"Nautiladae", a intervenção de Francisco Aires Mateus num contentor estacionado junto ao Centro Cultural de Belém, é outra maneira de trabalhar com o espaço: não havendo uma função a cumprir, aqui não existe nada do que costuma desculpar os arquitectos. Nuno Crespo
"Nautiladae", do arquitecto Francisco Aires Mateus, inaugura o novo ciclo de programação do projecto Contentores, que propõe a reutilização dos vulgares contentores de transporte de carga marítima num contexto de arte pública. Da Doca de Santo Amaro em Alcântara, mesmo por baixo da Ponte 25 de Abril, onde ao longo dos últimos meses sofreram intervenções de Luisa Cunha, José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, R2 Design e Susanne Themliz, os Contentores viajaram para a porta principal do Centro Cultural de Belém, onde irão conhecer um ciclo de novos ocupantes.
Francisco Aires Mateus não é um artista e a sua intervenção não é o anúncio de uma nova vida, mesmo sendo para si importante reclamar para arquitectura uma condição artística. Assume este trabalho como uma experiência que, disse ao Ípsilon, "desconfia poder vir a ter reflexos na sua arquitectura". "Um artista olhará para esta experiência e verá um simples dispositivo arquitectónico, e um arquitecto olhará para isto como uma espécie de "folie" [divertimento]. Para mim qualquer possibilidade está bem", garante. A única preocupação é saber se este gesto - que consiste, essencialmente, em levar uma imagem para dentro de um espaço fechado e essa imagem ser a luz que ilumina e permite ler o interior do contentor - será visto como uma espécie de "curiosidade, e se as pessoas dirão "ai que giro" como se estivessem numa feira de diversões".
A instalação de Aires Mateus vai buscar o seu nome a uns cefalópodes marínhos arcaicos, os nautilóides, cujo olho funciona como uma espécie de câmara escura: é constituído por uma cavidade com um pequeno furo através do qual entram água, luz, e o reflexo do mundo. Este modo de ver foi o mote que o arquitecto quis trazer para os seus contentores. É impossível descrever o acontecimento espacial que criou: é um espaço em tensão, com diferentes profundidades e alturas, mas ao mesmo tempo é um percurso e um dispositivo óptico que coloca o visitante simultaneamente dentro de um lugar fechado e no meio da cidade.
Habituado às metodologias do projecto arquitectónico, Aires Mateus teve desta vez de se confrontar com a sua ausência; no seu lugar, encontrou unicamente o limite imposto pela forma dos dois contentores. A maneira como os abordou, no entanto, fez com que tivesse chegado ao fim do processo "a trabalhar com aquilo que são os temas muitos normais da arquitectura: um espaço, a luz que o revela, a tensão entre o interior e o exterior, o percurso e a cidade."
A esta intuição inicial afirma ter-se juntado "a ideia de um espaço interior controlado e privado em relação com um mundo mais desordenado e casual que se projecta dentro do espaço". Esse mundo "é a própria cidade", que aparece "projectada e invertida dentro do contentor", ocupando todo o espaço disponível. Ao sair da cidade para entrar nesse espaço, o visitante está afinal a a entrar na cidade, a entrar na imagem - e surpreende-se ao perceber que aquilo que parece a sua própria intimidade é, afinal, o mundo exterior.
Da técnica à poesia
Mesmo dando-se conta de que o seu ponto de vista é o de um arquitecto e a sua maneira de fazer a da arquitectura, Aires Mateus aproveitou a grande liberdade dada pela inexistência dos limites formais, materiais, territoriais e legais da arquitectura. "Aqui não existia nada do que costuma desculpar os arquitectos, que é a obrigatoriedade de dar uma funcionalidade evidente ao edifício. Fica unicamente a experiência espacial despida de desculpas. A arquitectura tem um enorme trabalho invisível de dar resposta a perguntas concretas; só depois de alcançado esse patamar a arquitectura pode acontecer. A partir desse ponto, a arquitectura deixa de ser construção e transforma-se numa experiência que se pode dizer poética, artística ou outra coisa do género."
O que não significa assumir que a arquitectura é um objecto artístico, mas sublinhar a pertinência cultural e o valor estético daquilo que se constrói. Para Aires Mateus, "apesar de todas as diferenças entre a arquitectura e as artes, a arquitectura não pode deixar de reivindicar uma condição artística que tem o dever de ter": "É no cruzamento entre a enorme carga técnica e o aspecto poético que se gera a arquitectura", conclui, sem nenhum tipo de nostalgia pelos tempos em que disciplina era ensinada nas escolas de Belas-Artes e convivia com desenhadores e escultores. A questão técnica e construtiva, argumenta, não é o fim da arquitectura, mas o seu princípio.
