Voz Em Fuga: Resumo de um ano banal

19-12-2009
marcar artigo

Aqui está minha vida.Esta areia tão clara com desenhos de andar dedicados ao vento.Aqui está minha voz,esta concha vazia, sombra de somcurtindo seu próprio lamento.Aqui está minha dor,este coral quebrado,sobrevivendo ao seu patético momento.Aqui está minha herança,este mar solitárioque de um lado era amor e, de outro, esquecimento.Cecília MeirelesNão mudei de emprego, não troquei de casa, não troquei de carro. Fui aumentada abaixo da inflação, ganhei uns prémios, perdi outro por 69 pontos (cabrão de número!). Deram-me cabo do juízo e eu dei cabo do juízo a alguns. Mandei os médicos pastar e os remédios pela retrete abaixo. Emagreci uns quilos e tive de comprar roupa nova. Comprei uns sapatos novos para o carro. O mais longe que viajei foi Barcelona, mas a feira do sexo já tinha acabado. Não troquei de homem, fui trocando. Não me apaixonei nem me partiram o coração. Fui ao cinema como de costume. E fui para os copos de vez em quando. Aproveitei para visitar amigos, mesmo que as saudades não parem de aumentar. Quase morri por duas vezes. Chorei muitas mais. Ri-me desalmadamente sempre que pude. Insultei condutores e políticos, com a mesma vontade e igual vigor. Confessei pecadilhos e lidei com culpas. Pedi desculpas um par de vezes. Pediram-me desculpas a mim. Não fiz um filho. Nem escrevi um livro. Nem plantei sequer uma árvore. Fui mal humorada, cabra muitas vezes. Ofereci ajuda sempre que o soube fazer. Escondi-me da vida mais um bocadinho e irritei-me por deixar a vida passar. Senti-me velha. Senti-me jovem. Fui ingénua. Fui sabida. Fui teimosa e fui mordaz. Fui amiga, acho, mesmo que nos meus silêncios. Fui ausente, demasiadas vezes. Estive presente sempre que me pediram. Beijei sempre que pude e tive vontade. Irisei-me com um par de assuntos e não sei quantas palmadinhas na cabeça. Confundi-me. Perdi-me. Calei-me. Gritei de dor e de prazer. Chorei com as histórias dos outros. Guardei as minhas lágrimas, como de costume. Aprendi algumas coisas. Repeti erros velhos. Não sonhei o suficiente...E não aconteceu nada de importante...

Aqui está minha vida.Esta areia tão clara com desenhos de andar dedicados ao vento.Aqui está minha voz,esta concha vazia, sombra de somcurtindo seu próprio lamento.Aqui está minha dor,este coral quebrado,sobrevivendo ao seu patético momento.Aqui está minha herança,este mar solitárioque de um lado era amor e, de outro, esquecimento.Cecília MeirelesNão mudei de emprego, não troquei de casa, não troquei de carro. Fui aumentada abaixo da inflação, ganhei uns prémios, perdi outro por 69 pontos (cabrão de número!). Deram-me cabo do juízo e eu dei cabo do juízo a alguns. Mandei os médicos pastar e os remédios pela retrete abaixo. Emagreci uns quilos e tive de comprar roupa nova. Comprei uns sapatos novos para o carro. O mais longe que viajei foi Barcelona, mas a feira do sexo já tinha acabado. Não troquei de homem, fui trocando. Não me apaixonei nem me partiram o coração. Fui ao cinema como de costume. E fui para os copos de vez em quando. Aproveitei para visitar amigos, mesmo que as saudades não parem de aumentar. Quase morri por duas vezes. Chorei muitas mais. Ri-me desalmadamente sempre que pude. Insultei condutores e políticos, com a mesma vontade e igual vigor. Confessei pecadilhos e lidei com culpas. Pedi desculpas um par de vezes. Pediram-me desculpas a mim. Não fiz um filho. Nem escrevi um livro. Nem plantei sequer uma árvore. Fui mal humorada, cabra muitas vezes. Ofereci ajuda sempre que o soube fazer. Escondi-me da vida mais um bocadinho e irritei-me por deixar a vida passar. Senti-me velha. Senti-me jovem. Fui ingénua. Fui sabida. Fui teimosa e fui mordaz. Fui amiga, acho, mesmo que nos meus silêncios. Fui ausente, demasiadas vezes. Estive presente sempre que me pediram. Beijei sempre que pude e tive vontade. Irisei-me com um par de assuntos e não sei quantas palmadinhas na cabeça. Confundi-me. Perdi-me. Calei-me. Gritei de dor e de prazer. Chorei com as histórias dos outros. Guardei as minhas lágrimas, como de costume. Aprendi algumas coisas. Repeti erros velhos. Não sonhei o suficiente...E não aconteceu nada de importante...

marcar artigo