Dias com árvores: O Marquês não volta mais

18-12-2009
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O Jardim do Marquês, recém-recuperado pela Metro do Porto, a mesma empresa que quase o destruiu, não foi pretexto para qualquer cerimónia de cortar-a-fita: simplesmente tirou-se a vedação, permitindo-se assim o regresso dos frequentadores. Pode atribuir-se esta discrição à modéstia, mas também observar-se que, quatro semanas após a abertura, os trabalhos de jardinagem ainda não parecem concluídos, persistindo, em algumas das zonas verdes, o castanho do solo despido. Avanço ainda assim com uma opinião, pois se esperasse até tudo estar pronto o assunto perderia oportunidade. Oxalá parte das críticas falhem o alvo: seria sinal de que aquilo que falta fazer é melhor do que deixa adivinhar quanto já foi feito.Mantendo-se embora o coreto, os bancos (antes vermelhos, agora verdes), as palmeiras e quase todos os plátanos (alguns, porém, muito maltratados), o carácter do jardim foi irreversivelmente transformado: as saudades do Marquês afinal não têm cura. A fonte circular transferida da Praça D. João I, dividindo-se em dois patamares, é mais alta, limpa e moderna do que a sua antecessora; a água, em vez de esguichar debilmente, jorra agora do patamar superior em vistosa abóboda; em redor da fonte, o desaparecimento de vários plátanos e a supressão da bordadura florida criaram uma clareira ensolarada, muito diversa do aconchego romântico de outrora.Além do respiradouro gradeado, abriram-se no jardim dois acessos à estação do metro. O efeito não é intrusivo, pois arredaram-se as saídas para a periferia (uma a nordeste, outra a sudoeste), e camuflaram-se os muretes de protecção com duas longas sebes de camélias. Sem se prejudicar a circulação dos utentes, e respeitando-se a simetria do desenho original, aumentou-se visivelmente o espaço reservado à vegetação. Dois plátanos enfraquecidos, mas preciosos pela sombra que asseguram, foram escorados com cabos para evitar o seu abate. Camélias às dúzias, plátanos amparados na velhice: são setas que me apontam ao coração, deixando-me quase incapaz de dizer mal.Mas algum mal é preciso dizer, pois o efeito geral do jardim não é agradável. Faltam ainda muitas plantas nos canteiros; mas, se não se diversificar a sua escolha, ou se os espaços agora vazios se destinarem a relvados, o resultado final não é promissor: demasiado buxo, algumas piracantas, umas ervitas rastejantes; tudo de um verde monótono, impenitente, sem alegria, que o colorido das flores sazonais - aqui proscritas tal como sucedeu nos Aliados, Rotunda da Boavista, Cordoaria, Avenida Montevideu, Praça do Infante, etc. - nunca irá aliviar.É trágico que o espaço público do Porto esteja refém de arquitectos guiados por uma ideia desvairada e obsessiva: a de que os canteiros floridos são incompatíveis com a modernidade. Enquistados na sua bisonha auto-suficiência, deles não podemos esperar que algum dia abram os sentidos ao fascínio das flores; mas que a cidade seja por eles condenada à mesma cegueira é de um despotismo insuportável.


O Jardim do Marquês, recém-recuperado pela Metro do Porto, a mesma empresa que quase o destruiu, não foi pretexto para qualquer cerimónia de cortar-a-fita: simplesmente tirou-se a vedação, permitindo-se assim o regresso dos frequentadores. Pode atribuir-se esta discrição à modéstia, mas também observar-se que, quatro semanas após a abertura, os trabalhos de jardinagem ainda não parecem concluídos, persistindo, em algumas das zonas verdes, o castanho do solo despido. Avanço ainda assim com uma opinião, pois se esperasse até tudo estar pronto o assunto perderia oportunidade. Oxalá parte das críticas falhem o alvo: seria sinal de que aquilo que falta fazer é melhor do que deixa adivinhar quanto já foi feito.Mantendo-se embora o coreto, os bancos (antes vermelhos, agora verdes), as palmeiras e quase todos os plátanos (alguns, porém, muito maltratados), o carácter do jardim foi irreversivelmente transformado: as saudades do Marquês afinal não têm cura. A fonte circular transferida da Praça D. João I, dividindo-se em dois patamares, é mais alta, limpa e moderna do que a sua antecessora; a água, em vez de esguichar debilmente, jorra agora do patamar superior em vistosa abóboda; em redor da fonte, o desaparecimento de vários plátanos e a supressão da bordadura florida criaram uma clareira ensolarada, muito diversa do aconchego romântico de outrora.Além do respiradouro gradeado, abriram-se no jardim dois acessos à estação do metro. O efeito não é intrusivo, pois arredaram-se as saídas para a periferia (uma a nordeste, outra a sudoeste), e camuflaram-se os muretes de protecção com duas longas sebes de camélias. Sem se prejudicar a circulação dos utentes, e respeitando-se a simetria do desenho original, aumentou-se visivelmente o espaço reservado à vegetação. Dois plátanos enfraquecidos, mas preciosos pela sombra que asseguram, foram escorados com cabos para evitar o seu abate. Camélias às dúzias, plátanos amparados na velhice: são setas que me apontam ao coração, deixando-me quase incapaz de dizer mal.Mas algum mal é preciso dizer, pois o efeito geral do jardim não é agradável. Faltam ainda muitas plantas nos canteiros; mas, se não se diversificar a sua escolha, ou se os espaços agora vazios se destinarem a relvados, o resultado final não é promissor: demasiado buxo, algumas piracantas, umas ervitas rastejantes; tudo de um verde monótono, impenitente, sem alegria, que o colorido das flores sazonais - aqui proscritas tal como sucedeu nos Aliados, Rotunda da Boavista, Cordoaria, Avenida Montevideu, Praça do Infante, etc. - nunca irá aliviar.É trágico que o espaço público do Porto esteja refém de arquitectos guiados por uma ideia desvairada e obsessiva: a de que os canteiros floridos são incompatíveis com a modernidade. Enquistados na sua bisonha auto-suficiência, deles não podemos esperar que algum dia abram os sentidos ao fascínio das flores; mas que a cidade seja por eles condenada à mesma cegueira é de um despotismo insuportável.

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