Um laboratório
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"Nautiladae" é, fundamentalmente, uma experiência. Mesmo já tendo tido situações semelhantes, nomeadamente nas exposições dos projectos de arquitectura feitos com o seu irmão, Manuel, com quem habitualmente trabalha, esta é uma primeira vez para Francisco Aires Mateus. Por isso, a intervenção nos contentores funcionou como uma espécie de laboratório. Experimentar é um lugar habitual nos trabalhos que os Aires Mateus desenvolvem porque, fundamentalmente, o que mais profundamente partilham não é o fazer, mas a pesquisa. Trata-se não de encontrar truques e efeitos especiais que prontamente se tiram da mala e resolvem tudo, mas de testar, compreender e descobrir diferentes maneiras de construir experiências espaciais relevantes.
Experimentar, pesquisar, descobrir são vocabulários importantes para esta arquitectura, e designam acontecimentos que normalmente ocorrem nas maquetas em que exploram, como diz Francisco Aires Mateus, "não só espaço, mas condições materiais muito específicas": "Para nós a maqueta é fundamental como material de laboratório. E exprime desejos para os espaços que não comprometem a nossa arquitectura. Por exemplo, fizemos uma maqueta para o farol de Santa Marta que era forrada a folha de ouro, e este gesto correspondia ao desejo de sacralização daquele espaço, da sua relação com o mar e com a luz vinda do farol. Queríamos um espaço de silêncio e reflexão e a maqueta deu expressão a este desejo, ainda que no final o farol não tenha ficado como na maqueta."
Se por um lado as maquetas são a expressão fundamental da intuição arquitectónica e do que mais profundamente alimenta a resposta dada ao desafio de construir um espaço, por outro lado elas permitem compreender e antecipar o carácter dos espaços projectados: "A partir de determinada escala, à maneira das grandes maquetas do Renascimento, consegue-se ter a cabeça dentro dos espaços da maqueta e antecipar, não anulando as surpresas que a transição para a escala real muitas vezes traz, o que vai ser aquela realidade espacial."
Se os contentores de Aires Mateus não são arquitectura no sentido mais tradicional da configuração de uma estrutura material que responde a um enunciado, eles revelam o que a sua arquitectura tem de mais característico: "a procura do carácter especifico para cada construção". Ou seja, uma arquitectura original que nega a serialidade e o pensamento modular e prefere assumir cada construção como um objecto irrepetível, intimo, quase fetichista.
"Nautiladae", a intervenção de Francisco Aires Mateus num contentor estacionado junto ao Centro Cultural de Belém, é outra maneira de trabalhar com o espaço: não havendo uma função a cumprir, aqui não existe nada do que costuma desculpar os arquitectos. Nuno Crespo
"Nautiladae", do arquitecto Francisco Aires Mateus, inaugura o novo ciclo de programação do projecto Contentores, que propõe a reutilização dos vulgares contentores de transporte de carga marítima num contexto de arte pública. Da Doca de Santo Amaro em Alcântara, mesmo por baixo da Ponte 25 de Abril, onde ao longo dos últimos meses sofreram intervenções de Luisa Cunha, José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, R2 Design e Susanne Themliz, os Contentores viajaram para a porta principal do Centro Cultural de Belém, onde irão conhecer um ciclo de novos ocupantes.
Francisco Aires Mateus não é um artista e a sua intervenção não é o anúncio de uma nova vida, mesmo sendo para si importante reclamar para arquitectura uma condição artística. Assume este trabalho como uma experiência que, disse ao Ípsilon, "desconfia poder vir a ter reflexos na sua arquitectura". "Um artista olhará para esta experiência e verá um simples dispositivo arquitectónico, e um arquitecto olhará para isto como uma espécie de "folie" [divertimento]. Para mim qualquer possibilidade está bem", garante. A única preocupação é saber se este gesto - que consiste, essencialmente, em levar uma imagem para dentro de um espaço fechado e essa imagem ser a luz que ilumina e permite ler o interior do contentor - será visto como uma espécie de "curiosidade, e se as pessoas dirão "ai que giro" como se estivessem numa feira de diversões".
A instalação de Aires Mateus vai buscar o seu nome a uns cefalópodes marínhos arcaicos, os nautilóides, cujo olho funciona como uma espécie de câmara escura: é constituído por uma cavidade com um pequeno furo através do qual entram água, luz, e o reflexo do mundo. Este modo de ver foi o mote que o arquitecto quis trazer para os seus contentores. É impossível descrever o acontecimento espacial que criou: é um espaço em tensão, com diferentes profundidades e alturas, mas ao mesmo tempo é um percurso e um dispositivo óptico que coloca o visitante simultaneamente dentro de um lugar fechado e no meio da cidade.
