Freguesias pequenas separam muitas ruas e vizinhos da velha Lisboa

14-09-2010
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Gil precisou de ir a três juntas para tirar um cartão. D. Aurora e a filha são vizinhas, mas têm de votar em sítios diferentes. Uma viagem pela cidade retalhada

Gil Correia, 32 anos, designer, vive na Rua da Madalena, em Lisboa. Em que freguesia? São Cristóvão e São Lourenço. Hoje sabe-o, mas obter esta resposta não foi fácil. "Quando necessitei do cartão de morador para o estacionamento tive de ir a três juntas até perceber onde é que vivia", recorda.

Já lá fora vai-se perguntando, aqui e ali, a que junta de freguesia pertence a rua. Muita gente não sabe. Outros asseguram que toda ela faz parte da freguesia da Madalena, porque é lá que fica a sede da junta. Errado. Primeiro porque a Rua da Madalena é feita de pedaços de três freguesias: Madalena, São Nicolau e São Cristóvão e São Lourenço. Segundo porque a própria sede da junta da Madalena fica na deSão Cristóvão e São Lourenço.

Em Lisboa há muitas ruas e lugares que são mantas de retalhos. A própria cidade - com as actuais 53 freguesias, várias com poucas centenas de habitantes - é um gigantescopuzzle.

As histórias de ruas partilhadas por freguesias, de gente que não sabe bem onde vive e que preferia que estas divisões desaparecessem multiplicam-se mal se pergunta: "Quantas freguesias há na sua rua?" É por isso que o presidente da câmara, António Costa, fez questão de apostar neste tema como um dos seus pilares, tanto na campanha como no programa de governo.

Par ou ímpar faz diferença

Descendo a Rua de Santa Catarina até ao fim, na freguesia com o mesmo nome, chega-se ao início da Rua Fernandes Tomás. A freguesia continua a mesma, mas apenas do lado direito, o dos números pares. Os ímpares, à esquerda, pertencem a São Paulo. É uma rua íngreme, quase deserta neste final de tarde.

Há gente de passagem, que não conhece o lugar, e moradores que passeiam cães. Uma senhora de idade que vive aqui não sabe dessas coisas de freguesias. A cabeça já está muito má, justifica.

Mais à frente outro morador: "A D. Alice saberá." Tinha razão. Alice Ciríaco - foi buscar o nome ao marido, deixa claro - vive no rés-do-chão de um prédio de um branco azulado, com uma parede para a Fernandes Tomás e outra para o Beco da Caldeira. E é desse lado que vem à porta, quando a chamamos. Traz um vestido tipo bata preto com uns lacinhos brancos, um fio com um búzio ao pescoço.

"Há harmonia entre as juntas. Assim fosse entre os moradores", diz D. Alice, 51 anos, que assegura não haver diferença entre viver de um lado da rua ou do outro. Quer as escolas quer os centros de saúde ficam perto, independentemente de quais sejam. Nada aqui fica longe, porque tudo é pequeno.

Já a amiga que chega a meio da conversa, Ana Salete Gonçalves, 61 anos, diz que prefere o lado onde vive. Mas só pela vista.

Esta zona é uma das mais divididas do município - a par da Baixa, de Alfama e do Castelo. O estudo encomendado ao Instituto Superior de Economia e Gestão propõe a fusão das duas freguesias da Fernandes Tomás com Encarnação, Mercês e parte de São José e de São Mamede numa única freguesia: Bairro Alto e São Paulo.

Muitas para Alfama

Outros lugares há onde os moradores sentem diferenças entre a sua freguesia e a do vizinho. Em Alfama há muitas juntas e moradores de longa data. E que sabem bem dos problemas.

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Aurora Rocha, 51 anos, senta-se na soleira de uma porta na Rua dos Remédios, Alfama. Conversamos em Santo Estevão, mas bastam uns passos para mudarmos de freguesia. Em várias direcções. Para Aurora é muito diferente viver aqui ou na freguesia do lado, uns metros adiante. "A minha filha vive na Rua do Paraíso e deu a minha morada para ser atendida pela assistente social de Santo Estêvão, que é melhor", conta.

A Rua do Paraíso, que parece a continuação da Rua dos Remédios, já pertence a São Vicente de Fora. Aqui há muitas freguesias muito juntas. Caso a proposta de António Costa venha a sair do papel, Castelo, Sé, São Miguel, Santo Estêvão, Santiago e São Vicente de Fora transformam-se numa só: Alfama e Castelo.

No Salão Alfama, cabeleireiro de homens, o barbeiro, Carlos Elvas, fala da confusão que são as divisões de freguesia por aqui, enquanto vai limpando o espelho e varrendo os restos de cabelo do chão, de bata branca de barbeiro. "Acho desnecessário haver tantas freguesias, tão juntas."

