Dita DuraDesprezível, mesquinho e inocentemente estúpido – descrevo assim o documentário “Cartas a uma ditadura” de Inês Medeiros, que passou ontem à noite na RTP2. Datado de 2006, segue a mesma linha medíocre do filme realizado pela sua irmã. Não foi independente, muito menos rigoroso. Se na realidade foi uma hora que não serviu para absolutamente nada, aproveitarei agora alguns aspectos para fazer uma reflexão sobre a evolução da sociedade portuguesa e as novas classes sociais, formadas nos últimos trinta anos.A chave para compreendermos a organização e pensamento da sociedade actual, está na forma solene e “heróica” como Inês de Medeiros acaba o documentário, com a senhora do povo a dizer que é orgulhosa porque lutou muito para que os netos sejam hoje “doutores” que ganham muito bem. No fundo, para a geração da autora, está é a grande conquista de Abril: a democratização do ensino, o acesso “universal” a empregos de sucesso e a “melhoria” de nível de vida quando comparada com os avós. Se calhar vou ser um pouco duro a partir daqui, mas a verdade é que há elementos comuns a esta geração e a esta gente, que abarcam a maioria do Portugal de hoje, sobretudo na classes média e alta: políticos, advogados, médicos, gestores e demais tecnocratas. É esta geração que tomou conta do nosso país de há algum tempo para cá, por isso façamos uma pequena análise às suas características.Em primeiro lugar, um ódio profundo e vísceral às classes altas de algumas décadas atrás. Exemplo neste documentário foi a forma como a autora ridicularizou os valores fundamentais das famílias tradicionais e a troça com que eram apresentados os testemunhos das senhoras da época. A explicação para este ódio parece-me simples: apesar de agora ter o dinheiro e o poder, o conforto e a estabilidade, esta populaça jamais conseguirá ter aquilo que se ensina e se forma neste tipo de famílias, e que está enraízado em séculos de honra, dignidade e sobriedade.Em segundo lugar, vejamos como está o estado do nosso país passados todos estes anos: nunca houve tanta corrupção e mentira, engano e criminalidade; as oportunidades de desenvolvimento dissiparam-se quando um pequeno grupo (pertencente à populaça) se apropriou das ajudas europeias para enriquecer; o crescimento económico-social foi desiquilibrado e apenas serviu interesses específicos; a cultura nunca teve tão mal e a educação é o saco de lixo da sociedade.Em terceiro lugar, se formos coerentes e correctos na análise das razões humanas que levaram ao descalabro português, chegamos à conclusão que faltaram os valores que a autora do documentário ridicularizou. Faltou a equidade e a liberdade (que muitos apregoam terem descoberto), sobretudo nunca existiu uma verdadeira democracia. Afinal, os tais “doutores” filhos do povo, não têm servido o país – mas têm-se servido dele como vampiros sedentos de sangue, apropriando-se da riqueza e protegendo-a na sua matilha: leia-se política, grupos empresariais, associações sociais e outras ordens. Fazem-no por si e para si mesmos, pela sua descendência e, sobretudo, em honra da tal ascendência que “gloriosamente” batalhou para que “os filhos não fossem criados”. Pergunto aqui e agora: em vez de criados, não passaram a ser escravos?Finalmente, faço apenas um pequeno apontamento sobre este facto hilariante: passados mais de trinta anos, Portugal que ainda não está em paz sobre essa rotura com o passado. Há uma opinião corrente e oficial (a do documentário) que não deixa enterrar o que se passou, que quer exibir os seus troféus e as suas vitórias recentes. Para toda essa gente, deixo o único e verdadeiro prémio que algumas vez conseguirão daqui deste lado: a visão de um Portugal decaído, humanamente miserável e socialmente perdido.
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Dita DuraDesprezível, mesquinho e inocentemente estúpido – descrevo assim o documentário “Cartas a uma ditadura” de Inês Medeiros, que passou ontem à noite na RTP2. Datado de 2006, segue a mesma linha medíocre do filme realizado pela sua irmã. Não foi independente, muito menos rigoroso. Se na realidade foi uma hora que não serviu para absolutamente nada, aproveitarei agora alguns aspectos para fazer uma reflexão sobre a evolução da sociedade portuguesa e as novas classes sociais, formadas nos últimos trinta anos.A chave para compreendermos a organização e pensamento da sociedade actual, está na forma solene e “heróica” como Inês de Medeiros acaba o documentário, com a senhora do povo a dizer que é orgulhosa porque lutou muito para que os netos sejam hoje “doutores” que ganham muito bem. No fundo, para a geração da autora, está é a grande conquista de Abril: a democratização do ensino, o acesso “universal” a empregos de sucesso e a “melhoria” de nível de vida quando comparada com os avós. Se calhar vou ser um pouco duro a partir daqui, mas a verdade é que há elementos comuns a esta geração e a esta gente, que abarcam a maioria do Portugal de hoje, sobretudo na classes média e alta: políticos, advogados, médicos, gestores e demais tecnocratas. É esta geração que tomou conta do nosso país de há algum tempo para cá, por isso façamos uma pequena análise às suas características.Em primeiro lugar, um ódio profundo e vísceral às classes altas de algumas décadas atrás. Exemplo neste documentário foi a forma como a autora ridicularizou os valores fundamentais das famílias tradicionais e a troça com que eram apresentados os testemunhos das senhoras da época. A explicação para este ódio parece-me simples: apesar de agora ter o dinheiro e o poder, o conforto e a estabilidade, esta populaça jamais conseguirá ter aquilo que se ensina e se forma neste tipo de famílias, e que está enraízado em séculos de honra, dignidade e sobriedade.Em segundo lugar, vejamos como está o estado do nosso país passados todos estes anos: nunca houve tanta corrupção e mentira, engano e criminalidade; as oportunidades de desenvolvimento dissiparam-se quando um pequeno grupo (pertencente à populaça) se apropriou das ajudas europeias para enriquecer; o crescimento económico-social foi desiquilibrado e apenas serviu interesses específicos; a cultura nunca teve tão mal e a educação é o saco de lixo da sociedade.Em terceiro lugar, se formos coerentes e correctos na análise das razões humanas que levaram ao descalabro português, chegamos à conclusão que faltaram os valores que a autora do documentário ridicularizou. Faltou a equidade e a liberdade (que muitos apregoam terem descoberto), sobretudo nunca existiu uma verdadeira democracia. Afinal, os tais “doutores” filhos do povo, não têm servido o país – mas têm-se servido dele como vampiros sedentos de sangue, apropriando-se da riqueza e protegendo-a na sua matilha: leia-se política, grupos empresariais, associações sociais e outras ordens. Fazem-no por si e para si mesmos, pela sua descendência e, sobretudo, em honra da tal ascendência que “gloriosamente” batalhou para que “os filhos não fossem criados”. Pergunto aqui e agora: em vez de criados, não passaram a ser escravos?Finalmente, faço apenas um pequeno apontamento sobre este facto hilariante: passados mais de trinta anos, Portugal que ainda não está em paz sobre essa rotura com o passado. Há uma opinião corrente e oficial (a do documentário) que não deixa enterrar o que se passou, que quer exibir os seus troféus e as suas vitórias recentes. Para toda essa gente, deixo o único e verdadeiro prémio que algumas vez conseguirão daqui deste lado: a visão de um Portugal decaído, humanamente miserável e socialmente perdido.