Habituado às metodologias do projecto arquitectónico, Aires Mateus teve desta vez de se confrontar com a sua ausência; no seu lugar, encontrou unicamente o limite imposto pela forma dos dois contentores. A maneira como os abordou, no entanto, fez com que tivesse chegado ao fim do processo "a trabalhar com aquilo que são os temas muitos normais da arquitectura: um espaço, a luz que o revela, a tensão entre o interior e o exterior, o percurso e a cidade."
A esta intuição inicial afirma ter-se juntado "a ideia de um espaço interior controlado e privado em relação com um mundo mais desordenado e casual que se projecta dentro do espaço". Esse mundo "é a própria cidade", que aparece "projectada e invertida dentro do contentor", ocupando todo o espaço disponível. Ao sair da cidade para entrar nesse espaço, o visitante está afinal a a entrar na cidade, a entrar na imagem - e surpreende-se ao perceber que aquilo que parece a sua própria intimidade é, afinal, o mundo exterior.
Da técnica à poesia
Mesmo dando-se conta de que o seu ponto de vista é o de um arquitecto e a sua maneira de fazer a da arquitectura, Aires Mateus aproveitou a grande liberdade dada pela inexistência dos limites formais, materiais, territoriais e legais da arquitectura. "Aqui não existia nada do que costuma desculpar os arquitectos, que é a obrigatoriedade de dar uma funcionalidade evidente ao edifício. Fica unicamente a experiência espacial despida de desculpas. A arquitectura tem um enorme trabalho invisível de dar resposta a perguntas concretas; só depois de alcançado esse patamar a arquitectura pode acontecer. A partir desse ponto, a arquitectura deixa de ser construção e transforma-se numa experiência que se pode dizer poética, artística ou outra coisa do género."
O que não significa assumir que a arquitectura é um objecto artístico, mas sublinhar a pertinência cultural e o valor estético daquilo que se constrói. Para Aires Mateus, "apesar de todas as diferenças entre a arquitectura e as artes, a arquitectura não pode deixar de reivindicar uma condição artística que tem o dever de ter": "É no cruzamento entre a enorme carga técnica e o aspecto poético que se gera a arquitectura", conclui, sem nenhum tipo de nostalgia pelos tempos em que disciplina era ensinada nas escolas de Belas-Artes e convivia com desenhadores e escultores. A questão técnica e construtiva, argumenta, não é o fim da arquitectura, mas o seu princípio.
Um laboratório
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"Nautiladae" é, fundamentalmente, uma experiência. Mesmo já tendo tido situações semelhantes, nomeadamente nas exposições dos projectos de arquitectura feitos com o seu irmão, Manuel, com quem habitualmente trabalha, esta é uma primeira vez para Francisco Aires Mateus. Por isso, a intervenção nos contentores funcionou como uma espécie de laboratório. Experimentar é um lugar habitual nos trabalhos que os Aires Mateus desenvolvem porque, fundamentalmente, o que mais profundamente partilham não é o fazer, mas a pesquisa. Trata-se não de encontrar truques e efeitos especiais que prontamente se tiram da mala e resolvem tudo, mas de testar, compreender e descobrir diferentes maneiras de construir experiências espaciais relevantes.
Experimentar, pesquisar, descobrir são vocabulários importantes para esta arquitectura, e designam acontecimentos que normalmente ocorrem nas maquetas em que exploram, como diz Francisco Aires Mateus, "não só espaço, mas condições materiais muito específicas": "Para nós a maqueta é fundamental como material de laboratório. E exprime desejos para os espaços que não comprometem a nossa arquitectura. Por exemplo, fizemos uma maqueta para o farol de Santa Marta que era forrada a folha de ouro, e este gesto correspondia ao desejo de sacralização daquele espaço, da sua relação com o mar e com a luz vinda do farol. Queríamos um espaço de silêncio e reflexão e a maqueta deu expressão a este desejo, ainda que no final o farol não tenha ficado como na maqueta."
Se por um lado as maquetas são a expressão fundamental da intuição arquitectónica e do que mais profundamente alimenta a resposta dada ao desafio de construir um espaço, por outro lado elas permitem compreender e antecipar o carácter dos espaços projectados: "A partir de determinada escala, à maneira das grandes maquetas do Renascimento, consegue-se ter a cabeça dentro dos espaços da maqueta e antecipar, não anulando as surpresas que a transição para a escala real muitas vezes traz, o que vai ser aquela realidade espacial."
Se os contentores de Aires Mateus não são arquitectura no sentido mais tradicional da configuração de uma estrutura material que responde a um enunciado, eles revelam o que a sua arquitectura tem de mais característico: "a procura do carácter especifico para cada construção". Ou seja, uma arquitectura original que nega a serialidade e o pensamento modular e prefere assumir cada construção como um objecto irrepetível, intimo, quase fetichista.