Gil precisou de ir a três juntas para tirar um cartão. D. Aurora e a filha são vizinhas, mas têm de votar em sítios diferentes. Uma viagem pela cidade retalhada

Gil Correia, 32 anos, designer, vive na Rua da Madalena, em Lisboa. Em que freguesia? São Cristóvão e São Lourenço. Hoje sabe-o, mas obter esta resposta não foi fácil. "Quando necessitei do cartão de morador para o estacionamento tive de ir a três juntas até perceber onde é que vivia", recorda.

Já lá fora vai-se perguntando, aqui e ali, a que junta de freguesia pertence a rua. Muita gente não sabe. Outros asseguram que toda ela faz parte da freguesia da Madalena, porque é lá que fica a sede da junta. Errado. Primeiro porque a Rua da Madalena é feita de pedaços de três freguesias: Madalena, São Nicolau e São Cristóvão e São Lourenço. Segundo porque a própria sede da junta da Madalena fica na deSão Cristóvão e São Lourenço.

Em Lisboa há muitas ruas e lugares que são mantas de retalhos. A própria cidade - com as actuais 53 freguesias, várias com poucas centenas de habitantes - é um gigantescopuzzle.

As histórias de ruas partilhadas por freguesias, de gente que não sabe bem onde vive e que preferia que estas divisões desaparecessem multiplicam-se mal se pergunta: "Quantas freguesias há na sua rua?" É por isso que o presidente da câmara, António Costa, fez questão de apostar neste tema como um dos seus pilares, tanto na campanha como no programa de governo.

Par ou ímpar faz diferença

Descendo a Rua de Santa Catarina até ao fim, na freguesia com o mesmo nome, chega-se ao início da Rua Fernandes Tomás. A freguesia continua a mesma, mas apenas do lado direito, o dos números pares. Os ímpares, à esquerda, pertencem a São Paulo. É uma rua íngreme, quase deserta neste final de tarde.

Há gente de passagem, que não conhece o lugar, e moradores que passeiam cães. Uma senhora de idade que vive aqui não sabe dessas coisas de freguesias. A cabeça já está muito má, justifica.

Mais à frente outro morador: "A D. Alice saberá." Tinha razão. Alice Ciríaco - foi buscar o nome ao marido, deixa claro - vive no rés-do-chão de um prédio de um branco azulado, com uma parede para a Fernandes Tomás e outra para o Beco da Caldeira. E é desse lado que vem à porta, quando a chamamos. Traz um vestido tipo bata preto com uns lacinhos brancos, um fio com um búzio ao pescoço.

"Há harmonia entre as juntas. Assim fosse entre os moradores", diz D. Alice, 51 anos, que assegura não haver diferença entre viver de um lado da rua ou do outro. Quer as escolas quer os centros de saúde ficam perto, independentemente de quais sejam. Nada aqui fica longe, porque tudo é pequeno.

Já a amiga que chega a meio da conversa, Ana Salete Gonçalves, 61 anos, diz que prefere o lado onde vive. Mas só pela vista.

Esta zona é uma das mais divididas do município - a par da Baixa, de Alfama e do Castelo. O estudo encomendado ao Instituto Superior de Economia e Gestão propõe a fusão das duas freguesias da Fernandes Tomás com Encarnação, Mercês e parte de São José e de São Mamede numa única freguesia: Bairro Alto e São Paulo.

Muitas para Alfama

Outros lugares há onde os moradores sentem diferenças entre a sua freguesia e a do vizinho. Em Alfama há muitas juntas e moradores de longa data. E que sabem bem dos problemas.

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Aurora Rocha, 51 anos, senta-se na soleira de uma porta na Rua dos Remédios, Alfama. Conversamos em Santo Estevão, mas bastam uns passos para mudarmos de freguesia. Em várias direcções. Para Aurora é muito diferente viver aqui ou na freguesia do lado, uns metros adiante. "A minha filha vive na Rua do Paraíso e deu a minha morada para ser atendida pela assistente social de Santo Estêvão, que é melhor", conta.

A Rua do Paraíso, que parece a continuação da Rua dos Remédios, já pertence a São Vicente de Fora. Aqui há muitas freguesias muito juntas. Caso a proposta de António Costa venha a sair do papel, Castelo, Sé, São Miguel, Santo Estêvão, Santiago e São Vicente de Fora transformam-se numa só: Alfama e Castelo.

No Salão Alfama, cabeleireiro de homens, o barbeiro, Carlos Elvas, fala da confusão que são as divisões de freguesia por aqui, enquanto vai limpando o espelho e varrendo os restos de cabelo do chão, de bata branca de barbeiro. "Acho desnecessário haver tantas freguesias, tão juntas."

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