A leitura das movimentações do Presidente faz-se através da sua personalidade. Mas também com o calendário eleitoral
Foi a terceira vez no espaço de duas semanas que o chefe de Estado veio a público apelar à união e ao entendimento. No regresso das férias e já a pensar na aprovação do Orçamento do Estado (OE) para 2011, Cavaco Silva tem-se desdobrado em declarações defendendo a inevitabilidade de um acordo entre partidos, ao mesmo tempo que o Governo e o principal partido da oposição esticam a corda.
Ontem, nem o facto de estar infiltrado no território castrense de Lamego, onde foi celebrar os 50 anos das Operações Especiais, o impediu de enviar recados para a Lisboa civil e política. "Apelo aos portugueses para que ponham de lado as divisões, pois é de união e coesão de esforços que Portugal precisa."
No domingo, no distrito de Viseu, havia sido ainda mais assertivo, arriscando dizer não lhe "passar pela cabeça" que o OE não fosse aprovado. Uma semana antes, quando passava por Ourique, confessou não estar à espera de "instabilidade política". Em jeito de aviso aos partidos, disse acreditar que "todas as forças políticas estão muito conscientes da situação portuguesa".
E para fora do mundo partidário, tentou tranquilizar e desvalorizar a troca de ameaças entre sociais-democratas e socialistas. "Não vale a pena fazer dramatismos, nem em relação ao OE, porque não se conhece ainda nenhum Orçamento, nem em relação à revisão constitucional, porque não está em curso nenhum projecto de revisão." Em ambos os momentos lembrou até a sua passagem pela chefia de um governo minoritário, em 1985, quando teve de negociar um Orçamento no Parlamento.
As acções do mais alto magistrado da nação estão prisioneiras tanto da sua personalidade - e portanto a forma como encara o cargo - quanto do cronómetro político que termina em Janeiro de 2011. Cavaco Silva acredita mesmo que a aprovação do Orçamento é essencial para o país. E sabe também que a solução para uma campanha eleitoral sem surpresas assenta num cenário político apaziguado.
Essa é avaliação que dois politólogos contactados pelo PÚBLICO fazem das movimentações do Presidente da República.
À partida, há a leitura imediata que tem a ver com a "personalidade" de Cavaco e a forma como entende o cargo que ocupa. "O Presidente deseja mesmo, por programa e por defeito, que Portugal tenha um Orçamento", explica António Costa Pinto, professor de Política e História no Instituto de Ciências Sociais. Manuel Meirinho, professor no Instituto de Ciências Sociais e Políticas acrescenta que tendo em conta o que se conhece da "personalidade" de Cavaco Silva não é difícil perceber que este entende que "uma crise política só podia agravar a situação política".
A pensar na reeleição
Depois há a questão "estratégica", como Meirinho a caracteriza, que "tem mais a ver com o contexto da eleição presidencial". Cavaco Silva não quer disputar a sua reeleição em plena crise política. "Em conflito, a gestão de uma campanha eleitoral é sempre mais perigosa", explica aquele politólogo. Daí o esforço em garantir "uma espécie de apaziguamento" entre os partidos.
Além disso, explica António Costa Pinto, "Cavaco Silva, enquanto candidato à reeleição, só ganha em assumir o seu lugar institucional de um Presidente apostado na estabilidade".
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Quanto ao resultado prático destes apelos, os analistas desvalorizam-no. "Para o Presidente o fundamental é ser percepcionado como alguém que fez um esforço para que os partidos se entendam", explica Costa Pinto. Manuel Meirinho lembra que "os actores políticos estão condenados a entenderem-se", uma vez que os custos políticos para o PS e PSD da não aprovação de um Orçamento serão muito superiores aos de um acordo. Para o politólogo, o aumento de décibeis nos últimos dias à volta do OE explica-se facilmente: "Os actores tendem a aumentar a pressão [publicamente] para deixar espaço para a negociação depois", nota.
Mas a leitura da inevitabilidade do entendimento entre socialistas e sociais-democratas levanta a questão de, assim, serem desnecessárias as declarações de Cavaco Silva. "É preciso não esquecer que nos partidos não há unanimismo. No PSD, e também no PS, há vozes que pretendem esticar a corda. A intervenção do Presidente é uma precaução", adverte Meirinho.
Cavaco Silva está portanto a jogar pelo seguro. António Costa Pinto prefere chamar-lhe "desconfiança": "Cavaco Silva, enquanto Presidente e político, sempre assumiu uma prudente desconfiança em relação aos partidos. Ele está apenas a dar um sinal aos partidos. Não se esqueçam que têm que se entender."
