A sombra do Estado

23-01-2011
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Miguel Cadilhe vai perder o BCP mas marca pontos e será um nome a ter em conta no futuro deste banco ou do sistema bancário português.

Começo por dar os meus parabéns a Miguel Cadilhe. Penso que não tem a mínima hipótese de ganhar a assembleia geral do BCP (‘les jeux sont faits’) e que a maior parte dos accionistas não vai arriscar um milímetro, apesar da simpatia que a lista da “iniciativa privada” motiva em boa parte das hostes. Mas, ainda assim, é importante ter avançado. A vida é feita de vitórias e de derrotas e aprende-se tanto numas como noutras. A política mostra-nos isso todos os dias (é pena que José Pedro Aguiar Branco não tenha percebido isso) e o futuro passa quase sempre por quem, algum dia em algum lugar, teve coragem de dizer o que pensava. Miguel Cadilhe vai perder o BCP mas marca pontos e será um nome a ter em conta no futuro deste banco ou do sistema bancário português. Ele e outros que aceitaram dar o nome à lista (e já agora, alguém me sabe explicar porque é que o Rui Horta e Costa, que fez um trabalho brilhante na EDP de Talone, e que está na UBS em Londres – ou seja, não precisa disto para nada –, saiu da lista de Santos Ferreira para ser repescado por Cadilhe?).Mas esta lista de última hora quase não muda uma linha ao que aqui escrevi na última semana. A triste história do Millennium BCP mostra, de uma assentada, todos os males que teimam em não largar a iniciativa privada portuguesa: accionistas sem visão ou estratégia, gestores a disputar lugares, total dependência do Estado e incapacidade para se arriscar sem ir ao beija-mão ao Terreiro do Paço. Vá lá que não há subsídios europeus à mistura, caso contrário o filme era perfeito…É óbvio que a história do BCP se fez, anos após anos, a demonstrar exactamente o contrário. Foi essa a razão do seu sucesso, mostrando-o de forma inequívoca à concorrência e ao país. Mas o melhor banco português acabou a ser salvo (vamos ver…) por um acordo tácito com o Ministério das Finanças e o gabinete do primeiro-ministro. E é isso que não faz sentido.Damos voltas e mais voltas e acabamos sempre à sombra do Estado. É um mal que vem de longe e a que o salazarismo (muito mais que a revolução) deu uma marca muito profunda. Os governos e os grandes accionistas dos bancos ainda olham para o “sistema” como nos tempos do condicionamento industrial. E este caso fez-nos recuar décadas, para o pior que este país tem. Não se confronta o Governo, não se discute legislação tonta ou reguladores abusivos e só se arriscam soluções com o ‘ok’ estatal. Em duas semanas este país ficou ainda menos liberal, o que é gravíssimo e triste. O BCP sempre foi, no seu íntimo e na sua pose, um banco profundamente conservador e até retrógrado. Mas, pelo menos, defendia o mercado, vivia longe da tutela do Estado e era, juntamente com o BPI, o exemplo máximo do renascimento do sector financeiro dos anos 80, um movimento impulsionado por Mário Soares (mais uma que o país lhe deve).Gosto pouco de falar em causa própria mas anteontem, nesta mesma página, o meu amigo Domingos Amaral misturou o caso CGD-BCP com o RTP-SIC, pelo facto de a SIC ter ido “buscar” à RTP dois quadros. Posso garantir ao Domingos e aos leitores que não pedi autorização ao ministro Santos Silva, não me ajoelhei perante a ERC nem liguei a José Sócrates (já agora, e para que fique registado, nunca o farei). O mercado televisivo é pequeno mas é um mercado (apesar de o Estado deter 50 por cento das licenças hertzianas e dois canais no Cabo) e às vezes funciona. A SIC sempre resolveu os seus desafios no mercado. É por isso que a história da Caixa e do BCP tem pouco a ver com esta. Eu percebo a tentação do “paralelismo”, mas a sombra do Estado não tem paralelo em todas as histórias. Felizmente.____Ricardo Costa, Director-geral adjunto da SIC

Miguel Cadilhe vai perder o BCP mas marca pontos e será um nome a ter em conta no futuro deste banco ou do sistema bancário português.

