Como fazernão encontros, desencontros e encontrões.Ela tem 36 anos. É bonita, veste-se muito bem, é bem formada pessoal e profissionalmente.Está empenhada num projecto público importante. Sente a responsabilidade e o sabor do desafio. Por isso, de cada vez que algum dos seus colaboradores ou colegas entra no seu gabinete com alguma questão ligada ao seu desafio, ela desata a gritar. Não sabe falar-lhes doutra maneira. Tem medo de falhar. De não conseguir dar conta de um recado grande. E grita. Grita-lhes.E os outros ficam a olhar sem perceber. Alguns dão meia volta, vão-se embora dizendo que ela é maluca. Entre eles há um que parece fazer de pai: “Fala mais baixo… não te irrites… fala mais baixo”, diz ele quase em surdina, pausadamente, exibindo toneladas de paciência. E volta sempre, por mais que ela lhe grite.Ela vive concentrada sobre si e sobre as coisas que a envolvem. O resto não existe.Ele é um comunicador. Nato e construído. Tem interesses diversificados e a experiência de 53 anos de vida. Sempre procurou a liberdade. Agora vive com ela. Quase sozinho com ela.Quando entra alguém no seu espaço, atira-se-lhe sofregamente. Com críticas, opiniões, histórias, memórias, saberes, experiência. Fala alto, entusiasmado, dizendo que não é de si que fala. Com uma tal necessidade de se encontrar com o outro que o assusta e exaspera.E os outros ficam a olhar sem perceber. Alguns dão meia volta e vão-se embora dizendo que ele é maluco. Entre eles há quem pareça fazer de pai, de mãe, de filho… Esses são os que vão e voltam sempre.Fico a ver …pensando que comunicar aos outro o que sentimos e o que queremos é estrondosamente difícil… e que é aqui que nasce a indomável raiz das solidões, dos individualismos, dos não encontros, dos desencontros e dos encontrões.Que comunicar com os outros é algo que começamos a achar que sabemos fazer, aí por volta dos 2 ou 3 anos. Depois esquecemo-nos disso durante a maior parte da vida..
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Como fazernão encontros, desencontros e encontrões.Ela tem 36 anos. É bonita, veste-se muito bem, é bem formada pessoal e profissionalmente.Está empenhada num projecto público importante. Sente a responsabilidade e o sabor do desafio. Por isso, de cada vez que algum dos seus colaboradores ou colegas entra no seu gabinete com alguma questão ligada ao seu desafio, ela desata a gritar. Não sabe falar-lhes doutra maneira. Tem medo de falhar. De não conseguir dar conta de um recado grande. E grita. Grita-lhes.E os outros ficam a olhar sem perceber. Alguns dão meia volta, vão-se embora dizendo que ela é maluca. Entre eles há um que parece fazer de pai: “Fala mais baixo… não te irrites… fala mais baixo”, diz ele quase em surdina, pausadamente, exibindo toneladas de paciência. E volta sempre, por mais que ela lhe grite.Ela vive concentrada sobre si e sobre as coisas que a envolvem. O resto não existe.Ele é um comunicador. Nato e construído. Tem interesses diversificados e a experiência de 53 anos de vida. Sempre procurou a liberdade. Agora vive com ela. Quase sozinho com ela.Quando entra alguém no seu espaço, atira-se-lhe sofregamente. Com críticas, opiniões, histórias, memórias, saberes, experiência. Fala alto, entusiasmado, dizendo que não é de si que fala. Com uma tal necessidade de se encontrar com o outro que o assusta e exaspera.E os outros ficam a olhar sem perceber. Alguns dão meia volta e vão-se embora dizendo que ele é maluco. Entre eles há quem pareça fazer de pai, de mãe, de filho… Esses são os que vão e voltam sempre.Fico a ver …pensando que comunicar aos outro o que sentimos e o que queremos é estrondosamente difícil… e que é aqui que nasce a indomável raiz das solidões, dos individualismos, dos não encontros, dos desencontros e dos encontrões.Que comunicar com os outros é algo que começamos a achar que sabemos fazer, aí por volta dos 2 ou 3 anos. Depois esquecemo-nos disso durante a maior parte da vida..