi‑lo, eu pelo menos nunca o conseguirei, mas ele está lá, a lembrar‑nos que é possível subir muito alto. Não temos o direito de estar a escrevinhar apenas por escrevinhar. Há uma tradição que é para ser cumprida». Poder‑se‑ia acrescentar a literatura universal como outra tradição com a qual é também obrigatório estabelecer um diálogo, mas saliente‑se que Mário de Carvalho tem igual consciência desse facto, ou não fosse o Tristram Shandy um dos seus romances preferidos, como já o declarou noutro momento. Será redundante dizer que a produção de lixo editorial diminuiria consideravelmente se todos os que escrevem em português tivessem do seu ofício a mesma noção que o autor de Fantasia para dois Coronéis e uma Piscina (2003).Quanto à segunda ideia, que o afasta desse modelo de escritor sazonal, disponível para apresentar um livro novo de dois em dois anos, por exemplo, ela consubstancia‑se nas palavras finais, com a descrição de um tipo de polícia cujo recrutamento em larga escala seria de uma utilidade indubitável: «Tenho comigo um polícia da língua, tenho comigo um polícia da história, tenho comigo um polícia da verosimilhança, tenho comigo um polícia da banalidade e do lugar‑comum e tenho comigo um polícia que diz: ‘Olha que já fizeste isto’, ‘atenção, evita isso’. Um polícia que conhece as minhas obras e vai evitando que eu fique pegado a ela».
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Na sequência da recentíssima publicação, na Caminho, do seu último romance, A Sala Magenta, Mário de Carvalho (fotografia obtida aqui) tem concedido algumas entrevistas a diversos jornais e revistas. Na passada sexta‑feira, foi a vez do Ípsilon, onde se transcreve uma conversa que o escritor teve com Isabel Coutinho. Como seria de esperar, as palavras do autor de Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde (1994) são reveladoras de um aturado conhecimento do ofício literário e de um grau de exigência que parece raro na nossa época tão acelerada. Entre outras, destacaria duas ideias, que não hesito em subscrever: a necessidade de produzir uma obra com a exacta consciência de tudo o que de mais importante já foi feito no domínio literário (mesmo que se escreva contra tudo isso) e a permanente recusa do que se poderá designar como autoplágio (esse método garantido para a persistência do sucesso imediato).Em relação à primeira, diz o escritor: «Este país tem um Padre António Vieira, tem um Fernão Lopes, tem Pessoa, tem Eça de Queirós. O Pessoa mete raiva quando se lê o Livro do Desassossego. O Padre António Vieira é um escalão tão alto que não conseguiremos atingi‑lo, eu pelo menos nunca o conseguirei, mas ele está lá, a lembrar‑nos que é possível subir muito alto. Não temos o direito de estar a escrevinhar apenas por escrevinhar. Há uma tradição que é para ser cumprida». Poder‑se‑ia acrescentar a literatura universal como outra tradição com a qual é também obrigatório estabelecer um diálogo, mas saliente‑se que Mário de Carvalho tem igual consciência desse facto, ou não fosse o Tristram Shandy um dos seus romances preferidos, como já o declarou noutro momento. Será redundante dizer que a produção de lixo editorial diminuiria consideravelmente se todos os que escrevem em português tivessem do seu ofício a mesma noção que o autor de Fantasia para dois Coronéis e uma Piscina (2003).Quanto à segunda ideia, que o afasta desse modelo de escritor sazonal, disponível para apresentar um livro novo de dois em dois anos, por exemplo, ela consubstancia‑se nas palavras finais, com a descrição de um tipo de polícia cujo recrutamento em larga escala seria de uma utilidade indubitável: «Tenho comigo um polícia da língua, tenho comigo um polícia da história, tenho comigo um polícia da verosimilhança, tenho comigo um polícia da banalidade e do lugar‑comum e tenho comigo um polícia que diz: ‘Olha que já fizeste isto’, ‘atenção, evita isso’. Um polícia que conhece as minhas obras e vai evitando que eu fique pegado a ela».