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A leitura das movimentações do Presidente faz-se através da sua personalidade. Mas também com o calendário eleitoral
Foi a terceira vez no espaço de duas semanas que o chefe de Estado veio a público apelar à união e ao entendimento. No regresso das férias e já a pensar na aprovação do Orçamento do Estado (OE) para 2011, Cavaco Silva tem-se desdobrado em declarações defendendo a inevitabilidade de um acordo entre partidos, ao mesmo tempo que o Governo e o principal partido da oposição esticam a corda.
Ontem, nem o facto de estar infiltrado no território castrense de Lamego, onde foi celebrar os 50 anos das Operações Especiais, o impediu de enviar recados para a Lisboa civil e política. "Apelo aos portugueses para que ponham de lado as divisões, pois é de união e coesão de esforços que Portugal precisa."
No domingo, no distrito de Viseu, havia sido ainda mais assertivo, arriscando dizer não lhe "passar pela cabeça" que o OE não fosse aprovado. Uma semana antes, quando passava por Ourique, confessou não estar à espera de "instabilidade política". Em jeito de aviso aos partidos, disse acreditar que "todas as forças políticas estão muito conscientes da situação portuguesa".
E para fora do mundo partidário, tentou tranquilizar e desvalorizar a troca de ameaças entre sociais-democratas e socialistas. "Não vale a pena fazer dramatismos, nem em relação ao OE, porque não se conhece ainda nenhum Orçamento, nem em relação à revisão constitucional, porque não está em curso nenhum projecto de revisão." Em ambos os momentos lembrou até a sua passagem pela chefia de um governo minoritário, em 1985, quando teve de negociar um Orçamento no Parlamento.
As acções do mais alto magistrado da nação estão prisioneiras tanto da sua personalidade - e portanto a forma como encara o cargo - quanto do cronómetro político que termina em Janeiro de 2011. Cavaco Silva acredita mesmo que a aprovação do Orçamento é essencial para o país. E sabe também que a solução para uma campanha eleitoral sem surpresas assenta num cenário político apaziguado.
Essa é avaliação que dois politólogos contactados pelo PÚBLICO fazem das movimentações do Presidente da República.
À partida, há a leitura imediata que tem a ver com a "personalidade" de Cavaco e a forma como entende o cargo que ocupa. "O Presidente deseja mesmo, por programa e por defeito, que Portugal tenha um Orçamento", explica António Costa Pinto, professor de Política e História no Instituto de Ciências Sociais. Manuel Meirinho, professor no Instituto de Ciências Sociais e Políticas acrescenta que tendo em conta o que se conhece da "personalidade" de Cavaco Silva não é difícil perceber que este entende que "uma crise política só podia agravar a situação política".
A pensar na reeleição
Depois há a questão "estratégica", como Meirinho a caracteriza, que "tem mais a ver com o contexto da eleição presidencial". Cavaco Silva não quer disputar a sua reeleição em plena crise política. "Em conflito, a gestão de uma campanha eleitoral é sempre mais perigosa", explica aquele politólogo. Daí o esforço em garantir "uma espécie de apaziguamento" entre os partidos.
Além disso, explica António Costa Pinto, "Cavaco Silva, enquanto candidato à reeleição, só ganha em assumir o seu lugar institucional de um Presidente apostado na estabilidade".
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Quanto ao resultado prático destes apelos, os analistas desvalorizam-no. "Para o Presidente o fundamental é ser percepcionado como alguém que fez um esforço para que os partidos se entendam", explica Costa Pinto. Manuel Meirinho lembra que "os actores políticos estão condenados a entenderem-se", uma vez que os custos políticos para o PS e PSD da não aprovação de um Orçamento serão muito superiores aos de um acordo. Para o politólogo, o aumento de décibeis nos últimos dias à volta do OE explica-se facilmente: "Os actores tendem a aumentar a pressão [publicamente] para deixar espaço para a negociação depois", nota.
Mas a leitura da inevitabilidade do entendimento entre socialistas e sociais-democratas levanta a questão de, assim, serem desnecessárias as declarações de Cavaco Silva. "É preciso não esquecer que nos partidos não há unanimismo. No PSD, e também no PS, há vozes que pretendem esticar a corda. A intervenção do Presidente é uma precaução", adverte Meirinho.
Cavaco Silva está portanto a jogar pelo seguro. António Costa Pinto prefere chamar-lhe "desconfiança": "Cavaco Silva, enquanto Presidente e político, sempre assumiu uma prudente desconfiança em relação aos partidos. Ele está apenas a dar um sinal aos partidos. Não se esqueçam que têm que se entender."