Dias com árvores: Sorriso amarelo

19-12-2009
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Aetheorhiza bulbosaQue foi? Nada, cismo... A testa é mesmo para preguear, senão esqueço-me dela, lisa e parada como lençol no estendal em dia sem vento. Hoje terei de falar de uma Asteracea. Difíceis de identificar, credo. Mas eles também já as descobriram, olha se não, e publicam fotos enfeit(iça)adas de nevoeiro. Eu só encontro flores limpas, escovadas, sem insectos nem exsectos. Seria melhor fechar a loja. Uma calêndula, de calendae, uma alusão subtil ao primeiro dia do mês. Como é que não me lembrei disto? Não lhes revelo nada, assim ninguém repara na flor oportuna que eles exibiram ontem. Verdade que eles têm ajuda da natureza, um favorecimento escandaloso, mal apontam a objectiva vem logo um diabinho colorido e dengoso, ainda com pingos de néctar na camisa e a palitar os dentes, sentar-se sorridente de patinha cruzada enquanto a cabecinha lhe descai amorosamente numa pétala. Eu desisto. E os milhões gastos em publicidade enganosa? Claro, não há moscardo que não caia no logro, nem ramo que não se dobre em arco a encher de música o jardim deles. E os aplausos que recebem, hã? Tantas visitas e encómios, dá vontade de lhes rasgar os elogios. Custava partilhar as dezenas de comentários? A nossa é uma caixa de «comentário», sem plural dada a avareza, tenho de me lembrar de olear as dobradiças da tampa, já rangem da falta de uso. Ai, por que não penso em coisa boa? Esta flor, sim, é bonita, pastora de sol, morenaça, parece que vai rodopiar num bailado, a areia pronta para lhe arranhar a pele. Vive num escarcéu de espuma, cascos de navios, sussurros de maré. É uma injustiça nós só termos janelas viradas a poente e eles se poderem regalar com uma varanda para a Floresta Negra. (Ah, a Floresta Negra! Faria um brasileiro qualquer, um amazonense então, se dobrar de rir! Uma florestinha de nada! Negra! Só se for para eles, anêmica isso sim, cada tronco finiiiiinho... a um quilômetro um do outro, transparente a tal da Floresta Negra.*) Hoje não vou explicar nada, nem de onde vem o nome Aetheorhiza bulbosa, ora, bulbosa eles sabem, condrila-de-dioscórides é que nem pensar, seria gargalhada certa, quem acredita que o povo lhe chama filha de Zeus? Deve haver um dicionário com todas as palavras, livro grande, caro, não tenho, mas lá está certamente outro nome comum para esta planta. Vinha a jeito agora um doutoramento em malmequeres. Daria autoridade, passariam a tratar-nos assim na palma da mão, mesmo que a sombra fosse rala. E nós, oh, orgulhosos que nem faróis, com licença, até logo. Está na hora de começar a escrever o post, à meia-noite tem de estar nas bancas. Antes verifico se a tal condrila tem uso medicinal, sempre gera um comentário, ou dois com os obrigados. Talvez seja boa para o mal-de-inveja, dizem que grassa por aí, não sei, só tenho sentido dor de resfriado.*Zulmira Ribeiro Tavares, Café pequeno (Companhia das Letras, 1995)


Aetheorhiza bulbosaQue foi? Nada, cismo... A testa é mesmo para preguear, senão esqueço-me dela, lisa e parada como lençol no estendal em dia sem vento. Hoje terei de falar de uma Asteracea. Difíceis de identificar, credo. Mas eles também já as descobriram, olha se não, e publicam fotos enfeit(iça)adas de nevoeiro. Eu só encontro flores limpas, escovadas, sem insectos nem exsectos. Seria melhor fechar a loja. Uma calêndula, de calendae, uma alusão subtil ao primeiro dia do mês. Como é que não me lembrei disto? Não lhes revelo nada, assim ninguém repara na flor oportuna que eles exibiram ontem. Verdade que eles têm ajuda da natureza, um favorecimento escandaloso, mal apontam a objectiva vem logo um diabinho colorido e dengoso, ainda com pingos de néctar na camisa e a palitar os dentes, sentar-se sorridente de patinha cruzada enquanto a cabecinha lhe descai amorosamente numa pétala. Eu desisto. E os milhões gastos em publicidade enganosa? Claro, não há moscardo que não caia no logro, nem ramo que não se dobre em arco a encher de música o jardim deles. E os aplausos que recebem, hã? Tantas visitas e encómios, dá vontade de lhes rasgar os elogios. Custava partilhar as dezenas de comentários? A nossa é uma caixa de «comentário», sem plural dada a avareza, tenho de me lembrar de olear as dobradiças da tampa, já rangem da falta de uso. Ai, por que não penso em coisa boa? Esta flor, sim, é bonita, pastora de sol, morenaça, parece que vai rodopiar num bailado, a areia pronta para lhe arranhar a pele. Vive num escarcéu de espuma, cascos de navios, sussurros de maré. É uma injustiça nós só termos janelas viradas a poente e eles se poderem regalar com uma varanda para a Floresta Negra. (Ah, a Floresta Negra! Faria um brasileiro qualquer, um amazonense então, se dobrar de rir! Uma florestinha de nada! Negra! Só se for para eles, anêmica isso sim, cada tronco finiiiiinho... a um quilômetro um do outro, transparente a tal da Floresta Negra.*) Hoje não vou explicar nada, nem de onde vem o nome Aetheorhiza bulbosa, ora, bulbosa eles sabem, condrila-de-dioscórides é que nem pensar, seria gargalhada certa, quem acredita que o povo lhe chama filha de Zeus? Deve haver um dicionário com todas as palavras, livro grande, caro, não tenho, mas lá está certamente outro nome comum para esta planta. Vinha a jeito agora um doutoramento em malmequeres. Daria autoridade, passariam a tratar-nos assim na palma da mão, mesmo que a sombra fosse rala. E nós, oh, orgulhosos que nem faróis, com licença, até logo. Está na hora de começar a escrever o post, à meia-noite tem de estar nas bancas. Antes verifico se a tal condrila tem uso medicinal, sempre gera um comentário, ou dois com os obrigados. Talvez seja boa para o mal-de-inveja, dizem que grassa por aí, não sei, só tenho sentido dor de resfriado.*Zulmira Ribeiro Tavares, Café pequeno (Companhia das Letras, 1995)

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