Começo por dar os meus parabéns a Miguel Cadilhe. Penso que não tem a mínima hipótese de ganhar a assembleia geral do BCP (‘les jeux sont faits’) e que a maior parte dos accionistas não vai arriscar um milímetro, apesar da simpatia que a lista da “iniciativa privada” motiva em boa parte das hostes. Mas, ainda assim, é importante ter avançado. A vida é feita de vitórias e de derrotas e aprende-se tanto numas como noutras. A política mostra-nos isso todos os dias (é pena que José Pedro Aguiar Branco não tenha percebido isso) e o futuro passa quase sempre por quem, algum dia em algum lugar, teve coragem de dizer o que pensava. Miguel Cadilhe vai perder o BCP mas marca pontos e será um nome a ter em conta no futuro deste banco ou do sistema bancário português. Ele e outros que aceitaram dar o nome à lista (e já agora, alguém me sabe explicar porque é que o Rui Horta e Costa, que fez um trabalho brilhante na EDP de Talone, e que está na UBS em Londres – ou seja, não precisa disto para nada –, saiu da lista de Santos Ferreira para ser repescado por Cadilhe?).Mas esta lista de última hora quase não muda uma linha ao que aqui escrevi na última semana. A triste história do Millennium BCP mostra, de uma assentada, todos os males que teimam em não largar a iniciativa privada portuguesa: accionistas sem visão ou estratégia, gestores a disputar lugares, total dependência do Estado e incapacidade para se arriscar sem ir ao beija-mão ao Terreiro do Paço. Vá lá que não há subsídios europeus à mistura, caso contrário o filme era perfeito…É óbvio que a história do BCP se fez, anos após anos, a demonstrar exactamente o contrário. Foi essa a razão do seu sucesso, mostrando-o de forma inequívoca à concorrência e ao país. Mas o melhor banco português acabou a ser salvo (vamos ver…) por um acordo tácito com o Ministério das Finanças e o gabinete do primeiro-ministro. E é isso que não faz sentido.Damos voltas e mais voltas e acabamos sempre à sombra do Estado. É um mal que vem de longe e a que o salazarismo (muito mais que a revolução) deu uma marca muito profunda. Os governos e os grandes accionistas dos bancos ainda olham para o “sistema” como nos tempos do condicionamento industrial. E este caso fez-nos recuar décadas, para o pior que este país tem. Não se confronta o Governo, não se discute legislação tonta ou reguladores abusivos e só se arriscam soluções com o ‘ok’ estatal. Em duas semanas este país ficou ainda menos liberal, o que é gravíssimo e triste. O BCP sempre foi, no seu íntimo e na sua pose, um banco profundamente conservador e até retrógrado. Mas, pelo menos, defendia o mercado, vivia longe da tutela do Estado e era, juntamente com o BPI, o exemplo máximo do renascimento do sector financeiro dos anos 80, um movimento impulsionado por Mário Soares (mais uma que o país lhe deve).Gosto pouco de falar em causa própria mas anteontem, nesta mesma página, o meu amigo Domingos Amaral misturou o caso CGD-BCP com o RTP-SIC, pelo facto de a SIC ter ido “buscar” à RTP dois quadros. Posso garantir ao Domingos e aos leitores que não pedi autorização ao ministro Santos Silva, não me ajoelhei perante a ERC nem liguei a José Sócrates (já agora, e para que fique registado, nunca o farei). O mercado televisivo é pequeno mas é um mercado (apesar de o Estado deter 50 por cento das licenças hertzianas e dois canais no Cabo) e às vezes funciona. A SIC sempre resolveu os seus desafios no mercado. É por isso que a história da Caixa e do BCP tem pouco a ver com esta. Eu percebo a tentação do “paralelismo”, mas a sombra do Estado não tem paralelo em todas as histórias. Felizmente.____Ricardo Costa, Director-geral adjunto da SIC

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